A literatura oral, a contação de histórias no Brasil-colonial, gestadas durante o período escravocrata, tem como contadores os negros velhos, a “negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado”, nas palavras de Gilberto Freyre, em sua
Casa-Grande e Senzala, falando das amas-de-leite que acalentavam os filhos dos brancos. A
confluência das três raças - européia, africana e indígena - possibilitou imensa riqueza na produção e nas reproduções de histórias e de cantilenas, adaptadas de acordo com a realidade local, que povoavam o universo infantil e supriam a carência da produção escrita. De acordo com o autor, “mesmo a língua falada conservou-se por algum tempo dividida em duas: uma, das casas-grandes; outra, das senzalas. Mas a aliança da ama negra com o menino branco, da mucama com sinhá-moça, do sinhozinho com o moleque acabaram com a dualidade”
(FREYRE, 2004: p. 416). Salientamos que os estudos em Sociolingüística apontam para distintas modalidades de discurso oral, influenciadas por diversas variáveis (classe social, sexo, idade, função) e mesmo pela nova classificação de linguagem oral, que não se restringe somente à interação face a face, mas em outros contextos de uso. Pensar, portanto, que a comunicação de interlocutores de níveis socioculturais diferentes favorece à aprendizagem de uma linguagem oral, mais próxima da linguagem padrão, parece-nos simplista, pois, se a aprendizagem ocorresse desse modo, a educação, no tocante ao ensino-aprendizagem dos conteúdos sistematizados, seria incumbência fácil, não sendo, pois, o que se percebe na realidade.
Para o autor, nessa aculturação, sobrevivem elementos trazidos da cultura africana, na qual a contação de histórias não era só uma profissão como também um sacerdócio. Os
akpalô kpatita faziam votos de andarem de lugar em lugar, recitando, narrando histórias,
como se fossem missionários da literatura. Obras clássicas como Menino de Engenho, de José Lins do Rego, ilustram esses acontecimentos, no Brasil
(...) a velha Totonha de quando em vez batia no engenho. E era um acontecimento para a meninada. Ela vivia de contar histórias de Trancoso. Pequenina e toda engelhada, tão leve que uma ventania poderia carregá-la, andava léguas e léguas a pé, de engenho em engenho, como se uma edição viva das Mil e uma noites. Que talento ela possuía para contar histórias, com um jeito admirável de falar em nome de todos os personagens! Sem um dente na boca, e com uma voz que dava os tons às palavra. As suas histórias para mim valiam tudo.(...) Repetia, contava mais uma, entrava por uma perna de pinto e saia por uma perna de pato, sempre com aquele seu sorriso de avó de gravura dos livros de história. E as suas lendas eram suas, ninguém sabia contar como ela. Havia uma nota pessoal na modulação de sua voz e uma expressão de humanidade nos reis e nas rainhas dos seus contos. O seu pequeno polegar era diferente. A sua avó que engordava os meninos para comer era mais cruel que a das que outros contavam. (REGO, 2003 p.44-45).
Percebemos, também, a alusão aos clássicos da literatura universal. Não são somente as histórias de Trancoso, de mula-sem-cabeça, de lobisomem, de caipora, de cabriola e de burra-de-padre, duendes e toda sorte de criação povoavam o universo infantil desse período, conforme narra a personagem da obra:
(...) as histórias de Trancoso falavam muito das carruagens. E sinhá Totonha nos contava os seus romances, com princesas que andavam pelas estradas reais, em carros que tiniam as campanhias como o de seu Lula. Maria Borralheira perdera um sapato descendo de uma carruagem daquelas. (Ibid p. 67).
No Brasil colonial, Capistrano de Abreu diz: “poucas crianças aprendiam a ler. Com a raridade dos livros exercitava-se a leitura em manuscritos” (apud, ARROYO, 1968: p.
61). Isso reflete a presença de duas culturas na realidade nacional: a popular e a de elite. Posteriormente, essas duas culturas entrelaçam-se, no que diz respeito à Literatura Infantil, com a publicação de lendas regionais e de contos do folclore brasileiro, enfim, e promovem uma síntese dessas duas formas de se ler o mundo, uma vez que o fascínio pelas narrativas fabulosas atrai diversificado público de leitores.
Em 1894, Alberto Figueiredo Pimentel contribui para o processo de transposição do oral para o escrito, no Brasil, reunindo da tradição oral e traduzindo diversos contos. Em Portugal, contos populares também são colhidos da tradição oral, reformulados e publicados, juntamente com outros originais, por Ana de Castro Osório. Logo depois, Monteiro Lobato (1882-1948) escrevia e também reescrevia diversas fábulas e, ainda, a história do Jeca Tatu e um ciclo de histórias do Sítio do Pica-pau-amarelo, misturando ficção e realidade, tornando- se um dos maiores escritores da Literatura Infantil brasileira.
A Literatura Infantil brasileira, surgida no século XX, depois da Abolição da Escravatura e motivada pelas campanhas nacionais de alfabetização, não escapou à tendência em priorizar o aspecto pedagógico. Como explicamos anteriormente, pesquisas realizadas por Amarilha (1997) constataram a utilização do texto literário com a finalidade de exercícios escolares ou, ainda, para acalmar e para impor disciplina às crianças.
Para Coutinho (2004), a Literatura infantil é funcional, ou seja, existe em função de um público que se encanta com esse nível de tipologias textuais, porque se sente compreendida, quase que adivinhada, ao ingressar no mundo mágico vivido pelas personagens. O uso que a escola faz dessa literatura é que pode ser discutido, mas é indiscutível que essa literatura existe e subsiste porque é útil a quem a lê. Segundo esse autor,
A Literatura Infantil é por essência desinteressada, no sentido do ensino sistemático, embora deva ser educativa e possa ser instrutiva. Seu fim é emocionar artisticamente a criança, pelo sublime, pelo cômico, pelo patético, pelo trágico, pelo pitoresco ou pela aventura e, ao mesmo tempo, despertar-lhe a imaginação, aperfeiçoar-lhe a inteligência e aprimorar-lhe a sensibilidade. (p. 200).
Assim, não é possível estudá-la dissociada de seu leitor, sua razão de ser. Diferentemente de outras publicações, a obra literária infantil destina-se, marcadamente, a recrear a criança, educando, se possível, e favorecendo o desenvolvimento cognitivo, pois enseja à criança a aquisição do código escrito, a reflexão sobre as estruturas lingüísticas, a ampliação do léxico, a elaboração de jogos com as palavras, a recriação dessas, a reflexão sobre a língua, enfim. Desse modo, o acesso sistemático à leitura ou à contação de histórias
proporciona, progressivamente, à criança a habilidade discursiva, pela possibilidade de recontar a história, de destacar a parte de que mais gostou, de nomear as personagens, de reconstruir a trama oralmente, em desenho ou na escrita, e de negociar papéis, quando instadas a representar, em teatro, as obras trabalhadas. Favorece, também, a aprendizagem da forma-padrão da língua. Aprende, ainda, a diferenciar a língua falada da língua escrita, sem que a escola precise demarcar essas aprendizagens. Com Amarilha (1997), conclui-se que a audição de uma contação ou uma leitura de histórias exerce um fascínio tão grande sobre o ouvinte que o atrai para o livro e para o silêncio, atitude de quem tem intimidade com os livros.