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Serva e Andion (In: SILVA; GODOI; BANDEIRA-DE-MELO, 2006) indicam três momentos que consideram fundamentais na elaboração científica baseada na etnografia: concepção do campo temático de estudo, realização do trabalho de campo e elaboração do texto. Os autores, no entanto, enfatizam que estes momentos são considerados singulares, conquanto o etnógrafo lida também com o dia-a-dia, o vivido, as regularidades, que remetem ao universal, ao coletivo, à totalidade social. Cada uma dessas vivências possibilita a construção da “tecelagem etnográfica”, na qual tanto os pontos de vista do pesquisador quanto do sujeito são constantemente questionados.

3.2.1 Concepção do campo temático de estudo

O primeiro momento da pesquisa etnográfica é a concepção do campo temático de estudo. (SERVA; ANDION. In: SILVA; GODOI; BANDEIRA-DE-MELO, 2006). Em conformidade, Bronislaw Malinowski, fundador da antropologia social, afirma que:

O pesquisador de campo depende inteiramente da inspiração que lhe oferecem os estudos teóricos. (...) Conhecer bem a teoria e estar a par de suas últimas descobertas não significa estar sobrecarregado de idéias pré- concebidas. (...) As idéias preconcebidas são perniciosas a qualquer estudo científico; a capacidade de levantar problemas, no entanto, constitui uma das maiores virtudes do cientista – esses problemas são revelados ao observador através de seus estudos teóricos (MALINOWSKI, In: SERVA; ANDION, 2006, p.157)

A temática pesquisada deve ser contextualizada a partir da inclusão de elementos derivados da trajetória do pesquisador e também do cenário em que se inscreve o objeto da pesquisa. É importante, portanto, considerar os grandes cenários em que a questão tratada se desenvolve: os atores sociais envolvidos, os enredos, as crenças, os ritos, e porque não, as recentes teorias relacionadas.

Neste momento de concepção do campo temático de estudo foram revisados autores do paradigma crítico da Teoria das Organizações, buscando uma contextualização macro-social para o estudo criterioso do objeto de estudo. Esta revisão foi concentrada especialmente na “abordagem substantiva das organizações” proposta por Alberto Guerreiro Ramos (1981), com complementação de Maurício Serva (1996, 1997) e Karl Polanyi (2000), principalmente. No tocante à tomada de decisões, foram estudados Bazerman (2004), enquanto o modelo de tomada de decisão por consenso, por ser tema recente para a ciência moderna, foi encontrado apenas em referências em meio eletrônico na web, tais como Orientações Pedagógicas para Docentes do Ensino Superior de Portugal (OPDES, 2004) e Butler e Rothstein (2009). Modelos de gestão participativa, em especial co-gestão e autogestão, foram objeto de estudos recentes, de autores como Predebon e Sousa (2004), Guillerm e Bourdet (2003), Ladeia e Natário (2003), e Carvalho (1983). Em uma abordagem da sociologia e da psicologia social a respeito da Teoria de Grupos, foram revisadas as obras de Silvia Lane (In: LANE; SAWAIA, 1995) Ignácio Martín-Baró (in: MARTINS, 2003), Ágnes Heller (in: ANDALÓ, s/d), Sawaia (In: LANE; SAWAIA, 1995), Lev VIGOTSKY. (In: MAHEIRIE, 2003) e Georges Lapassade (1996). O conceito de TAZ, Zona Autônoma Temporária de Hakim Bey (1985), de Soma, de Freire e Mata (1993), além do conceito de democracia corporativa de Ricardo Semler (2003, 2006), complementam a revisão bibliográfica trazendo conceitos inovadores recentes do campo teórico e prático.

3.2.2 Realização do trabalho de campo

A etnografia é uma postura de investigação pela qual o pesquisador se propõe a transcender o ato de ver, e olhar, buscando significações, variações e sentidos atribuídos pelos atores. Isso significa captar o ponto de vista dos membros do grupo estudado e, ao mesmo tempo, considerar as suas próprias implicações no processo de pesquisa. Assim, sujeito e objeto não representam, na pesquisa etnográfica, pólos opostos e neutros, mas complementares e ativos na construção da pesquisa. O pesquisador deve ser capaz de olhar as coisas em profundidade e não apenas ver o que salta aos olhos (SERVA; ANDION. In: SILVA; GODOI; BANDEIRA-DE-MELO, 2006).

A coleta de dados, através de trabalho de campo, foi realizada inicialmente com entrevistas semi-estruturadas e informais com os membros do grupo durante os encontros do

“Bando Árvore Sagrada“. Na seqüência, foi realizada a observação etnográfica in loco do grupo, no período de fevereiro a junho de 2009.

A análise de documentos foi utilizada como método auxiliar, para permitir conhecer melhor a história da organização, através da reconstituição de fatos passados. Foram analisados documentos do Bando Árvore Sagrada tais como folders de divulgação, projetos escritos, estatuto e ata de fundação, demonstrativos financeiros, materiais de divulgação, releases para a imprensa, blogue do grupo na web (http://arvoresagrada.blogspot.com/), etc..

A etapa que se segue após a coleta dos dados é a sistematização dos mesmos, ou seja, a organização e análise dos dados obtidos. Segundo Barros e Lehfeld (1996), a análise de conteúdo "é atualmente utilizada para estudar e analisar material qualitativo, buscando-se melhor compreensão de uma comunicação ou discurso, de aprofundar suas características gramaticais às ideológicas e outras, além de extrair os aspectos mais relevantes".

3.2.3 Elaboração do texto

A apresentação dos dados coletados, analisados e sistematizados foi realizada de acordo com Laplatine (In: SERVA; ANDION, 2006), que considera que a postura etnográfica pressupõe tanto a narração quanto a descrição. Enquanto a narração mobiliza o imaginário do narrador e do leitor, a descrição é mais didática e analítica. Neste sentido, o texto elaborado através de estratégia etnográfica deve conter não só a descrição do real tal qual é percebido pelo pesquisador, como também a representação desse real, ressaltando a sua subjetividade. No processo etnográfico, o texto é produto do processo de construção do conhecimento científico.

Com relação ao estilo de escrita empregado na elaboração do texto, buscou-se inspiração em Serva (1996) que procurou evidenciar os dados que sustentam sua pesquisa com reproduções das situações vivenciadas, das falas dos atores em seus termos originais, dos casos passados contados pelos atores, constituindo assim um estilo diferente dos textos herméticos e técnicos geralmente utilizados na teoria das organizações. Isso foi realizado em concordância com a estratégia etnográfica de pesquisa, que utiliza largamente recursos como a inserção de trechos de falas dos observados (SERVA; ANDION. In: SILVA; GODOI; BANDEIRA-DE-MELO, 2006).

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