Ao se falar em ’memória’ pode-se dizer que está caminhando por um terreno pan- tanoso, dado que o termo designa um conjunto muito diverso de capacidades cognitivas pelas quais se retém informação e se reconstroem experiências passadas, normalmente para propósitos dados no presente.
Pode-se entender a memória como uma forma de conhecimento. Porém relembra- mos experiências e eventos que não estão ocorrendo presentemente, então não pode ser entendida como uma forma de percepção. Também não pode ser classificada como imagi- nação, porque nos lembramos de eventos como eles de fato ocorreram. Contudo, também é importante entender que a memória não é um mero depósito de informações como é desejável às percepções mais tradicionais e datadas, já que a memória trabalha de forma reconstrutiva.
A primeiro momento, podemos pensar que a noção de memória estaria em algum local entre o conhecer, recordar, imaginar e perceber. Existem interações próximas de todos esses processos. Nossas recordações sofrem interferência das emoções com mais frequência que o desejado, como quando remorso ou alegria afetam a percepção de eventos passados. Também pode-se pensar como a propriedade reconstrutiva da memória muitas vezes é enviesada por informações presentes e pelas interações sociais, ou mesmo está constantemente sujeita a erros e falhas.
Ainda assim não temos uma definição apropriada de memória, dado que a memória e a noção de "recordar"ou "se lembrar"tratam de uma ampla gama de fenômenos, como por exemplo posso dizer que:
• Lembro-me que meu nome é Gabriel. • Lembro-me como se joga damas.
• Lembro-me de como andar de bicicleta.
• Lembro-me da data em que ocorreu a Revolução Francesa. • Lembro-me da dor de quebrar um braço.
• Lembro-me do sabor que tinha a comida feita por minha avó. • Lembro-me que tenho que colocar comida para meus gatos.
Estes são apenas alguns da infindável quantidade de casos em que pode-se falar de "lembrar-se". Isso leva à necessidade de fazer uma elucidação prévia das formas de memória já pensadas.
1.5.1.1 As formas de memória
São várias formas de classificar eventos de memória. A própria história da filosofia já trabalhou o tema segundo abordagens distintas, além de diversos trabalhos de psicolo- gia nessa área. Uma das célebres investigações sobre a memória é o trabalho de Russell em(RUSSELL, 2005), onde há um capítulo inteiro dedicado ao tema.
Russell distingue duas formas de memória, sendo uma memória "rememorativa"e a outra uma memória "habitual". Enquanto a primeira forma diria respeito a como recupe- ramos episódios, cenas e momentos vividos no espaço mental, a segunda forma seria uma memória prática, que diz respeito a se recordar como se efetua uma determinada ação. A essas formas de memória, foi acrescentada uma forma de memória proposicional. Esta seria um aspecto da memória que diz respeito ao conteúdo de proposições, uma coleção de informações acerca do mundo que nos cerca e nós mesmos.
Contemporaneamente, se utilizam as classificações da psicologia sobre a memória, porém tais classificações são equivalentes a estas dadas pela filosofia. Segue-se uma breve consideração acerca de cada uma delas.
A memória rememorativa é uma forma de memória que se relaciona com a própria identidade pessoal. Essa forma de memória é relativa a lembranças de fatos, eventos e objetos percebidos ou vivenciados pela pessoa. Assim sendo, essa memória possui um contexto espacial e temporal.
As informações fornecidas por essa forma de memória são tratadas por nós como objetos, como por exemplo quando digo que me lembro do sabor da comida da minha avó ou da dor que senti ao quebrar um braço na infância.
Uma das características mais marcantes dessa memória episódica é a particulari- dade de seu conteúdo. Esse tipo de memória - a princípio - só está disponível a quem vivenciou os objetos de memória em questão, sendo estes intransmissíveis.
Já a memória habitual é a memória dos saberes práticos. Essa forma de memória é uma memória de como realizar um procedimento, efetuar uma ação. É sobretudo uma memória prática, por se referir a atitudes que não são facilmente verbalizadas.
Tal variedade da memória chama atenção exatamente pelo fato de dizer respeito a um domínio de fatos ou informações que parecem escapar do domínio da linguagem. Quando digo que lembro como se anda de bicicleta, não tenho a possibilidade de expressar linguisticamente como de fato é andar de bicicleta: posso dizer que é necessário sentar-se no selim, girar os pedais para frente em sentido horário, apoiar as mãos no guidão, porém nenhuma dessas informações ensina alguém a andar de bicicleta. O mesmo vale para coisas como amarrar o cadarço, nadar, dar nó em uma gravata e diversos outros casos.
especialmente pela conexão das abordagens filosóficas com conteúdos proposicionais ex- pressos linguisticamente. Talvez a hipótese de mente estendida permita um tratamento da relação dos processos cognitivos práticos com os objetos e artefatos em questão, contudo esta é uma questão que fica em aberto para o futuro.
Apesar de outras formas de memória serem abordadas, ao trabalho presente o que é de maior interesse é a noção de memória semântica. Podendo ser entendida como uma forma de memória proposicional, a memória semântica, como o próprio nome diz, é uma memória que abrange, de maneira geral, informações sobre significados. Essa memória lida com informações no seu sentido mais geral, não sendo caracterizada por particularidade ou intransponibilidade.
A memória semântica se refere à vasta rede de informações com as quais lidamos diariamente. Pode-se dizer que é uma memória do tipo "lembrar-se que", como por exemplo quando digo que me lembro que a Tomada da Bastilha ocorreu em 1798, ou que a Segunda Grande Guerra ocorreu entre os anos de 1938 e 1945.
Esse tipo de memória é a forma de memória mais abordável pelo tratamento da mente estendida. As memórias registradas por Otto em seu caderno seriam todas elas memórias semânticas, dado que elas tratam de informações gerais sobre o mundo que são utilizáveis pelo portador de Alzheimer. Não só isso, como também - até o que é sabido hoje - é a única forma de memória passível de registro.
Pensando a disposição proposicional de dados da memória, pode-se abordar toda forma da memória como memória proposicional. Tal qual se organizam informações acu- muladas na mente à maneira de juízos, podemos dispor as memórias que temos de maneira proposicional, especialmente a memória episódica. Como a tese da mente estendida não se ocupa de aquisição de habilidades e sequer ainda pensa-se a possibilidade de arma- zenamento de conhecimentos práticos, podemos pensar toda a memória estendida dessa maneira. Tal abordagem se dá pela tentativa posterior de formalizar logicamente o sistema de memória estendida.