Graham inicia seu trabalho e rapidamente descobre evidências que auxiliam o FBI a montar o perfil do assassino, que é apelidado de Fada dos Dentes. O criminoso foi chamado assim porque ele morde suas vítimas. A marca que ele deixou em uma delas levou os policiais a descobrirem que sua mordida é única e conseguiram algo para incriminá-lo caso seja apanhado. Isso tudo, porém não satisfaz Graham que se acha incapaz de achá-lo e prendê-lo.
Como sabemos, Graham se mostrou muito inseguro para solucionar seus casos sem o aval de Hannibal. Por isso, veremos no decorrer da diegese a maneira como Crawford sugere a Graham que procure a ajuda de Lecter.
Isso acontece após uma entrevista coletiva para a imprensa onde eles prestaram contas das investigações. Graham e Crawford tomam café em um bar. A câmera os mostra em primeiro plano, os dois conversam sobe o caso. No diálogo que transcrevemos percebemos que Graham está muito contrariado, que ele gostaria de ter ajudado mais, porém prefere ir para casa.
Graham: Não tenho a menor ideia de quem seja o cara. Eu só dei as linhas gerais. Ele não tem rosto para mim.
Crawford: É o que disse sobre Garrett Hobbs, lembra? E você o descobriu. Graham: Não, eu não.
Na interação face a face, percebemos que há um embate entre o sistema, que é representado por Graham, e o pai de família, pelo ex-agente Graham. A câmera mostra que Crawford está ocultando alguma coisa do outro. Isso é evidenciado pela maneira que olha para seu interlocutor. Por isso, a câmera e o espectador ficam atentos, esperando por alguma movimentação diferente de Graham.
Crawford: Não?
Graham: Não, estava travado com Hobbs... (silêncio) Eu tive ajuda... Crawford: De Lecter?
Graham: Pois é...
Nesse momento, Graham toma consciência daquilo que deseja Crawford e por isso, refrata: “Jack, não jogue comigo. Não faça isso. Só me diga o que tem em mente”. Crawford tenta contornar a ira do outro, porém sua expressão corporal o denuncia: “Acho que talvez tenhamos um recurso a utilizar”.
A reação de Graham é explosiva: “Era isso? Você queria me pedir isso o tempo todo?”. Crawford tenta amenizar e diz em fala tranqüila:
Não fique bravo comigo. Só faço o meu trabalho. Se conhecer algum atalho melhor me avise. Se achar que há alguma chance dele falar comigo, eu irei sozinho. Se não puder, Deus sabe que entenderei (grifo nosso).
Pelo primeiro termo grifado, notamos que Crawford incorpora o discurso da Instituição, ou seja, ele se coloca no lugar do outro. Dessa maneira, demonstra que na categoria do eu ele faria de modo diferente. Quer dizer, em sua fala está implícito que agiria de outra forma em uma situação que não se relacionasse ao seu trabalho. Sobre o segundo termo grifado, destacamos que Crawford confere ao outro toda a responsabilidade sobre o caso, em outros termos, “se você mandar eu vou”, o que nos parece incoerente, pois trabalham em conjunto. E por último, Crawford clama por uma Instituição espiritual, dessa forma insinua a sua incapacidade de resolver o problema racionalmente.
A câmara vira-se para Will. Ele olha para baixo e depois para frente. Dessa forma, é sob o ponto de vista de Will que vemos em uma mesa um pai e uma mãe alimentando os três filhos pequenos. Com a apresentação dessa imagem, isto é, da família reunida, fica claro ao espectador que Will aceita conversar com Hannibal Lecter. Dessa forma, novamente é a câmera que responde por Will, ou seja, ele não verbaliza sua decisão.
Uma tomada externa em plano panorâmico mostra o Hospital Estadual e Prisão Psiquiátrica de Baltimore. Uma voz em off, que é de uma personagem da
ação, faz a transição entre as seqüências. Destacamos que muitos trechos dessa sequência vão estar em relação dialógica com o filme O Silêncio dos Inocentes, pois o espaço da diegese é o mesmo. Além disso, Hannibal Lecter é a mesma personagem e Graham está em posição similar a de Starling.
Com um corte, a câmera entra no hospital. A voz em off é do Dr. Chilton, a quem o espectador já conhece das películas anteriores. Ele está olhando para Will e, fazendo uso de seu peculiar tom irônico, pede a Will que interceda junto a Lecter no sentido de que este responda a alguns questionários. Em sua argumentação, Dr. Chilton expõe a fragilidade de seus métodos psicológicos, pois afirma que Hannibal os transforma em origami.
Graham está consciente de que está ali por outro motivo, ou seja, precisa impedir que outras famílias sejam mortas por Fada dos Dentes. Para ele não interessa analisar Hannibal Lecter e assim responde que precisa sair dali rapidamente para voltar para Atlanta. Dr. Chilton, que esperava a colaboração do outro, mostra-se contrariado e procura rapidamente levar o visitante para a cela de Hannibal. Entretanto, pouco antes de Graham passar pelas últimas portas que o levam até Hannibal, Dr. Chilton tenta novamente. Dessa vez, usa a linguagem da praça pública: “Dane-se cara. Você deve ter algum conselho. Você o pegou. Qual foi o seu truque?” (grifo nosso).
Graham é mostrado pela câmera sob o ponto de vista do outro: “Eu o deixei me matar”. A resposta do agente denota que ele atingiu o nível máximo de risco, ou seja, chegou próximo da morte. A câmera volta-se rapidamente e mostra o rosto do Dr. Chilton marcado por uma expressão de espanto. A reação do diretor às palavras daquele indicam que há uma mudança na forma como o Dr. Chilton enxerga o outro. Percebe-se que ambos estão em um momento de crise: Graham está ali para reencontrar Lecter e o diretor precisa entrar na mente do prisioneiro. Portanto, diante da revelação de Graham, Dr. Chilton conscientiza-se de que o outro a sua frente é alguém que sente, se emociona e morre. A câmera encerra o diálogo entre os dois de maneira brusca, pois vemos e ouvimos as pesadas portas se fecharem atrás de Graham.
Com a continuação da história, a câmera mostra que Will inicia sua caminhada pelo corredor que leva até Lecter. A dramaticidade do momento é
sugerida pelo uso do ponto de vista da personagem. Dessa maneira, o espectador vê o estreito corredor com paredes de pedras que ele terá de percorrer. Muito lentamente, Graham transpõe a distância que o separa de Lecter. O espectador, ao caminhar com ele, observa tudo ao redor. Ele precisa passar pela cela de outros três prisioneiros, somente um deles é mostrado, porém nada acontece. O silêncio do lugar é quebrado pelo caminhar de Graham. Isso tudo ajuda a criar um clima tenso, o tempo da diegese parece estar congelado.
Quando, afinal, Graham chega a seu destino, fica frente a frente com Hannibal Lecter. Devemos considerar que a vida os colocou em posições opostas e por isso a câmera deixa claro que há uma tensão, que ambos estão inseguros e temerosos. Além disso, observamos que a personagem Hannibal Lecter é mostrada em primeiro plano, mas não em primeiríssimo plano, como na película O Silêncio dos Inocentes, o que causava uma impressão de gigantismo, monstruosidade. Dessa forma, a imagem da câmera enfatiza o enfraquecimento da personagem Hannibal Lecter que se reflete em sua fala, como veremos em seguida.
Hannibal se mostra inconformado com o fato de ter sido pego, ou seja, ele parece não acreditar que o outro é melhor que ele. Isso se comprova pelo uso do termo leigo que, segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss29, significa “que ou aquele que é estranho a ou que revela ignorância ou pouca familiaridade com determinado assunto, profissão etc.; desconhecedor, inexperiente”.
Lecter: Você diz ser leigo. Mas foi você que me pegou. Não foi, Will. Sabe como você conseguiu? .
Will: Tive sorte.
Lecter: Não acho que você acredita nisso (grifo nosso).
Nesse contexto é Graham quem precisa provocar a palavra do outro, para conseguir completar sua missão, qual seja, obter informações sobre Fada dos Dentes. Para tanto, ele tenta dissuadir Lecter oferecendo-lhe algumas regalias: livros, computador, ou seja, coisas de que este último gosta. Além disso, Graham sabe como suscitar a ira do outro: “Achei que gostaria do desafio. Saber se é mais
29 Disponível em http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm?verbete=leigo&stype=k&x=11&y=7. Acesso em: 13 dez
esperto que a pessoa que estou procurando” (grifo nosso). A isso Lecter responde indignado: “Então, está insinuando que é mais esperto que eu, pois foi você quem me pegou” (grifo nosso).
Graham: “Sei que não sou mais esperto que você.” No primeiro contato entre os dois, percebemos que há uma mudança do tom do diálogo. Entre eles há uma barreira física e outra que não é visível: o medo. A câmera mostra Hannibal enquanto ele pergunta de maneira áspera, procurando respostas para sua derrota:
Hannibal: Então como você me pegou? Graham: Você estava em desvantagem. Hannibal: Que desvantagem?
Graham: Você é louco. (grifo nosso)
Segundo o Dicionário Eletrônico Aulete30, o adjetivo louco remete a pessoa que “1. Que sofre de perturbações psíquicas, que não está em seu juízo perfeito. 2. Que não é razoável, que contraria a razão, sendo, por isso, surpreendente, ou absurdo, ou arriscado; insensato.” Portanto, pelas definições apresentadas Graham desqualifica o outro ao chamá-lo de louco, colocando-o em uma posição inferior, de irracionalidade e de acabamento.
Um longo silêncio segue a fala de Graham, ou seja, Hannibal não responde prontamente. Parece estar sob choque. Passado algum tempo, ele pede os arquivos que estão com Graham e um recesso de uma hora para poder examiná-los e emitir sua opinião.
Desse re-encontro entre os dois, concluímos que as personagens buscam atacar o ponto frágil um do outro, ou seja, a loucura e a pouca experiência. Medo e loucura (o louco é um outro eu) se misturam expondo a fragilidade das duas personagens. Do cotejo deste encontro com o primeiro analisado no capítulo 3.2, páginas 95-104, destacamos a quebra da consonância que havia entre eles. Os dois entram em desacordo, depois que Will descobre a verdadeira identidade de Lecter, em conseqüência “da perda da inocência da inconsciência que permitia ao homem
formar um todo” (BRAVO, 2005, p. 271) eles se mostram cindidos, enfraquecidos e esfacelados.
Durante o intervalo, a câmera mostra imagens de Graham em ângulo contra- plongée. Esse ângulo sugere a degradação da personagem; ele transpira muito, solta o nó da gravata e retira um café em uma máquina. Pelos elementos mostrados pela câmera, Graham fez um tremendo esforço para conseguir encarar Lecter.
Após o tempo de uma hora, ele já é mostrado sentado à frente de Hannibal ouvindo o que este pensa sobre o assassino. Nesse momento, Lecter fica próximo ao vidro e o tom hostil expressa sua avaliação apreciativa em relação a Graham:
Você fede a medo com essa loção barata. Você fede a medo, Will, mas você não é covarde. Tem medo de mim, e mesmo assim, veio. Você teme esse garoto tímido, mas ainda assim o procura. Você não entende, Will. Você me pegou porque somos parecidos.
Sem nossa imaginação, seríamos como qualquer idiota. O medo é o preço do nosso instrumento. Mas vou ajudar a suportá-lo.
Segundo BRAVO (Brunel et al., 2005, p. 271), “a consciência humana, com sua capacidade de desdobramento, seu poder de imaginar, torna-se fonte de terror”. Em decorrência disso, no medo encontra-se também o embate do ser e do não-ser, pois nem Lecter nem Will querem ser um a cópia do outro. Segundo BAKHTIN (2000, p. 46), “uma identificação com o outro que acarrete a perda do lugar que somos os únicos a ocupar fora do outro é quase impossível e, em todo caso, totalmente desprovida de utilidade e de sentido”. Em outros termos, Graham está consciente de que é parecido com Hannibal, porém, também tem plena certeza de que não é como ele e que não deve se confundir com ele.
Ilustração 26– Hannibal e Will Graham em seu reencontro
Portanto, o Agente precisa buscar sua independência em relação ao outro, ou seja, ele deve extrair as imagens, que dão o acabamento ao outro, do seu excedente de visão31, de sua vontade e de seus sentimentos e, assim, pensar por si mesmo e reencontrar o seu eu.
Nas próximas seqüências, a câmera mostra ao espectador como é o trabalho investigativo de Graham. Em uma de suas diligências, na residência da família Jacobi, em Birmingham, Alabama, ele encontra um galho quebrado que o leva até um desenho gravado em uma árvore. Will assume que tenha sido feito pelo assassino: “Você é orgulhoso. Tinha de assinar a sua obra”.Nessa fala, o inspetor presume que o criminoso sente satisfação pelo que faz, ou seja, ele gosta de matar.
Porém, o agente não consegue se desvincular do outro, pois a cada pequeno avanço em sua investigação, a câmera mostra, que ele necessita da ajuda de Hannibal Lecter. Por isso, ele retorna a prisão para falar com Lecter sobre o desenho.
As imagens de Lecter mostram que ele já está se recuperando de sua crise de insegurança e demonstra sua superioridade intelectual e cultural ao recitar um trecho do poema de William Blake, Auguries of Innocence (Augúrios de Inocência), que diz “Sabiá de peito vermelho enjaulado/ Enfurece os céus”. O poema será retomado pela personagem na sequência seguinte. Nesse momento, a pista leva o
31 Conforme BAKHTIN (2000, p. 43), “o excedente da visão estética, que consta de minha visão de meu
conhecimento a respeito do outro, é condicionado pelo lugar que sou o único a ocupar no mundo: neste lugar, neste instante preciso, num conjunto de dadas circunstâncias – todos os outros se situam fora de mim.”
inspetor até uma biblioteca. As descobertas que ele faz o aproximam do Fada dos Dentes – o assassino.
3.5 Dragão Vermelho ou Francis Dolarhyde
Na seqüência seis, a câmera não mostra a personagem, mas sugere, por meio das reações de Graham ao olhar para as fotos das famílias mortas, que aquele é um assassino cruel. Ele é “um anormal”, segundo Crawford, não têm digitais, pois usa luvas e calça sapatos número 45. Entretanto, têm-se amostras de sangue, sêmen e saliva do assassino, pois ele abusa de suas vítimas.
Outros elementos sobre a personagem vão surgir na seqüência dez. Os mesmos se relacionam com o fato do criminoso morder as vítimas, por isso os peritos conseguiram um molde de sua arcada dentária. Além disso, sabe-se que ele não deve interromper sua jornada criminosa, pois isso faz dele “um Deus”, segundo palavras de Graham.
Mais à frente, na seqüência dezenove, Graham encontra no local do crime uma marca deixada pelo assassino. Tal sinal, que é uma letra chinesa, provoca um novo encontro entre Will e Hannibal. Como conseqüência da reunião, Graham chega até a imagem de William Blake. E assim, a câmera mostra que o policial está bem próximo da identidade do criminoso, pois na sequência seguinte, ela o focalizará em sua casa.
O assassino começa a ser mostrado ao espectador na sequência vinte, mais ou menos no meio da narrativa fílmica. A câmera deixa de dar ênfase à investigação de Graham e a partir de um plano geral e ângulo plongée focaliza a entrada da Clínica de Repouso Dolarhyde, conforme dizeres de uma placa presa no muro. Não há portão e por isso a câmera entra e focaliza de longe uma longa alameda cercada por árvores, que estão todas sem folhas. Tal imagem transmite uma sensação de abandono e solidão. Em seguida, a câmera passa a focalizar o chão e caminha rapidamente por uma espécie de passeio. O foco da câmera só muda quando um espelho d’água mostra uma casa. Tudo é visto muito rapidamente, porém o abandono pode ser notado: o chafariz está sujo, o jardim malcuidado e a casa
precisa de uma manutenção. Entretanto, alguém mora lá, pois há um veículo estacionado na porta da residência.
De maneira apressada, o artefato chega até a porta da frente e entra. Os movimentos rápidos da câmera sugerem que a vida do morador passa muito rapidamente, não há detalhes significativos a serem destacados. Além disso, todos os elementos remetem ao passado, inclusive o diálogo que acontece entre uma criança e sua avó. Aos poucos o espectador percebe que a discussão tem caráter de flashback, uma vez que não há personagens, e as vozes não correspondem às imagens mostradas.
Segundo BAKHTIN (2000, p. 378), o sujeito se forma a partir da interação com o outro. Dessa maneira,
Tudo o que me diz respeito, a começar por meu nome, e que penetra em minha consciência, vem-me do mundo exterior, da boca dos outros (da mãe, etc.), e me é dado com a entonação, com o tom emotivo dos valores deles. Tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e o tom que servirão para a formação original da representação que terei de mim mesmo.
Pela citação do teórico, deduzimos que ao trazer para o presente as vozes do passado, a câmera busca mostrar ao espectador como Francis Dolarhyde se vê como adulto. As palavras negativas da avó, quer dizer, do outro, ainda lhe causam o mesmo impacto. Dessa maneira, conclui-se que a decadência do espaço físico reflete a decadência moral da personagem que se mostra presa ao passado, isto é, ao outro que era submetido às grosserias e ameaças verbais da avó.
Vovó! Vovó!
Francis! Nunca vi uma criança tão suja e repugnante como você. Olha para você? Está encharcado. Saia da minha cama [...]
Vovó, está me machucando!
Cale a boca, seu animalzinho imundo!
A câmera prossegue com sua apresentação da personagem, por isso sobe as escadas e entra em um dos dormitórios. Nesse momento, a voz da criança some e em seu lugar ouvimos uma voz masculina adulta que está abafada e que responde a avô. A última fala reflete o desejo de se fazer o que o outro quer. Dessa maneira, aquele que está sendo dominado busca fugir dos castigos:
Vovô, não me machuque.
Tire seu pijama e limpe-se. Rápido! Agora pegue a tesoura na caixa de remédios.
Por favor, não. (Ouve-se gemidos no presente). Peque aquela coisa imunda na sua mão e estique. Não, vovó (no presente).
[...].
Serei um bom garoto. Eu prometo.
Finalmente, a câmera mostra a pessoa que fala, porém seu rosto está oculto por uma máscara, sua respiração está ofegante por causa do esforço físico. O homem sem face, o espelho quebrado e as marcas dos dentes deixadas nas vítimas indicam que a personagem está em conflito, que busca firmar sua identidade.
Nessa primeira tomada do assassino, a câmera antecipa a diegese ao acompanhar outro momento em que o artefato focaliza as mãos daquele. Ele abre um cofre e retira de lá um grande livro, cuja primeira página diz “Vejam um grande Dragão Vermelho”. As letras estão escritas sobre a figura de Willian Blake intitulada O grande Dragão Vermelho e a mulher banhada de sol. Um recorte de jornal que mostra a fotografia de Will Graham é colado no livro.
Ao final da sequência, as páginas do livro são folheadas e a câmera focaliza várias fotografias de Hannibal Lecter, cujos olhos são acariciados suavemente pelo homem desconhecido. Esse ato simboliza que o desconhecido se espelha em Hannibal e na continuidade da história veremos que ambos se juntam para matar Will Graham.
Algumas sequências à frente, a verdadeira identidade do assassino é revelada. Portanto, os filmes trabalham o tempo todo com a questão da identidade, fulcral para o estudo do duplo.
Figura 27 - Dragão Vermelho
Como Dragão Vermelho percebe-se que a personagem sente-se mais segura, ele se esqueça de sua dificuldade e isso se reflete em seu discurso. Segundo BAKHTIN:
O tom não é determinado pelo material do conteúdo do enunciado ou pela vivência do locutor, mas pela atitude do locutor para com a pessoa do interlocutor (a atitude para com sua posição social, para com sua importância, etc), (2000, p. 396, grifo nosso).
Dragão Vermelho tem uma atitude forte frente ao seu interlocutor, no entanto Francis Dolarhyde é justamente o contrário. Trabalhava no Laboratório Chromalux e quase não tem amigos. A câmera o focaliza pela primeira vez de costas e depois no escuro, dessa maneira enfatiza o não reconhecimento do eu da personagem e seu medo de se apresentar frente ao outro.
Francis, que possui uma cicatriz no lábio, sente-se bem ao lado de Reba, personagem deficiente visual, dessa maneira, a diegese enfatiza o medo que aquele tem de sua aparência e o desejo de não ser visto. Reba percebe isso e diz: “Posso ouvir que você teve algum tipo de reparo de palato. Mas [...] você fala muito bem.”. Porém, a vida dupla de Francis não tem mais volta, e o relacionamento deles é