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ar 5 ) Enslige Ekte- par Enslige Ekte- ar 5 )

Uma tese não se constitui apenas como produto de uma reflexão sistematizada e rigorosa, mas trata-se também de um produto do olhar, de um olhar atento e de uma reflexão exaustiva, que se lança na aventura de abarcar o objeto, mesmo que este se lhe permita conhecer apenas em parte e quase nunca em sua totalidade. Neste sentido, esta tese também é um olhar, que empreendo da janela de meu saber, tendo em vista que, desse edifício acadêmico de onde se busca a verdade, outros olhares se impõem ao mesmo objeto que percebo e que se permite conhecer. Deste modo, este texto, ainda que atente para um percurso de pesquisa, remete à imagem da inconclusão, tendo presente que, como alerta Gaston Bachelard (2008, p.74), “mais vale viver no provisório que no definitivo”. Neste sentido, tenho presente que uma tese nunca é concludente, posto que se torna impossível compilar todo conhecimento do qual trata a temática da mesma.

Por mais bem estruturada que uma tese de doutorado esteja, por mais inovadoras, inéditas e irrepreensíveis que sejam suas conclusões, por mais rigor que tenhamos ao elaborá-la, ela não exaure, nem cumula, nem esgota o conhecimento que trata de desbastar (PERUJO SERRANO, 2011, p. 40).

Daí a necessidade de esclarecer que, esta tese em Educação, desenvolvida na Linha de pesquisa: Educação, Sociedade e Cultura, no Programa de Pós- graduação em Educação, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, não se apresenta como verdade absoluta, posto tratar-se de uma trabalho de caráter científico. É unicamente uma tese de doutorado, minha tese, contingenciada pelo que sou, pela minha história, pela história temporal e cultural em que vivo. Trata-se de um escrito, que é uma compreensão, que segundo Forghieri (1993) é o primeiro momento que compõe o círculo hermenêutico da fenomenologia15. Sendo compreensão, espera em seu estado germinal uma interpretação que conduzirá a uma nova compreensão, tornando-a uma compreensão, ou seja, a apresentação de uma nova tese.

Mesmo sendo uma compreensão, é tarefa árdua que exige do pesquisador rigor e tempo para perceber o que esta sendo construído, pois não se trata de algo concebido anteriormente, mas uma compreensão em construção. Reconhecendo tal dificuldade, Stela Guedes Caputo (2012, p. 24) afirma:

Em geral, quando lemos um tese de doutorado, uma dissertação de mestrado ou qualquer trabalho que seja construído através de pesquisa, temos a impressão de que seu autor ou autora tinha, desde o início, seu tema pronto, a metodologia definida, a bibliografia arrumada. Sabemos que não é assim tão certinho e quanto custa chegar a algum texto mais ou menos pronto, um algo de alinhavado, um retalhinho de colcha um tanto remendado, mas que se possa finalmente apresentar.

As palavras da autora me remeteram ao trabalho de um pintor (um artista) que de pincela em pincelada, da mistura de tons e cores, vai compondo, aos poucos, sua obra. Tal reflexão me permitiu pensar a tese como arte, uma vez que,

15

Ao comentar as teorias de Heidegger, Forghieri (1993) explica que a fenomenologia hermenêutica possui passos que se aglutinam e formam o círculo hermenêutico. Deste modo, tem-se uma compreensão, seguida de interpretação, que se torna nova compreensão, que por sua vez é uma compreensão. No entanto, este círculo não é vicioso, posto que cada vez que a interpretação promove uma nova compreensão, tem-se um novo momento que apesar de tornar-se compreensão, já não se trata da mesma compreensão inicial.

tanto arte quanto conhecimento são produções humanas forjadas e gestadas pelo trabalho16, enquanto atividade do humano.

Em Alfredo Bosi (2003, p. 13) encontro interessante entendimento da arte enquanto construção produzida pelo ser humano que corrobora com minhas lucubrações.

A arte é um fazer. A arte é um conjunto de atos pelos quais se muda a forma, se transforma a matéria oferecida pela natureza e pela cultura. Nesse sentido, qualquer atividade humana, desde que conduzida regularmente a um fim, pode chamar-se artística. Para Platão exerce a arte tanto o músico encordoando a sua lira quanto o político manejando os cordéis do poder ou, no topo da escala dos valores, o filósofo que desmascara a retórica sutil do sofista e purga os conceitos de toda ganga de opinião e erro para atingir a contemplação das Ideias.

Como se pode depreender das palavras do autor, a arte se faz presente em toda ação do homem. A tese também é ação humana, modificadora do pensar e da forma como se intervém no social/na natureza/na cultura. Além disso, não a tese que não possua finalidade. E como ressalta Bosi (2003, p. 13) “qualquer atividade humana, desde que conduzida regularmente a um fim, pode chamar-se artística”.

Ao entender tese como arte compreendo-a como forma/uma forma de conceber o mundo; apresenta-se como percepção social dos sentidos; torna-se produtora de conhecimento. Esse entendimento objetiva romper com o convencional, limite do aceitável pela academia, às vezes enrijecida por um olhar estático e sem vida, posto que condicionado ao conhecimento científico-racional, tende a desvalorizar o conhecimento mítico e místico, produzindo a dicotomia dualista entre bem e mal, fé(mito) e razão, arte e pensamento. Ao não reconhecer arte como conhecimento, penso que o pensamento científico-racional ignorava o fato de que a arte está na origem de todo o conhecimento atual, haja vista que no início tudo era arte (ars latim; tékne grego) e de onde se tinha Ars Iuris; Ars Medica; Ars Magna.

Penso uma tese, tal qual a obra de arte. Merleau-Ponty (1974) em A prosa do mundo, afirma que a arte não deve se limitar a enunciar o já sabido, mas propor novos olhares, novos entendimentos, novos pensamentos, nova compreensão, ao

16 Na obra Existencialismo ou Marxismo? Gyorg Lucáks (1981, p. 11) afirma que para entender qualquer

categoria especifica que se refira a prática social do homem (educação, arte, ciência, cultura, etc.) não se pode começar por outra análise a não ser pelo trabalho. É do trabalho e pelo trabalho que o homem cria e recria o mundo em que vive; produz conhecimento; faz arte.

nos introduzir em “nossas experiências estranhas”. A tese assim como a arte é geradora de conhecimento uma vez que ambas “contém mais que ideias, matrizes de ideias; ela nos fornece emblemas cujo sentido jamais acabaremos de desenvolver” (MERLEAU-PONTY, 1974, p. 101). Um sentido sempre inconcluso, sempre em construção.

Por isso resolvi mesclar, neste trabalho, arte (enquanto música e poesia) e conhecimento. Segundo Edgar Morin (1993, p.87), "o objetivo do conhecimento não é descobrir o segredo do mundo numa palavra-chave. É dialogar com o mistério do mundo". Penso ser também esse objetivo da arte. E dialogar só é possível por meio da partilha, que possibilita ao outro olhar pelo meu olhar, pensar a partir do meu pensar, ainda que de forma distinta. Ao escrever este trabalho, partilho ideias, pensamentos; entendo ser próprio do conhecimento humano o diálogo e a partilha. Tanto esta, quanto aquela só existem mediante a inter-relação entre os seres humanos que entrecruzam suas vidas por meio de trocas narrativas, arte, conhecimento. Neste sentido, “a arte é então uma reduplicação da vida, uma espécie de emulação nas surpresas que excitam a nossa consciência e a impedem de cair no sono” (BACHELARD, 2008, p. 17). No sono da mesmice, do pronto, do acabado.

Dito isto, passo a uma segunda ressalva em relação as minhas escolhas.