Os dois leitores concentraram seus textos em críticas, deram exemplos de momentos em que o jornal se comporta como sexista e se posicionaram a favor da igualdade de tratamento dos gêneros: “Contrariando sua contribuição ‘sexismo crescente’ [...] as duas fotos usadas para representar figuras da revolução laranja [...] a de baixo mostra o rosto de um homem, M. Viktor Loutchenko, enquanto a do alto, consagrada a Mme Loulia Timochenko, mostra advinha o quê? Uma bonita trança loira em coroa vista de costas. [...] As fotos são elas simples distrações ou participam da informação? É a estética que avalia os processos políticos?”177.
Eles querem comprovar que a hierarquia que posiciona o masculino como superior aparece em pontos diversos do jornal, não apenas nos mais evidentes. Além de acusar o Le Monde de conivente e mantenedor desse status quo, eles o fazem também em relação à sociedade como um todo. Recorrem a valores como a solidariedade – como visto em Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), ao se verem sensibilizados com a posição inferior em que se colocam as mulheres, e propagam outro valor, a igualdade por mérito.
7.2.4 Relatos de problemas de atendimento social
Entre os dias 01 e 30 de junho, o Courrier des lecteurs recebeu nove cartas com relatos de problemas de atendimento social que atingiam diretamente seus autores e autoras ou que chamaram a sua atenção. Sete dessas cartas foram enviadas por homens e duas por mulheres. Dois dos subtemas abordados por leitores, mudanças nas regras para concessão de reembolso para aquisição de certos medicamentos e pagamento de indenizações, haviam sido objeto de matérias nas páginas do jornal, antes que as cartas fossem enviadas, ao contrário do restante. As cartas foram redigidas com riqueza de detalhes178. Nenhuma das cartas
177
Trecho extraído de outra carta: “Sabendo que mulheres e homens são igualmente merecedores em nossa sociedade, o jornal Le Monde é obrigado, me parece, a uma igualdade de resultados [...] Acreditar que os homens se queixariam de uma representação igualitária é um álibi muito pobre. Se fosse verdade, seria necessário lhes contrariar”.
178
Exemplos: “Abril de 2006 – eu fiquei grávida [...] irritou muito a direção da empresa. [...] Depois diversas humilhações e afastamentos se seguiram. Maio de 2007 – voltei de minha licença maternidade em [...] me pediram para voltar para casa [...] Junho de 2007 – Eu fui demitida“; “Desde a idade dos seis anos, era aluno externo na (escola pública). Ele partia as 8h30 da manhã e voltava para casa as 16h15 [...] quero dizer a vocês que é difícil ter um emprego em tempo integral com
contendo problemas de atendimento social foi publicada. Os homens enviaram mais cartas que as mulheres, mas foram elas que escreveram em média mais palavras por textos, 596 e 968 respectivamente. Foi este subtema, inclusive, o que recebeu as cartas mais longas. Uma masculina contendo 2.336 palavras e uma feminina contendo 1.425 palavras.
7.2.4.1 As sete cartas de leitores
Os fatos narrados pelos leitores diziam respeito a: maneira como a polícia francesa tratou alguns cidadãos após um evento público; desemprego devido à mudança de direção no canal plus de distribuição; problemas que a esposa enfrenta em seu ambiente de trabalho. As outras quatro diziam respeito a problemas de saúde: mudanças nas regras para concessão de reembolso para aquisição de certos medicamentos179; espera por um reembolso devido a problema de saúde180; um pai pede ajuda para a filha que sofre de sucessivas convulsões; e outro pede ajuda para o tratamento de saúde do filho que mora na Costa do Marfim e sofre de úlcera de Buruli.
Quatro fizeram denúncias, destacando valores como justiça, respeito, liberdade e dignidade considerando assim que valores relativos à pessoa são superiores aos valores concedidos à coisa. Mesmo tratando sob a perspectiva de seus problemas de atendimento social, promovem a superioridade do interesse da sociedade sobre o interesse de um indivíduo ou de um grupo de empresários. Recorrem também ao lugar da quantidade, ao destacar os casos nos quais os valores, como os ganhos financeiros, estão sobrepostos aos valores do homem,
esses horários, sem contar as férias, [...] Em maio de 2006, os grandes problemas começaram. Ele
entrou em depressão, ele quebrava tudo e se auto-mutilava se mordendo”; “Uma mulher médica ofereceu a essa menina que ela doasse para adoção a sua criança que ainda não nasceu. [...] A menina foi colocada num centro de detenção de urgência o centro onde são colocadas crianças cujos pais são perigosos”; “Tudo parecia calmo. Os quatro ou cinco policiais de motocicleta estacionados próximos do café assinalavam sua intenção de partir fazendo vibrar seus motores. A multidão solta um grito de aclamação sem que isso pareça marcar um protesto ou um descontentamento. Eles vão embora rapidamente, mas o último motoqueiro se vê travado no caminho por pedestres que correm em direção à trajetória das motos”.
179
O Le Monde publicou uma matéria sobre uma proposta do governo para reduzir o reembolso concedido para a aquisição de certos medicamentos de conforto para o tratamento de doenças como câncer, diabetes, AIDS, cardiopatias entre outras. A proposta foi de reduzir o reembolso de 100 para 35%, o que acarretaria a economia de milhares de euros aos cofres públicos. A matéria intitulada Doenças de longa duração: o governo está tentando resolver a controvérsia, foi publicada na edição datada de 26 de junho.
180
O que o motivou a escrever foi o fato de ele ter se identificado com o relatado na matéria "539 mil euros necessários para compensar três anos de detenção", publicada em 07.11.08.
como o bem-estar adquirido quando se tem emprego e dinheiro. Nesse sentido, ressaltam também a inversão na hierarquia quando o bem-estar social deveria estar acima do poder que a sociedade confere a alguns de seus membros. Exemplo: “Esta uma correspondência que quero fazer chegar à [...] Senhora prefeita [...] Um policial civil avança em direção à esquina [...]. Ele parece estar enfurecido. Ele tem uma bomba de gás lacrimogêneo na mão, ele nos olha, ninguém o ameaça [...] Ele diz apontando sua garrafa para as pessoas e diz: você quer? Depois ele pulveriza. [...] Meus olhos começam a coçar e eu evito respirar”181.
Os outros três descrevem seus dramas com os quais buscaram sensibilizar e conquistar a sensibilidade da mediadora assim como dos/as possíveis leitores/as. Exemplo: “Há sete anos um dos meus filhos mergulhou num verdadeiro pesadelo. Apesar da minha luta, a França me priva de ter meu filho. Na verdade, ele tem sucessivas convulsões e foi colocado em um asilo mental”182.
Pode-se dizer que, de certa forma, todos eles escreveram suas cartas tentando convencer de que os problemas que os afligem poderiam atingir qualquer um e que a solução se encontra no exercício da cidadania. Exemplo: “Teríamos mais justiça social se os planos de saúde é que custeassem estes medicamentos. Sendo assim, o orçamento da previdência social seria aliviado bastante”183.
181
Trechos extraídos de outras cartas: “Minha esposa é engenheira de pesquisa no Instituto X, do Hospital Y (preferiu-se aqui omitir os nomes dos locais que constavam da carta original). Ela passou toda a sua carreira lá e se aposentará no final do ano. Porém, o local é precário em termos de segurança e atualmente sua situação é desanimadora”; “Eu sou diabético do tipo B desde 1997. Até 2003 meu médico me receitou medicamentos que não puderam ser reembolsados 100%, pois ele não havia feito o pedido à previdência social. A partir de 2003, após a intervenção do médico, eu então passei a ser reembolsado em 100%. Quem teve o maior lucro foi meu plano de saúde, que não precisou mais me pagar a diferença entre o que eu recebia da previdência social e o que eu gastava com os medicamentos”; “Após a fusão do com a TPS, o canal Plus se comporta como um monopólio e não mantém mais seus clientes e distribuidores. De um dia para o outro fomos demitidos e isso coloca nossa empresa em dificuldades. A razão: nossos clientes em geral não alugavam nossos codificadores, mas os compravam. Agora eles são obrigados a pagar 8 euros por mês e o calção de 75 euros”.
182
Trecho extraído de outra carta: “Existe uma semelhança entre o caso que você relatou e o que se passou comigo. Já se passaram três anos desde que o dia que eu quase perdi a visão [...] eu preciso estar bem amparado e recorrer a um advogado; já gastei todas as minhas economias com os cuidados que ele exige [...] não sei para onde apelar, por isso que eu venho a você para perguntar se é possível vocês ajudarem o meu filho com cuidados médicos”.
183
Trechos extraídos de outras cartas: “Podemos concluir que os pagamentos dos planos de saúde seriam aumentados de alguma forma, mas esse aumento só pesaria sobre a população mais abastada, visto que ela pode pagar por esse um plano de saúde”; “É preciso alertar a opinião pública e o governo, a fim de que as equipes possam trabalhar lá em situação de menores riscos”; “Eu lhe digo que não são estes os métodos de um estado de direito e repensando sobre o que tinham me dito sobre minha função de professor que eu não tinha jamais dito que a policia não deveria prender os delinqüentes e que nós não tínhamos feito nada para receber gazes”.
Apenas um leitor preferiu se identificar por um pseudônimo por temer represália por parte da polícia, a qual acusava de maus tratos: “No momento de assinar, eu tremo: X, um cidadão que talvez não o seja mais em seu espírito”.
A mídia aparece como um veículo capaz de promover essa cidadania: “Mas espero entre outras coisas, que o fato de te escrever protegerá meu medo sobre o papel. Eu ouso esperar que essa interpelação [...] não me trará prejuízo, sobretudo em minha profissão”184.
Dois leitores falam na posição de pais e um na posição de marido, enquanto outro se coloca na condição de desempregado. Todos eles dizem apresentar dificuldade em exercer seu papel social de mantenedor e protetor do lar e da família.