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En  bygningslov  for  Christiania  1927

No contexto de minhas hipóteses, tentarei mostrar como linhas de fuga (como no rizoma de Deleuze) se abrem sob uma sociedade irreverente, reprimida, revoltada e acuada no âmbito pós-escravista, quase pré-capitalista, e deslum- brada e inferiorizada pelas “ luzes” , para inserir os germes que, lentamente, contagiarão a mentalidade brasileira e consumarão uma precária e parcial modernidade burgue- sa — sempre heterogênea e não generalizável, sempre carente de identidade — na primeira metade do século XX.

Contudo, as formas de enquadramento do sujeito social se mantém sólidas dentro da sociedade brasileira do perí- odo estudado, também alijando estes criadores, humoris- tas profissionais de imprensa, do circuito oficial da cultu- ra. Este quadro muda com intensidade após os movimen- tos de repúdio a ditadura na década de 1970 e com a in- trodução da contra-cultura (Tropicalismo).

Diferentemente das economias centrais, que após 1945 começam o processo de individualização galopante que inaugura a cultura pós-moderna e desemboca na comple- ta destruição das antigas formas de enquadramento do sujeito social — reflexo do deslocamento do eixo do po- der do Estado, da Igreja e das elites tradicionais para o mundo dos “ experts” —, aqui no Brasil o conservadoris- mo obtuso subsistiu (e ainda subsiste em muitas esferas da vida nacional) entre a decomposição anacrônica e a pressão imposta pela nova sociedade “ capitalista” dos obreiros, imigrantes estrangeiros e brasileiros oriundos do êxodo rural provocado pela industrialização do país durante boa parte do século XX.

Este sincretismo socio-cultural, aguçado pela comunica- ção de massa — que nivela tudo por baixo para melhor atender aos interesses da dominação — após 1930, defla- gra contradições e paradoxos de difícil compreensão: o modernismo, movimento cultural de inclusão e afirmação cabal da cultura burguesa no primeiro mundo, no Brasil começou como um movimento de “ panelinhas” das eli- tes: os patrocinadores da exclusão social.

…a história cultural,…, busca reconstruir espaços de rupturas, os registros de alguns silêncios e as manifestações pontuais e …fragmentárias de narrativas,

desprezadas pelos meios cultos, pela história literária concebida como constructo artificial, ou mesmo pela própria

historiografia,… a representação humorística, mais do que mera percepção e sentimento de ruptura e da contrariedade, define-se, de forma ambígua, como uma epifania da emoção,…(e) pode ser uma forma privilegiada de

representar a história, pois se mostrou pouco suscetível de enquadrar-se numa narrativa.

Portanto, analisar a representação humorística… é explorar a enorme ambivalência da linguagem, em todas as suas

formas, na construção de um discurso alternativo e de outras possíveis narrativas… ES, pp 31.

Por exemplo, a polêmica entre Oswald de Andrade e Juó Bananere mantida nas páginas d’O Pirralho nos anos de 1910 (10) revelam com clareza que Oswald era um reacio- nário empedernido e arrogante — e até violento —, e que a “ invasão” do Teatro Municipal em 1922 foi uma clara demonstração de que senhores de escravos queriam ser burgueses agora; e traziam sua proposta estética para tal. Mesmo fantasiados de revolucionários, os modernistas não se deram conta de que ainda estavam satisfazendo os anseios de modernização da Belle Epoque da virada do século. Isto fica mais evidente se detetamos seu caráter elitista, pois somente uma relação estreita com as con- cepções das vanguardas do primeiro mundo poderiam inspirar tal movimento no Brasil daquela época.

Dados como estes, citados no parágrafo anterior, trazidos por fontes secundárias, tem me sugerido materiais para reinterpretações; onde pretendo me firmar para discorrer sobre minhas hipóteses; as quais certamente serão refei- tas e adequadas à esta nova visão. A hermenêutica que estou propondo estará calcada sobre a reinterpretação de constatações de outros autores especialistas no período, visto sob novo ângulo: aqui, minha base geral virá de fon- tes secundárias.

Se a história é uma construção, a idéia aqui é gerar uma reconstrução ou uma colaboração efetiva na reelabora- ção da visão existente, ampliando e aproximando os co- nhecimentos disponíveis sobre o período estudado sob o foco de minha área de conhecimento. Assim, entendo que o trabalho sobre fontes primárias, feita em boa dose na minha dissertação de mestrado, passam a ser referência e, as colaborações de outros colegas passam ao primeiro plano.

Nesse ambiente, a metodologia estará focada na coleta de trechos de textos, alguns deles reescritos a partir de seus originais, e imagens originais de época que nos tra- gam mote para explicações e reinterpretações, formando uma espécie de mosaico de assuntos e temas; desenvol- vidos sempre no formato narrativo. Estes, repletos de afir- mações muito bem fundamentadas pelos colegas especi- alistas, apontarão novas conclusões, diversas das origi- nais. Assim será o contexto de “ prova” deste trabalho: nosso microscópio rastreará a lâmina (mosaico) em bus- ca dos germes que confirmem meus enunciados.

Também, visto que consegui um aporte considerável de informações primárias através destes 20 anos de pesqui- sa sobre o autor e o tema, me caberá fazer uma leitura crítica de informações publicadas, afim de colaborar mais profundamente com o conhecimento do assunto; aparan- do discrepâncias e imprecisões provocados pela atávica escassez de fontes, especialmente as primárias.

Constatei que o mesmo desprezo que a cultura oficial do período tinha pelas publicações humorísticas, humoristas e afins como manifestações dignas de serem preservadas pela história, estendeu-se à sua manutenção e conserva- ção; ficando esta memória relegada a poucos e isolados interessados e apaixonados pelos temas, cuja colabora- ção e legados compõem os acervos que dispomos na atu- alidade. Eu mesmo pude constatar a alegria de Ary Torelly, filho de Apporelly, ao me entregar para conservação (o que hoje compõe a maior parte do Fundo Barão de Itararé do IEB-USP) os despojos literários e acervos guardados por seu pai, os quais apodreciam no estábulo de um sítio até 1990.

Ainda contribui para isto a própria natureza destas publi- cações, as quais não ensejam reedições por estarem es- sencialmente ligadas ao momento, por serem efêmeras e conjunturais. Isso me sugere a necessidade e o esforço de publicação de algumas antologias didáticas para o estudo desses temas, “ coisa a se pensar num outro contexto” . Na estratégia que proponho, em primeira instância vou elaborar panoramas gerais para montar o citado “ mosai- co” ou campo de prova num processo de aproximação sucessiva, e ir afunilando o detalhamento, em zoom, para encontrar o tema e os autores: as redundâncias, analogi- as recorrentes, serão inevitáveis e fazem parte de minha estratégia. A idéia da busca de um formato narrativo é evidente e premeditado: a história que vou contar tem o objetivo explícito de fazer e motivar o leitor a pensar e raciocinar sobre o material que apresentarei.

Outro ponto relevante nessa metodologia, além de coop- tar o leitor para uma participação interativa, provocar o debate, a polêmica e a descoberta, será buscar as fontes de mitos e fetiches que permanecem como história, bus- cando outros significados para os mesmos fatos.

Citações & referências

bibliográficas

(1) Bachelard, Gaston. A filosofia do não. São Paulo: Edi- torial Presença, 1991.

(2) Horkheimer, Max. Eclipse da razão. Rio de Janeiro: La- bor do Brasil, 1976.

(3) Lyotard, Jean François. A condição pós-moderna. 10ª edição, pp 111-123. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1998.

(4) Deleuze, Gilles & Guattari, Félix. Mil platôs : capitalis- mo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1997.

(5) Op.cit.

(6) Lipovetsky, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Pau- lo: Barcarolla, 2004..

(7) Chartier, Roger. A história cultural : entre práticas e re- presentações. Lisboa: DIFEL, 1990.

(8) Novais, Fernando Antonio. Condições da privacidade na colônia. In Souza, Laura de Mello e, org. História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na Améri- ca portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. (9) Op.cit. pp 51-57.

(10) Saliba, Elias Thomé. Raízes do riso: a representação humorística na história brasileira - da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio. pp 192-200. São Paulo: Com- panhia das Letras, 2002.

Vinhetas de Voltolino para a primeira edição de Narizinho Arrebitado, de Monteiro Lobato, 1921. HL

QUANDO A M ORENA PASSA

Seth, anos 30, do livro Exposição. HL

Seth (Álvaro Marins), ficou célebre por seus desenhos na publicidade.