Os camponeses agroextrativistas que vivem atualmente na Ilha do Capim são resultado da fixação de camponeses caboclos vindos de outras localidades durante o sistema agrário da borracha e lenha e da recampenização de uma parcela dos seringalistas descendentes dos colonos42. Mesmo com a saída dos seringalistas os descendentes dos Azevedo que
permaneceram na localidade representavam 70% das famílias até o ano de 1997, quando a ilha tinha cerca de 450 pessoas (LEITÃO, 1997). Durante todo o sistema agrário contemporâneo, ocorreram muitas entradas e saídas de famílias. O último levantamento populacional realizado pela associação do PAE Santo Antônio II, no mês de Dezembro de
41 Durante toda a pesquisa nenhum morador soube dizer o significado do nome “Ilha do Capim”, mas os dados
sobre a extensão da área cultivada com cana de açúcar e com capim para o gado no período colonial sugerem que este nome pode ser resultante da extensão da área ocupada por gramíneas (cana de açúcar e capim) naquele período.
42 Entre todas as famílias de seringalistas que viveram na Ilha do Capim, apenas os descendentes de Armínio
Azevedo assumiram uma trajetória de recampenização durante o período da borracha e lenha. Este colono foi quem permaneceu vivendo na ilha depois da crise do sistema agrário colonial.
2017, identificou um total de 138 famílias. Atualmente, as famílias são constituídas por uma média de cinco pessoas. Desta forma, as 138 famílias equivalem a aproximadamente 690 pessoas, clara demonstração do aumento da densidade populacional na Ilha do Capim em relação ao ano de 1997.
Todos os moradores atuais são camponeses agroextrativistas, porém a trajetória histórica de ocupação da ilha provocou a existência de diferenças internas entre estes camponeses. Segundo Leitão (1997) "todos os moradores têm alguma tradicionalidade de ocupação na Ilha, mas constantemente percebe-se no seu discurso uma referência à distinção da origem de cada uma das famílias”. A autora identificou a presença de uma distinção local entre os descendentes dos colonos, chamados até a década de 1990 como os antigos, e os descendentes dos camponeses caboclos vindos de diferentes locais, geralmente identificados como os preto ou os de fora.
A partir da década de 60, quando foi criada a Comunidade Eclesial de Base Santo Antônio, muitos dos camponeses vindos de outras localidades passaram a participar de atividades pastorais e a criar relações de compadrio com os antigos. Por outro lado, surgiu, por iniciativa de camponeses vindos de outras localidades, a igreja evangélica. Atualmente, as diferenças que eram identificadas entre os antigos e os de fora agora são percebidas entre os católicos e os evangélicos. É frequente ouvir os católicos se referirem aos evangélicos como os desorganizados, os viciados e os ladrões. Os evangélicos por outro lado identificam os católicos como os que querem tudo pra si. Desta forma, verifica-se novamente a manutenção histórica de uma relação entre os estabelecidos e os forasteiros. Esta relação tem implicação no manejo dos recursos naturais em função dos estabelecidos possuírem áreas de várzea maiores e os forasteiros menores. Por isso, os estabelecidos centram a maior parte de suas operações técnico-econômicas nas áreas de acesso exclusivo (várzea) enquanto os forasteiros centram a maior parte de suas operações em áreas de uso comum (baías, rios, igarapés, entre outros).
Após o final do período da borracha os seringalistas perderam a capacidade de controlar o uso das terras em função das benfeitorias criadas pelos seringueiros. Os descendentes dos seringalistas eram identificados, em relação ao modo de acesso fundiário, como os donos ou os antigos. Por outro lado, os descendentes dos seringueiros eram identificados como os inquilinos. Os donos raramente transferiam o direito de posse das terras para os inquilinos em função de seus interesses em transferi-la posteriormente como herança para seus filhos. A posse da área onde os inquilinos utilizavam não era considerada como
efetiva já que não podiam doar ou vendê-las a terceiros. Quando algum inquilino resolvia sair da área, a terra deveria ser devolvida ao dono, podendo em alguns casos ser vendida ao próprio dono pelo valor das benfeitorias existentes. Essa situação gerava conflitos, pois os inquilinos reclamavam com recorrência o direito à posse efetiva destas áreas pelo trabalho empregado. Os donos procuravam impedir que estas famílias ganhassem a posse efetiva das terras. Muitos destes conflitos foram resolvidos por vias judiciais.
Essa situação mudou a partir do ano de 2005. Nesta data, foi criado o Projeto Assentamento Agroextrativista (PAE) Agroextrativistas Santo Antônio II. A partir deste momento, os inquilinos foram reconhecidos pela política de reforma agrária como portadores legítimos das áreas em que trabalhavam, gerando uma nova configuração de direitos de uso. Embora a implantação do assentamento tenha dado direito de posse aos inquilinos, alguns moradores antigos consideram que algumas dessas áreas são propriedades suas, gerando ainda hoje conflitos por posse.
A organização social do manejo dos recursos naturais na Ilha do Capim tem relação com a forma de acesso fundiário local. A dificuldade que os inquilinos enfrentaram para acessar a posse efetiva implicou em uma situação de instabilidade fundiária deste grupo social, que permaneceram até o ano de 2005 sem ser considerados como donos de suas áreas. A implicação disso foi a impossibilidade de estabelecer espaços de organização coletiva do manejo dos recursos naturais, dificultando o fortalecimento da organização social do manejo nas áreas de uso comum como os pesqueiros, os rios, os igarapés, a beira da ilha e a floresta de terra firme.