O romance a ser analisado como derradeiro, Memorial de Aires, é considerado o epílogo do tão decantado pessimismo machadiano. A narrativa, em primeira pessoa, termina antes de proclamada a República. O narrador, embora sendo diplomata aposentado, está mais interessado em relatar as aventuras de Fidélia e Tristão e suas amizades e convívios sociais, aos quais acrescenta o casal Aguiar, em especial, do que em comentar ou ao menos registrar os eventos políticos dos tempos agitados que vivia. Para ele, nada muda, muito menos o caráter ambíguo da sociedade e das personagens. Só resta à personagem principal, o conselheiro Aires, expressar sua nostalgia dos tempos passados, quando se sentia em pleno vigor físico para o amor, e também "adotar" o casal de "filhos postiços" de D. Carmo e Aguiar.
A narrativa inicia-se pelo encontro, no cemitério, entre o conselheiro Aires e sua irmã, Rita, que lhe enviara uma carta, um dia antes. Na missiva, Rita lembra ao irmão que já fazia um ano que este retornara da Europa, aposentado e o convidava para ambos irem ao cemitério, no dia seguinte, para “dar graças” pelo regresso do conselheiro. Este diz que não via necessidade de tal coisa, mas, ainda assim, respondeu à irmã que a encontraria no cemitério S. João Batista no dia seguinte.
Gaston Bachelard (2000, p. 111) vê a imagem do ninho como um lugar de repouso, de tranquilidade, ao qual associa a imagem da casa. Para os crentes em uma vida após a morte, o cemitério seria a morada das almas. Ali comparecem, ali cultuam seus finados, ali, em determinados países, é o ponto de visita aos túmulos das celebridades, que já não estão fisicamente entre nós, mas cujos espíritos são evocados. Pessoas queridas que já morreram são vistas, agora, com verdadeira devoção e lágrimas saudosas são ali derramadas. A imagem do ninho, portanto, em nossos devaneios, tanto pode representar o lar, como o jazigo em que estão depositados os ossos dos nossos bem-amados e o espaço para o qual também irão os nossos restos mortais. Entretanto, se a casa é o abrigo de nossos corpos físicos, no cemitério não vamos ao encontro de ossadas e, sim, em busca das almas a serem reverenciadas por nós.
De toda maneira, a visita das personagens ao cemitério está ligada a uma ânsia do passado, materializada na saudade, na memória e no afeto. Nesse sentido, o espaço do cemitério deve aqui ser tomado como algo positivo, sentimental e carinhoso. Aires aceita o convite de Rita para visitar o jazigo familiar, onde estavam sepultados o marido dela e os pais do conselheiro e de sua irmã. Ali, constata que Rita ainda ama o esposo tanto quanto no dia em que este morreu, há vários anos.
Mesmo afirmando que não via necessidade de ir ao cemitério, aceita o convite da irmã. No dia seguinte, eles se encontram no cemitério S. João Batista, onde Rita lava mensalmente o jazigo da família. É nesse local que são entabuladas as circunstâncias para a narrativa de uma futura paixão, agora não dele, que já estava com 62 anos, mas da viúva Noronha, “filha do fazendeiro da Paraíba do Sul, o Barão de Santa-Pia”. Portanto, apesar de certa morbidez desse espaço, ele aqui sugere pulsão de vida e de amor (MAir, 10 jan. 1888).
No Dicionário de símbolos, Chevalier; Gheerbrant (2006) fazem a seguinte análise sobre o túmulo no cemitério:
Como um monte de proporção pequena ou elevando-se em direção ao céu como uma pirâmide, o túmulo lembra o simbolismo da montanha. Cada túmulo é uma réplica modesta dos montes sagrados, reservatórios da vida. Afirma a perenidade da vida, através das suas transformações. [...] Aquele que sonha com mortos, cemitério, túmulos, está, na realidade, à procura de um mundo que ainda encerra alguma vida secreta para ele; para lá vai quando a vida não oferece saída, quando conflitos existenciais autênticos o mantêm prisioneiro sem lhe apresentar soluções; então, pedirá uma resposta às suas dúvidas à beira do túmulo daqueles que levaram muito desta vida para as sombrias profundezas da terra... Assim, estará se voltando para um símbolo forte e grave — pois os mortos são poderosos, são legião — a fim de recuperar o vigor através do que parece inerte, mas é imenso e prodigioso: pois a morte também é vida.
Portanto, a solidão, as saudades e o desejo de reencontro dos amantes, na vida física ou no além, são os temas principais do último romance machadiano.
Digno de nota é o encerramento da narrativa dias antes de ser proclamada a República, que o escritor não aprovava, conforme foi dito por Faoro (1988, p. 67): “O sistema republicano não traria o alívio esperado”.
O que traria, então, o “alívio esperado” para o nosso sofrido povo? Não se sabe. Por isso, esse espaço é reservado às dúvidas e às incertezas futuras. Essa frase foi dita por Machado em crônica de Notas Semanais, no dia 11 de agosto de 1878. O certo é que Assis não aprovava o novo regime político brasileiro. Escreveu ele, na citada crônica que “O Partido Republicano, não obstante as convicções dos seus correligionários, nasceu principalmente de um equívoco e de uma metáfora: a metáfora do poder pessoal [...]”. Em seguida, para ilustrar sua convicção sobre o equívoco em destronar D. Pedro II e mudar o nosso sistema de governo, narra a história de um jovem vadio, de Teerã, que fora aconselhado pelo pai a exercer certo ofício. O jovem correu toda a Pérsia (atual Irã), com o objetivo de avaliar qual profissão era do seu agrado e, após um ano, voltou à casa paterna e disse ao seu progenitor que, das indústrias e profissões vistas entre outras a de fazer as “famosas chitas da Pérsia” e cultivar a plantação de limas, tinha
optado por esta última. Entretanto, após comprar “umas jeiras de terra, comprou umas sementes de limas e semeou-as, depois de invocar o auxílio do sol e da chuva e de todas as forças naturais”. Sua ideia era convidar todos os parentes para um banquete, “quando as limeiras dessem flor” e até presentear o Xá com a primeira lima. As árvores até cresceram, mas não deram frutos. Chamou “um mago”, dobrou a quantidade de água na plantação, mas nada deu resultado.
Um dia, não se pôde ter o jovem lavrador; quis, enfim, conhecer a causa do mal. Ora, a causa podia ser que fosse a falta de alguns sais no adubo, ares pouco lavados, certa disposição do terreno, pouca prática de plantador. O moço, porém, não cogitou em nenhuma dessas causas imediatas; atribuiu o acanhamento das plantas... ao sol; porque o sol, dizia ele, era ardente e requeimava as plantas. A ele, pois, cabia a culpa original; era ele o culpado visível, o sol (ASSIS, 1973, v. III, p. 402)
Conclui o narrador que após sua convicção o rapaz simplesmente optou por vender a terra, meter o dinheiro no bolso e voltar à vadiagem pelas ruas de Teerã e ficar “sem ofício”. Deduz-se dessa narrativa que o sol simboliza D. Pedro II e que o lavrador representa os “vadios” que substituem o esforço próprio pela crítica a quem lhe é superior e opta pelo menor esforço. Uma vez mais constatamos no texto literário de Machado uma manifestação de suas posições políticas.
Em Memorial de Aires, o nome do personagem que intitula a obra e é autor e personagem também do romance anterior, tem origem germânica e significa “o príncipe”, que igualmente faz sentido em relação à postura nobre do conselheiro, diplomata aposentado. Fidélia, a ex-viúva que, nessa condição tanto foi desejada pelo conselheiro, significa, em latim, “fiel”, “sincera”. Tristão, o futuro marido da ex-viúva Fidélia, tem origem celta e seu significado é “narigudo” (DICIONÁRIO, 2014), o que lhe dá um aspecto de alguém que se intromete nas pretensões iniciais de Aires, em relação a Fidélia, a quem arrebata, mas que é perdoado pelo conselheiro, que se considera velho demais para pensar no amor de uma jovem em idade equivalente à de uma filha que nunca tivera. Por isso mesmo, transforma seu desejo inicial em um amor “platônico” e adota a postura de “pai espiritual” do casal. Por fim, entre os personagens mais importantes, temos a “mana Rita”, espécie de “conselheira” do conselheiro Aires. O significado de Rita vem do latim “alegre”, “radiante”, que se coaduna perfeitamente com o modo de ser dela.
Outros nomes importantes poderiam ser citados, como o de Agostinho Santos, pai dos gêmeos. Agostinho significa, em latim, “vindo da família dos Augustos”, que representam “majestade”, “dignidade” (op. cit). Isso indica seu envolvimento com a política da época e título
conseguido por ele para sua esposa: baronesa. Os espaços agora são a representação do desencanto definitivo do autor, em relação a uma possível evolução da alma humana e a um provável benefício social proveniente da modernização da cidade do Rio de Janeiro. Para Machado, o homem é incorrigível, e os primórdios do modernismo brasileiro, acelerado na República, em nada contribuem para a mudança do status quo.
Nessa obra, o espaço trabalhado é principalmente o social, das residências dos personagens nos bairros chiques cariocas, onde se dão os cenários dos eventos. Na noite de 13 de maio de 1888, ao visitar o casal Aguiar e D. Carmo, no Flamengo, o conselheiro Aires, pensando felicitá-los pelo dia da abolição, encontra todos os presentes muito alegres... pela chegada de uma carta da Europa com as notícias de Tristão, o afilhado do casal. Nota-se a ironia do autor que, ao relatar a falsa impressão de felicidade nas pessoas da casa pelo acontecimento histórico, liberador, faz o narrador perceber, frustrado, que ninguém ali estava interessado na abolição da escravatura e sim, apenas nas notícias dos familiares e amigos chegadas de Lisboa. Os acontecimentos particulares, para os amigos de Aires, sobrepõem-se absolutamente aos públicos.
Campos escreveu à sobrinha, referindo-lhe o estado da fazenda, e contando os passeios que deu por ela com o moço Tristão. Este é curioso, discreto no exame das cousas que vê e nas notícias que pede. Lá está o capelão, e mais o juiz municipal. A carta é anterior ao bilhete de Aguiar, não fala nele, mas diz que Tristão não se demorará muito; conta vir daqui a dias (MAir, 13 out.).
Fazendo-se um paralelo entre os espaços e enredos dos dois últimos romances machadianos, vemos que neles, simbolicamente, em Esaú e Jacó, a substituição de uma tabuleta velha por outra nova, de pintura recente, representa a mudança de regimes políticos pouco significativos para o povo em geral, mera mudança formal de inscrições em espaços (tabuletas) antigos. Já em Memorial de Aires, o fazendeiro Santa-Pia resolve alforriar seus escravos por estar certo de que a maioria continuaria trabalhando em sua fazenda, a troco de míseros salários ou até mesmo gratuitamente. A realidade, porém, é outra, pois os libertos não tinham opção, não lhes foram dadas oportunidades de se emanciparem. A justificativa do barão nada mais é do que uma ironia do narrador.
O fazendeiro sabe que dificilmente algo vai mudar na estrutura social ou nas relações que tem para com os (ex) escravos. Estes, mesmo livres, continuarão presos à sua condição de trabalhadores rurais e à falta de oportunidades, não tendo alternativa outra a não ser continuar exatamente como antes, somente ostentando, agora, uma liberdade que é muito mais fictícia do que real (TELES, 2011).
Fig. 13: Cais do porto do Rio de Janeiro no século XIX. Disponível em:
https://www.jeffcelophane.wordpress.com/2011/12/03/. Acesso em: 31 out. 2015.
Constata-se, pela representação do culto aos mortos, constante no primeiro capítulo de
Memorial de Aires, que o narrador se demonstra saudosista em relação aos personagens que
não mais estão com ele. Portanto, presta-lhes uma justa e carinhosa homenagem. Todavia, em relação ao futuro, tudo são incertezas, como também é incerto o rumo a ser tomado, após o charmoso período da Monarquia, cujo imperador tanto amava e atuava em prol do seu país, por representantes políticos do regime republicano, os quais estariam muito mais interessados em dissipar as riquezas do Brasil, em sua internacionalização, do que empenhados em fazer deste um país admirado e respeitado pelas demais nações.
Assim ficam simbolizados, nessa última obra do “Bruxo do Cosme Velho”, os espaços de uma sociedade que oscila entre a estabilidade dada e as incertezas futuras decorrentes de mudanças, a seu ver, quiméricas, entre Monarquia e República e entre conservadorismo e modernidade.
A conclusão que se pode chegar, em relação ao enredo e à representação dos espaços nas últimas obras machadianas, é a de que o Brasil, na visão de Machado de Assis, em seus três últimos romances, “parece ser um aglomerado de grupos distintos, sem comunicação entre si, isolados em seus interesses próprios, alienados em sua própria realidade e desinteressados em construir uma nação” (TELES, 2011). Nada mais atual do que essa afirmação.