3. INNFØRING I AMMONIAKKSTRIPPING
3.4. Effekten av ulike parametere
Neste passo analítico, os dados biográficos selecionados para o primeiro passo (análise dos dados biográficos) são contrastados com narrativas e auto-interpretações do entrevistado. O sentido funcional de experiências para o total da Gestalt da história de vida é o foco, pois, desta forma, o pesquisador evita atomizar experiências (ROSENTHAL, 1993; 2004), buscando reconstruir a perspectiva passada do entrevistado. Isto significa que o objetivo principal deste passo de análise é descobrir o significado biográfico que as situações tinham para o narrador na época em que aconteceram.
Assim, dado biográfico por dado biográfico, coloca-se os trechos do texto em que a(o) entrevistada(o) fala sobre aquele dado, tendo em mente a hipótese estrutural para sua intenção de apresentação, bem como sua situação atual de vida – ou seja, de onde, no tempo e
no espaço, aquele narrador fala. Assim, retirando “as lentes do presente”, buscamos constituir
o passado e seus significados, produzindo um texto em que são expostas as linhas de ação e as interpretações do biografado à época de cada experiência. Estes seriam, como apontado por Alfred Schütz (1962), os motivos porque do indivíduo.
O processo de “retirada das lentes do presente” só é possível porque, anteriormente,
o pesquisador fez o exercício de separação analítica entre vida vivenciada e vida narrada. Na reconstrução da vida vivenciada, é a gênese da vida em ordem cronológica como experienciada no passado que nos interessa, diferentemente da análise de apresentação, onde a gênese das ligações temáticas e a cronologia apresentada no momento da entrevista é que buscamos reconstruir. Além disso, o terceiro passo propicia ao pesquisador um olhar atento àqueles detalhes contidos no discurso, em sua forma e conteúdo, que não puderam ser observados nos passos anteriores. Ao abarcar todo o discurso, tem-se acesso às pausas prolongadas, ausências e pulos temáticos, e aos trechos discursivos que, de alguma maneira, contrariam as hipóteses estruturais geradas nos passos anteriores e neste terceiro passo, além de trechos onde a compreensão dos significados se mostra mais truncada para o pesquisador.
A seguir, apresento um trecho ilustrativo de contraste do caso de Maria. Esta organização contrastiva deve ser um auxiliar para que o pesquisador possa visualizar aquilo que é narrado e aquilo que foi vivido em níveis distintos, fazendo uma separação o mais arraigada possível naquilo que é trazido pelo biografado. Posteriormente, apresento o passo subjacente a este contraste, chamado microanálise.
4.2.3.1 Contraste para reconstrução da vida vivenciada de Maria
Vejamos abaixo como se dá a comunicação entre dados biográficos e narrativas, partindo de um segmento da tabela de contraste de Maria. O primeiro número de identificação dos segmentos representa o número da página da transcrição de onde foi recortado o trecho, e os números subsequentes representam a primeira e a última linha que o trecho ocupa na página.
Quadro 3 - Contraste entre dados biográficos e trechos da vida narrada
Dado biográfico Trechos vida narrada
5. 1986 – Maria vai para o Rio de Janeiro com sua mãe e irmãos. 10/18-24 - mas eu vim pra cá pro Rio com quatro (.) eu sou de Min- de Minas (.)
E1: aê (.)
Mf: sou de Belo Horizonte (.) eu me lembro que foi assim oh (.) a minha mãe chegou pra gente falou assim oh a gente vai embora pro rio de janeiro que o teu pai ta esperando vocês lá (.) //E1: hm// e os me- é isso eu me lembro muito bem (.) eu fiquei toda feliz porque eu gostava muito do meu pai (.) eu visitava meu pai no presídio
10/24-37 - (.) meu era pai é presidiário (.) ele era procurado né (.) //E1: hm// né porque ele fugiu da
penitenciária agro=agrominas lá de minas (.) e mandou a minha mãe trazer a gente pra cá pro rio (.) //E1: hm// só que como ele nunca teve convivência ca gente ele achou igual assim né acho:::u a gente um diabo (.) que criança brinca que criança grita criança corre criança fala e ele num tava mais acos- nunca criou a gente ((mãos batendo)) então pra ele foi ruim (.) então meu pai qualquer coisa meu pai batia qualquer coisa meu pai batia ele num tinha paciência (.) minha mãe catou logo serviço de casa de família meu pai ficava fazendo portaria (.) //E1: hm// por isso que meu pai batia tanto na gente porque ele não conviveu aquilo daí pra ele era novo; (.) agora com trinta ano eu posso dizer isso (.) mas quando eu tinha seis ano eu achava que ele era um carrasco que ele um bicho (.) que ele tava tratando a gente como bicho (.) que aquilo dali que ele fazia era muito tratar a gente no pulso ba-bater de cin- de chicote isso pra mim era uma coisa horrível (.) quem um que vai querer apanhar de chicote do pai? que lá na cadeia me chamava de (escorinha) me dava beijo me dava abraço (.) quando eu vou morar comigo me dá uma porção de porrada? @1@ (.) então eu achei que meu pai num que ele era muito ruim (.)
12/13-31 - E2: então ai depois é você falou que o pai e a mãe morava em Jacarepaguá né? Mf: é (.) E2:
e a sua mãe D. ( ) em Jacarepaguá como é? naquela época? Mf: é (.) em Jacarepaguá era um prédio que o meu trabalhava de porteiro (.) //E2: hm// ( ) na época num tinha essa obrigação de assinar carteira então num assinando carteira não pede documento (.) //E2: hm// o amigo dele indicou ele e ele ficou trabalhando lá ai::: eu vou fumar ali na porta gente (.) E?: //hm// Mf: ( ) E?: @1@ Mf: meu pai a gente ficava- meu pai é dentro de uma quartinho (.) na verdade o prédio é em cima e a gente ficava no subterrâneo (.) tinha a a cisterna a cama lá do meu pai e da minha mãe e as cama da gente pra gente dormir (.) //E1: hm// e a gente não podia brincar no corredor num podia ter acesso ao elevador que não podia mermo que era ordem do sindico e também não podia ficar na frente na portaria (.) então a gente ficava na portaria do banco ai ((estalo com a boca)) ( ) Bamerindus (.) lá na (nils) a gente ficava de frente a esse banco ali ( ) a gente ficava sentando ali no canto (.) o que eu me lembro de lá era isso (.) a gente num tinha=sim eu gostava muito de ficar numa vitrine que tinha logo perto desse prédio vitrines de bonecas com carro que eu ficava admirando as bonecas de lá (.) de lá só lembro isso (.) eu acho que foi muito pouco tempo que passei lá (.) //E?: hm// acho que foi dois anos né que com quatro ano eu vim
pra cá com seis eu fugi (.)
Fonte: Elaborado pela autora (2014).
A partir do recorte de todos os trechos que diziam respeito às temáticas dos dados biográficos, pude ter um mapa o mais claro possível sobre como Maria tratou de cada um deles, tanto na forma, quanto no conteúdo. Ao ter em mente as hipóteses estruturais geradas anteriormente, ou seja, a hipótese gerada a partir dos dados biográficos e aquela para sua intenção de apresentação, a depuração sobre quais são os níveis discursivos que a biografada apresenta, vão tornando-se cada vez mais claros. Será a partir desta depuração que o pesquisador se colocará na tarefa de produzir um texto, o mais completo possível, sobre quais foram as interpretações e linhas de ação escolhidas pelo biografado à época em que teve tais experiências.
Falarei, a seguir, sobre um passo subjacente ao passo de reconstrução da vida vivenciada – a microanálise – cuja importância é evidenciada pela necessidade de produzirmos um teste empírico a respeito das hipóteses levantadas nos passos anteriores.
4.2.3.2 Microanálise
Neste passo analítico, todas as hipóteses desenvolvidas nos passos anteriores são checadas em detalhe. As tarefas do pesquisador são de buscar em segmentos específicos, estruturas de significado latentes, bem como passagens que não foram compreendidas até o momento (ROSENTHAL, 2004).
Para a primeira questão, a do teste de hipóteses, selecionamos um segmento que, a partir de uma linha de hipóteses, parece falsificá-la. Durante sua análise, mantemos longe da preocupação consciente esta hipótese a ser checada, já que o processo de descontextualização pede que o intérprete não olhe para o contexto do restante da entrevista: faz-se a interpretação a partir de uma experiência mental de deslocamento de todo conhecimento a respeito da entrevista e do entrevistado. Assim escolhido o trecho, segue-se linha a linha, ou mesmo expressão por expressão, levantando hipóteses, como feito na perspectiva da hermenêutica objetiva de Ulrich Oevermann (ROSENTHAL,1993).
Da mesma forma, é realizada a microanálise para o destrinchamento de passagens obscurecidas, confusas ou aparentemente deslocadas. Ao final deste passo, será possível voltarmo-nos aos primeiros resultados e comparar os novos achados com o contexto geral da apresentação biográfica, bem como com a Gestalt na vida como narrada pelo indivíduo.
O quarto passo, chamado comparação contrastiva entre vida vivenciada e vida narrada, é uma etapa onde todas as perspectivas analisadas sobre o discurso do biografado são apresentadas conjuntamente. Veremos, a seguir, como estas instâncias se entrecruzam e de que forma podem ser dispostas.
4.2.4 Apresentação do quarto passo: comparação contrastiva entre vida vivenciada e vida