4 MATERIALER OG METODER
5.3 Desinfeksjon av sjøvann med ozon i kjøletanker
5.3.2 Effekt overfor bakterier
Para tratar da categoria “cotidiano”, as reflexões aqui expostas são pautadas
nos escritos de Henri Lefebvre, em A Vida Cotidiana no Mundo Moderno, e Agnes Heller, em O Cotidiano e a História, respectivamente.
Lefebvre (1968, p. 37) reforça o que já havia tratado em sua obra Introduction
à la Critique de la Vie Quotidienne (1946) e critica o estudo da sociedade sob a ótica
marxista de modo polarizado: pela ênfase no “economicismo” ou pela ênfase no “filosofismo”. Não aceita que a herança deixada pelo pensamento marxiano seja reduzida a uma (crítica) economia política ou um sistema filosófico (materialismo dialético). Defende, sim, que, quando Marx aplica o termo “produção” – sobretudo quando se recorre às obras do jovem Marx – este está revestido de um sentido amplo. Assim, para além da produção das coisas (produção material), é possível falar em produção “espiritual”, a produção do ser humano por si mesmo, ou seja, a produção das “relações sociais”.
E, a partir dessa premissa, é possível avançar para a reflexão do cotidiano, pois a esfera do cotidiano não é inferior à filosófica. O autor afirma que, quando a filosofia se declara suficiente, refutando o não filosófico, esta destrói a si mesma.
Vamos separar definitivamente a pureza filosófica e a impureza cotidiana? Vamos considerar desamparado o cotidiano, abandonado pela sabedoria à sua própria sorte? Podemos dizer que é a tela que impede a profundidade luminosa de jorrar contra o ser, deturpação da verdade, e “na medida em que é isso tudo”, faz parte da verdade do ser? Ou tornamos vã a filosofia, ou fazemos dela a cabeça e o ponto de partida de uma transformação do mundo não filosófico, na medida em que ele se revela trivialidade, banalidade prática e prática banal. (LEFEBVRE, 1968, p. 18).
Não é desnecessário repetir que na vida cotidiana é que se expressam as relações sociais, os modos de vida dos homens. O cotidiano não é uma categoria lógica, mas ontológica. Na esfera do cotidiano é que as pessoas nascem, vivem e morrem. Nele é que manifestam suas necessidades, vivem ou sobrevivem, trabalham, comem, vestem, reproduzem valores e culturas. “É no cotidiano que se tem prazer ou se sofre. Aqui e agora” (LEFEBVRE, 1968, p. 27).
Para não incorrer no risco de cair numa dualidade maniqueísta de bem/mal, é importante considerar que o cotidiano, assim como a filosofia, tem seus dilemas.
Heller (2008, p. 57) ressalta que “a vida cotidiana, de todas as esferas da realidade, é aquela que mais se presta à alienação”. Lefebvre (1968, p. 23) reforça que “o homem cotidiano se mostra perdido: entravado, preso por mil laços, às voltas de mil probleminhas miúdos”. Por esse motivo, cabe desvelar a riqueza e a miséria do cotidiano, pois a alienação filosófica pressupõe verdade sem realidade e a alienação cotidiana pressupõe realidade sem verdade (LEFEBVRE, 1968). Assim, segundo Heller (1994, p. 18), não é a abolição da vida cotidiana que deve ser buscada, mas a formulação de uma vida cotidiana não alienada.
Para o objeto deste estudo, importa considerar a inserção do assistente social no Creas em seu trabalho no Paefi. Como, estando “às voltas com mil probleminhas miúdos”, trabalhar numa perspectiva e consciência de totalidade?
Heller (2008, p. 34), por sua vez, aponta que a vida cotidiana não está fora da história, mas no centro do acontecimento histórico, pois os acontecimentos marcantes da vida cotidiana contados nos livros partem da história e a ela retornam. Desse modo, quando uma pessoa assimila a cotidianidade de sua época, assimila, também, o passado da humanidade.
A autora descreve a vida cotidiana como do “homem inteiro”, compreendendo que o homem participa com todos os aspectos de sua individualidade, personalidade, e nela expressa suas paixões, seus afetos e suas ideologias. Assim, apoiada no pensamento de Georg Lukács, Heller (2008) lembra que o homem inteiro é que tem condições de intervir na sociedade. E essas condições só lhe são favoráveis quando a atividade cotidiana se eleva ao nível da práxis e torna-se “atividade humano-genérica consciente”.
Contudo, só se atinge o patamar de atividade humano-genérica por meio da suspensão do cotidiano. O sujeito interrompe o curso natural de seu cotidiano para se dedicar às atividades únicas, que, em outro momento, se refletirão na vida cotidiana. A autora explica que a suspensão do cotidiano traz a possibilidade de homogeneização, na qual o homem que a vivencia “homogeneíza” os fatos cotidianos para se concentrar em um de seus aspectos (por ex.: grandes cientistas, artistas e escritores que se isolam, ou se concentram, tanto em sua obra por determinado período que passam a viver num outro patamar da cotidianidade: o patamar da genericidade). Assim, essa homogeneização consiste no que a autora chama de “homem inteiro e pode abrir caminho para o “humano-genérico”, em que o
homem viveria a completa saída da cotidianidade alienante na qual se insere; a completa suspensão da individualidade; e ocorreria a passagem de “homem inteiro” até tornar-se, também, “homem inteiramente”, enfim, o “humano-genérico”.
O termo “humano-genérico” refere-se ao homem que se coloca pleno e livre para exercer suas habilidades, seu trabalho; remete sempre para uma “consciência de nós”, nunca para o “eu”. O homem é um ser genérico: produto e expressão das relações sociais. O representante do humano-genérico não é jamais um homem que se entende isolado, mas aquele que busca sempre estar em integração, tendo como ponto de partida a consciência do “nós”. Só a partir da consciência do eu, é possível avançar para a consciência do nós.
Desse modo, na aliança individualidade e genericidade, ocorre a produção da individualidade comunitária. Essa concepção de mundo, baseada no humano- genérico será possível somente quando abolidas as formas de enquadramento e de hierarquia da cotidianidade e quando, enfim, cada um tiver condições de escolha e “condução da própria vida”.
Contudo, a condução da própria vida não está restrita ao representante do humano genérico. Heller (1994), em sua obra La Revolución de la Vida Cotidiana, apresenta perspectivas para superar a alienação da vida cotidiana mediante a ação do indivíduo. Para a autora, indivíduo é todo ser particular que compreende conscientemente que a própria vida passa a ser um objeto na vida cotidiana, mas tem essa compreensão porque se assume conscientemente como membro de uma espécie, ou seja, como parte do todo social. Heller (1994, p. 11) defende que:
[...] la alienación de la vida cotidiana no ha de buscarse en el pensamiento o en las formas de actividad de la vida diária, sino en la relación del individuo
con estas formas de actividad, así como en su capacidad o incapacidad
para jerarquizar, por si mismo estas mismas formas ; em su capacidad o incapacidad, en fin, para sintertizarlas en uma unidad. De hecho, esta capacidad depende de la relación que el individuo mantiene con lo no cotidiano, es decir, con las diversas objetivaciones orientadas en el sentido de la espécie.
Nesse sentido, “El individuo es un particular que ‘sintetiza’ em si mismo la singularidad casual de su individualidad y la generalidad universal de la espécie” (HELLER, 1994, p.13). Na sociedade, todo homem tem consciência do eu, no entanto, só o indivíduo pode ter autoconsciência, o que quer dizer que só o indivíduo pode perceber, refletir e intervir na vida cotidiana de modo consciente. É para essa
análise que Heller utiliza o termo “condução da própria vida”, pois nem todos os homens têm condições de conduzir a própria vida; somente é capaz de fazê-lo o indivíduo que conscientemente consegue sintetizar as objetivações de sua espécie.
Com base nesse pensamento, interessa tratar do cotidiano dos assistentes sociais com as famílias em situação de violência. Cabe saber quais mediações são utilizadas, que estratégias são desenvolvidas em face das demandas miúdas do seu cotidiano e como esses profissionais interpretam os aspectos da vida de todo dia em seu trabalho e em suas relações – aspectos vistos na etapa de pesquisa deste trabalho.
O espaço privilegiado da intervenção profissional é o cotidiano, o “mundo da vida”, o “todo dia” do trabalho, que se revela como “o ambiente no qual emergem exigências imediatas e são desenvolvidos esforços para satisfazê-las [...]” (BAPTISTA, 2001, p. 111).
Desta feita, na compreensão de que é necessário superar o imediato e, numa perspectiva de totalidade, buscar conhecer suas raízes, Lukács e Pontes são referências para a compreensão da categoria “mediação”. A totalidade é uma categoria concreta, constitutiva do real, também processual e dinâmica, abrangendo diversos complexos que existem em interação mútua. Desse modo, a categoria mediação aparece como potência de articulação nesses complexos, que reúnem características próprias, mas também são caracterizados pelo todo.
Enfim, a esta categoria tributa-se a possibilidade de trabalhar na perspectiva de Totalidade. Sem a captação do movimento e da estrutura ontológica, das mediações, através da razão, o método, que é dialético se enrijece, perdendo, por conseguinte, a própria natureza dialética (PONTES, 2002, p. 81, grifo do autor).
A realidade não se limita ao imediatamente dado, pensado e sentido, mas é necessário estabelecer mediações. Pontes (2002) comenta que Lukács (1979), em sua obra A Ontologia do Ser Social: A Falsa e a Verdadeira Ontologia de Hegel, afirma que tudo o que existe na natureza e na sociedade é fruto de mediações.
Enfatiza que as ações profissionais necessitam estar embasadas no conjunto: teoria social, projeto de sociedade, projeto profissional e o instrumental teórico- técnico de intervenção (PONTES, 2002, p.16). Para o autor, a articulação dessas quatro dimensões viabiliza o reconhecimento e a legitimação do serviço social no plano da sociedade, bem como na compreensão dos próprios assistentes sociais.
Assim, mostra-se fundamental o estudo da tríade singular-particular-universal, com vistas a evitar, no âmbito da pesquisa sobre famílias em situação de violência, qualquer interpretação polarizada e reduzida nas perspectivas universal e singular. Assim, é na particularidade que o movimento dialético das mediações sociais se estabelece e traz perspectivas de compreensão e superação dos modos de exploração historicamente constituídos.
A respeito da dialética singular-particular-universal, Betty Oliveira (2005) retoma as três relações que, segundo Marx, são estruturais da atividade humana: a do indivíduo com sua produção; com o produto da atividade executada; e com o gênero humano – ou seja, a relação do homem com outros homens. Nessas três relações estruturais, faz-se necessário lembrar que existem mecanismos alienadores e desarticuladores. No capitalismo, o particular desaparece, ficando apenas os polos extremos (universal-singular).
Nesse sentido, a relação singular-particular-universal “[...] é indispensável para que se possa compreender essa complexidade da universalidade que se concretiza na singularidade, numa dinâmica mulifacetada, através das mediações sociais – a particularidade” (OLIVEIRA, 2005, p. 26). O particular é a categoria mediadora, pois sem a particularidade um fenômeno não pode ser compreendido.
Para que se possa compreender a singularidade é indispensável que o pensamento tenha alcançado um máximo de aproximação do estágio mais desenvolvido das relativas particularidade e universalidade nas quais se insere a singularidade em estudo (OLIVEIRA, 2005, p. 47).
O singular não existe em si e por si, mas numa relação intrínseca com o universal, que, por sua vez, só é possível por mediações que incluem o particular (OLIVEIRA, 2005, p. 50).
A autora afirma que, quanto mais uma sociedade se “complexifica”, mais necessários são elementos os mediadores e mais complexas as conexões entre eles. Nesse mesmo entendimento, Battini (2009, p. 65, grifos do autor ) ressalta que:
Colocar o problema das mediações é colocar o problema fundamental do conhecimento do movimento da sociedade. É na descoberta dessas passagens, dessas metamorfoses, desse movimento, que se vai chegar às
determinações e, portanto, apreender o caráter concreto do objeto que foi
Marx (1976, p.161), em A Miséria da Filosofia, afirma que a “história social dos homens nunca é mais do que a história de seu desenvolvimento individual, quer tenham consciência disso ou não”.
Relacionando a mediação ao objeto de estudo deste trabalho, o desafio colocado ao assistente social em sua prática cotidiana no Creas está em constituir- se como sujeito consciente de sua história, de seu tempo, pois “no indivíduo está sintetizada a particularidade (as mediações sociais) e a universalidade (a genericidade) que foi possível ao indivíduo apropriar-se” (OLIVEIRA, 2005, p. 50,
sic).
O desafio que se pretende enfrentar, com este trabalho, é verificar como e em que medida tem sido possível essa apropriação por parte do assistente social que trabalha com indivíduos e famílias em situação de violação de direitos, nos Creas. Para tanto, são apresentados elementos de aporte para a discussão na etapa de pesquisa. O próximo item versa sobre a prática profissional do assistente social.