Retornando ao assentamento um mês depois da segunda reunião, iniciamos o “Curso de Permacultura”. Apesar de não se tratar exatamente do PDC, que também é, genericamente, chamado de curso de permacultura, optei por dar esse nome ao curso por dois motivos afetos respectivamente aos dois pólos da pesquisa – pesquisador e “pesquisados”. No aspecto que concerne a mim, a opção se justifica por ser uma das minhas metas acadêmicas e profissionais, auxiliar a consolidação do conceito de permacultura, como uma metodologia específica e valorosa à construção da sustentabilidade. No caso dos assentados, notei uma curiosidade salutar sobre o tema e a ciência de que um dos seus, o Valdemir, havia sido brindado, em nome do assentamento Colônia I, com uma bolsa num “Curso de Permacultura”, conforme citado no “tópico 3.3” desta. De modo que senti ser pertinente guardar esta semelhança entre os dois cursos, o da cidade e o do assentamento.
Haja vista que uma das propostas do Projeto PPP-Ecos, derivada da intenção do grupo “Vida e Preservação”, é ampliar a rede de contatos e de reflexões sobre a sustentabilidade local. As vagas do curso foram abertas a assentados que não compunham o grupo e até para membros de outros assentamentos, totalizando no primeiro dia de curso vinte e quatro participantes.
Como material didático, foi fornecido, para cada participante, uma pasta de plástico duro, contendo um caderninho de anotações, uma caneta e uma cartilha ilustrada, intitulada “Permacultura: Noções Gerais”78, de minha autoria (anexo II). Os recursos pedagógicos que foram utilizados são, quadro branco e projetor (“data show”). O curso foi realizado na sede coletiva do assentamento, que dispõe de um grande salão e uma cozinha industrial.
O processo pedagógico se deu de forma diversificada, alternando momentos de conversas circulares, exposições, exercícios e atividades práticas, além da realização freqüente de dinâmicas de grupo. A maior parte do curso foi conduzida
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Tal cartilha foi desenvolvida primeiramente para ser utilizada em um curso de extensão ministrado na Universidade Católica de Brasília.
por mim, porém houve também a participação de outros membros do Ipoema, compondo a capacitação, o que ampliou ainda mais essa referida diversidade didática. Um aspecto fundamental para a pesquisa foram as avaliações do processo, freqüentemente realizadas com o grupo.
Tendo em mente uma gama de informações que pretendia trocar com os assentados, me esforcei no sentido de assumir ao máximo uma postura dialógica, porém para que tivéssemos um fio lógico condutor do processo, defini alguns temas que haviam necessidade de serem tratados anteriormente a outros. E no decorrer do processo, busquei dar um direcionamento pautado na ansiedade do grupo.
Antes de adentrar nas reflexões da pesquisa propriamente, farei aqui um breve relato do processo:
No primeiro final de semana, iniciamos as atividades com uma dinâmica de grupo, realizada em círculo, na qual cada um dos participantes presentes apresentou-se, fazendo uma breve narrativa de sua trajetória de vida até aquele momento. Nesta dinâmica, cada um que falava segurava um rolo de barbante e, ao terminar sua fala, mantinha o fio preso a sua mão e arremessava o rolo aleatoriamente para outra pessoa, de modo que ao término da atividade havia no centro do círculo uma teia formada pelos fios do barbante, da qual cada um ali era um nó, ou ponto. (Foto 3.15)
Dando seqüência, foi feita uma exposição, com slides, trazendo uma problematização da questão da (in)sustentabilidade no planeta e a relação da permacultura e da agroecologia com esta sustentabilidade, apresentando seus objetivos e sua ética. Neste mesmo dia foram apresentados por Isabela Lutz, também de forma expositiva com slides, alguns princípios ecológicos que regem o funcionamento do planeta (fotos 3.16 e 3.17):
Fotos 3.16 e 3.17: Aulas expositivas
Ainda neste primeiro módulo, já no seu segundo dia, foram abordados os princípios que devem ser observados no planejamento permacultural e agroecológico em uma determinada intervenção. Esta etapa foi realizada em círculo de debate, mediado por mim, de modo que eu transitava do círculo para o centro, onde, sentado ao chão, me valia do quadro branco para algumas anotações (fotos 3.18 e 3.19). Por fim foi proposto e realizado um exercício de planejamento em pequenos grupos.
Fotos 3.18 e 3.19: Aulas circulares
No segundo final de semana, iniciamos com uma outra dinâmica de grupo, na qual as pessoas de mãos dadas se entrelaçam e depois, num exercício coletivo, devem retornar ao círculo sem quebrar os elos (soltar as mãos).
Após uma breve revisão do que havíamos tratado no fim de semana anterior, seguindo a mesma dinâmica circular de condução da aula, abordei os temas Florestas e Solos, no primeiro dia, e Clima e Água, no segundo. Neste Módulo foram feitas práticas de aproveitamento de águas servidas com plantio consorciado – círculo de bananeiras (fotos 3.20 a 3.26) – e ainda foi erguida uma pequena estrutura para servir de apoio à cozinha. No encerramento desta etapa, foi realizado um planejamento coletivo para o fim de semana seguinte, no qual o assentamento receberia cerca de quarenta jovens de outros assentamentos participantes do curso Técnico em Agropecuária com habilitação em Meio Ambiente e Agricultura, promovido pelo GTRA_UnB.
Fotos 3.20 e 3.21: Saída da água servida da cozinha coletiva
Fotos 3.22 a 3.26: Implantação do círculo de bananeiras
No terceiro final de semana conduzimos uma atividade que unificou os participantes do curso com os jovens de outros assentamentos. Iniciamos mais uma vez com uma dinâmica de grupo, realizada com grupos menores, na qual cada um destes encenava, de modo breve e improvisado, para os demais, uma cena referente ao tema “a vida na reforma agrária”. Após isso foi abordado o assunto Sistemas Agroflorestais e, posteriormente, foram realizadas atividades práticas (fotos 3.27 a 3.31). Para as atividades, a turma foi dividida em cinco grupos. As atividades foram:
1. Manejo do sistema agroflorestal existente na área;
2. Implantação de uma horta “mandala” (circular) com plantio consorciado, e a implementação de uma composteira;
3. Inícios da construção do tanque de 50 mil litros, de ferrocimento, para armazenamento de água da chuva;
4. Início de uma construção de terra destinada a ser casa de sementes; 5. Manejo e plantio no viveiro florestal.
Fotos 3.27, 3.28, 3.29,e 3.30: Atividades práticas
Foto 3.31: Roda de encerramento do dia de trabalho
A dinâmica de realização destas atividades se deu de modo que cada grupo se mantinha na atividade por meio período (matutino ou vespertino), e depois os grupos se alternavam nas atividades. Em cada atividade havia um monitor do Ipoema coordenou a atividade. Além disso, houve um momento para socialização das experiências no qual cada grupo explicava, para os demais, o que tinham realizado em cada atividade. Neste fim de semana houve ainda uma atividade noturna de planejamento e avaliação das atividades do grupo jovem, e a projeção de
slides com fotos do Centro Permacultural Chácara Asa Branca e de outras
experiências agroecológicas.
No quarto fim de semana, houve a continuidade da prática de construção do tanque de armazenamento de água, para que os assentados pudessem assimilar bem a técnica, já que eles deveriam continuar a obra até seu término. Foram ainda abordados, de formas distintas, os temas, “Bioconstruções”, por mim, “Alimentação e aproveitamento alimentar do cerrado” por Rafael Poubel e a “Importância do cerrado” por Isabela Lutz. Como conclusão desta etapa do curso, cada participante apresentou um planejamento, realizado para o seu lote, utilizando os métodos discutidos ao longo do curso (fotos 3.32 a 3.41). Por fim foi feita uma avaliação final do processo e foi agendada uma data para saída de campo em visita à Chácara Asa Branca em Brasília.
Fotos 3. 32 a 3. 41: Apresentações dos desenhos dos lotes
Foto 3. 42: Encerramento
Devido a dificuldades internas, a data da visita foi remarcada por quatro vezes até que três meses após o término da etapa no assentamento, um grupo de vinte e dois agricultores e agricultoras do Colônia I foi à Chácara Asa Branca (foto 3.43). Lá eles puderam observar de perto a aplicação do método permacultural de planejamento, bem como algumas de suas técnicas. Foi uma oportunidade de esclarecer algumas dúvidas, além de fazer uma nova avaliação frente às possibilidades demonstradas in loco. Simbolizando então o desfecho do processo de capacitação, foram entregues certificados de conclusão do curso (foto 3.44),
referendado pelo Ipoema, tanto para os que completaram o curso quanto para as mulheres que auxiliaram na organização, principalmente na cozinha e arrumação do espaço durante o curso. (Lista de Nomes, ver anexo III)
Foto 3.43: Sobre um telhado vivo (construção ecológica na ch. Asa Branca)
Foto 3.44: Com os certificados