1 Theory
1.3 Economic crisis
Em um primeiro momento, gostaríamos de deixar claro ao leitor que as análises dessas entrevistas realizadas com as intérpretes dos surdos não são o foco da pesquisa. Elas apenas servem para dar a vocês leitores, um panorama de como está à formação dos intérpretes na escola pesquisada, para que percebam alguns tópicos que ainda são recorrentes tais como: o preconceito, a mistificação, crendices e principalmente valores morais cristãos enraizados nos discursos dos mediadores da língua dos surdos, que pode interferir, não intencionalmente, na construção de (in)verdades para esses, visto que os surdos tem pouco acesso a essas reflexões em relação à sexualidade em outros ambientes (até mesmo familiar).
Sendo assim, o objetivo dessas entrevistas não foi identificar e analisar com aprofundamento cada aspecto relacionado à sexualidade das intérpretes, mas sim, traçarmos um panorama geral para conhecermos um pouco quem são os profissionais que atuam diretamente com os surdos, e como expressam suas sexualidades no sentido de sentirem-se aptos a trabalharem com os surdos a temática da sexualidade e gênero, livre de sexismos e valores morais construídos com base no senso comum e, principalmente, valores próprios, assim como sabermos se se sentem confortáveis ou não para interpretarem reflexões sobre a temática. Podemos, inclusive, ressalvar alguns aspectos relacionados à construção da sexualidade do próprio intérprete, pois os valores próprios e os ensinamentos que necessitam ser colocados aos surdos muitas vezes se confundem por não serem pessoas capacitadas a trabalharem com a temática, e muitos se sentem desconfortáveis para atuarem com as questões que aparecem na escola o tempo todo, como podemos observar nas entrevistas ao questionarmos sobre temas como, masturbação, a constituição de família sem o papel do casal heteroafetivo dentro do lar.
Em relação à orientação e educação sexual dada pelas famílias das intérpretes, pudemos constatar pela descrição de uma intérprete, que ela teve a mãe participativa nesse processo. A outra afirmou que tanto o pai quanto a mãe foram omissos nas temáticas discutidas na entrevista. E ambas relevaram positivamente a importância das irmãs mais velhas, nesses diálogos sobre sexualidade em suas vidas.
Já, quanto as manifestações da sexualidade, as intérpretes observam de maneiras diferentes as suas condutas, com muitas controversas diante das observações ditas por elas. Mesmo assim, consideram que os surdos são pessoas bem informadas em relação à sexualidade. Afirmação esta contraditória às suas próprias falas de que os surdos têm uma sexualidade tardia no que tange à aprendizagem e reflexões sobre sexualidade, etapas de
desenvolvimento (mudanças corporais, tais como crescimento de pelos, menstruação, gravidez...), e questões de gênero que não são refletidas no dia-a-dia dentro de uma visão não sexista.
Esta entrevista focou a postura das intérpretes, principalmente suas formações em sexualidade, visto que, como elas afirmam, o surdo quando tem dúvidas, recorrem a elas para perguntarem temas relacionados à sexualidade e gênero, e então elas procuram responder com base nas informações coletadas, juntamente com o aluno surdo, principalmente na internet, mas não há um estudo anterior realizado por elas.
Parte 2
Ambas as intérpretes acreditam que as dúvidas mais frequentes dos jovens surdos são semelhantes às de todos os outros surdos e ouvintes, porém, há "atraso" em relação às faixas etárias, comparadas aos ouvintes. O que ambas afirmam sobre a família do surdo, em geral, é que ela é frequentemente omissa com a educação e orientação sexual desses jovens surdos. Sabemos que isso não ocorre apenas em lares surdos, mas acentua -se principalmente nesses lares pelo fato, principalmente, dos pais não conhecerem a Libras, e a comunicação ser ainda mais precária (MOREIRA, 1998). As intérpretes consideram, muitas vezes, as perguntas muito atrasadas, como, por exemplo, a adolescente que havia menstruado e não sabia o que era, visto que não há conversa sobre o assunto no meio familiar. Em todas as perguntas e respostas, podemos claramente observar que não há uma grande diferença na falta de orientação de educação em sexualidade tanto para o jovem ouvinte quanto para o jovem surdo, as diferenças de gênero não são apontadas. A temática ainda é um tabu nos meios escolares e familiares, e, mesmo a mídia, tão presente no dia a dia da vida dos jovens, não vem cumprindo o seu papel informativo e reflexivo quanto a essas questões para nenhum dos públicos jovens. (VILHALVA, 2007)
Os surdos têm pouco acesso às reflexões com especialistas, chegando somente a eles as informações do dia-a-dia, do senso comum, que são desencontradas e desconfiguradas, com as trocas entre amigos. Raramente eles têm palestras, formações, discussões ou outras reflexões na escola. Podemos constatar pelas entrevistas, que as intérpretes desempenham na escola um papel que não é seu, pois não tem formação adequada para trabalharem educação em sexualidade e discutir sobre essa temática. Não queremos com esta afirmativa responsabilizar o intérprete por esta atuação no meio escolar, mas gostaríamos apenas que com essas discussões apontadas pelas intérpretes, pudéssemos trazer para a reflexão a
importância das políticas públicas educacionais, fortalecer a formação inicial e continuada no que tange a educação em Sexualidade desde o Ensino Infantil até o Ensino Superior. Essas intérpretes são formadas em educação física, mas o corpo não é desvelado em todas as suas possibilidades, mas sim em possibilidades estreitas e vazias, que atrasam o conhecimento em sexualidade e relações de gênero, onde se percebe que a formação inicial não se atentou a essa temática, que deveria estar presente para elas.
As intérpretes ao falarem de temas sem formação recorrem à temática trazida pela família, algumas vezes pela mãe e pai, outras pelas irmãs. Isso mostra o quanto as falas são permeadas de ensaios e erros, sem contextualização, sem uma fala construídas por estudos ou formação acadêmica, e elas perpassam os espaços escolares, multiplicando para surdos e outros alunos esses conceitos equivocados. O que se faz importante é que na formação inicial de qualquer profissional da educação esses temas sejam contemplados, para não haver entraves, desconhecimento e equívocos que poderão trazer muitos problemas na vida desses jovens, ao sair da escola.
APÊNDICE IX - OS PROTAGONISTAS E OS ESPAÇOS ENVOLVIDOS NA