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Os motivos que a pessoa desenvolve para permanecer em abstinência são reforçadores positivos. A família, o desejo de viver, gostar de si, manter-se ocupado com trabalho e sonhos de fazer faculdade foram os motivos citados pelos nossos entrevistados para permanecer em abstinência. Aliado a esses motivos, a fé em Deus ou ter vínculo com a igreja foram citados pela metade dos entrevistados.

A prática da religiosidade cristã tem sido um dos instrumentos terapêuticos utilizados no Esquadrão da Vida de Bauru (cultos evangélicos, aconselhamentos pastorais, orações e leitura da Bíblia) desde sua fundação. Ao serem questionados se a prática da religiosidade havia sido importante no processo de recuperação, todos responderam afirmativamente, sob a alegação de que haviam aprendido de

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O Esquadrão da Vida de Bauru se utiliza da técnica de prevenção à recaída em atividades de grupo. Essa atividade é coordenada por um técnico responsável por essa área.

Deus que a prática da fé é uma ferramenta que auxilia para o recomeço da vida, e que foi onde conheceram Jesus. Um dos entrevistados relatou que quando se “desviou” e tomou um caminho alternativo, saiu da religião e foi usar drogas (entrevista 3). O retorno à prática da religião foi determinante para o tratamento e manutenção da sobriedade nesse caso. Outro entrevistado respondeu: “Porque a gente acha refúgio em Deus, e buscando os princípios de Deus ele nos ajuda a encontrar caminhos diferentes daqueles que estava vivendo” (entrevista 2). Segundo esse relato, a vivência de um ambiente religioso aliado aos princípios da religião serviu de parâmetro para o encontro de um novo caminho livre das drogas.

De acordo com estudos, a religiosidade facilita a recuperação de drogas e diminui os índices de recaída. Outros autores afirmam que religiosidade é capaz de auxiliar na recuperação de dependentes químicos em razão de o ambiente promover o aumento do otimismo, percepção do suporte social, resiliência ao estresse e diminuição da ansiedade. Para Barret, Simpson e Lehman69 (1988 apud SANCHES; NAPPO, 2008) o mecanismo da religiosidade na manutenção da abstinência estaria mais relacionado a questões sociais, como ressocialização do jovem por meio da reestruturação da rede de amigos em um ambiente sem drogas, do que dos elementos subjetivos da fé.

Em outras pesquisas sobre a relação entre religião, espiritualidade e o consumo de drogas, Sanchez e Nappo (2007) encontraram que as pessoas que frequentam aos cultos religiosos com regularidade, ou que dão grande importância à crença religiosa, ou que praticam no seu dia-a-dia as propostas professadas pela religião, apresentam menores índices de consumo de drogas lícitas e ilícitas. Aliado a isso, os dependentes de drogas apresentam melhores índices de recuperação quando o tratamento possui uma abordagem espiritual em relação àqueles que são tratados apenas pela abordagem médica. De acordo com Koenig70 (2003 apud SANCHEZ; NAPPO, 2007), os pacientes de maneira geral são beneficiados pela prática da religiosidade, principalmente em momentos em que estão sujeitos a mudanças sociais e psicológicas estressantes advindas dos problemas da doença.

69 Barrett ME, Simpson D, Lehman WE. Behavior a lchanges of adolescents in drug abuse

intervention programs. J Clin Psychol.1988. p. 461-473.

70 Koenig, H.G.; George, L.K.; Meador, K.G.; Blazer, D.G.; Ford, S.M. Religious practices and

Sanches71 (2006 apud SANCHEZ; NAPPO, 2007) afirma que dependentes de drogas se encontram dentro desse perfil em razão de terem uma doença crônica, vivenciando momentos estressantes e traumáticos ao longo do processo de recuperação.

Em pesquisa com ex-usuários de drogas que haviam se utilizados de recursos religiosos não-médicos para tratar a dependência de drogas, Sanchez e Nappo (2008) entrevistaram 85 pessoas. Os entrevistados eram católicos, evangélicos e espíritas. Segundo as pesquisadoras, o maior consenso entre as religiões no tratamento é a proposta de orações. A oração teria a capacidade de tranquilizar o usuário por meio de um estado meditativo e de alteração de consciência, promoveria a fé, dividindo a responsabilidade do tratamento com Deus, amenizaria o peso da luta solitária do tratamento e permitiria a intervenção de Deus frente aos "espíritos do mal ou diabo”. As pesquisadoras concluem que:

A fé promove a qualidade de vida. A adoção de referenciais da religião faz com que o fiel confie na proteção de Deus e respeite as normas e valores impostos pela religião, melhorando a qualidade de vida dos adeptos. Esse comportamento levaria ao afastamento natural das drogas, à falta de interesse impulsionada pelo medo ou apenas pela conscientização da degradação moral associada ao abuso destas substâncias. O enfrentamento das dificuldades, a partir da perspectiva espiritual apoiado na fé, acaba proporcionando afastamento natural de atitudes contrárias a moral difundida pela religião. Além disso, o fato de se contar com a ajuda irrestrita de Deus gera um amparo constante, conforto e bem-estar (SANCHEZ; NAPPO, 2008).

Seja pelas relações sociais promovidas pelo desenvolvimento da religiosidade ou pelos fatores subjetivos (oração, fé etc.), a religiosidade tem se mostrado efetiva tanto no processo de recuperação como na manutenção da abstinência, conforme sugerem as pesquisas.

Os sonhos ou objetivos futuros podem ser entendidos como reforçadores positivos para a manutenção da abstinência. Fazendo um paralelo com as respostas sobre os maiores problemas que tiveram quando estavam no uso contínuo de drogas com os sonhos atuais, 80% afirmaram que tiveram problemas familiares como perda do casamento e distanciamento dos familiares, incluindo filhos. No dia da entrevista, 80% confessaram sonhos de ter ou manter o relacionamento familiar,

71 SANCHEZ, Z.M. As práticas religiosas atuando na recuperação de dependentes de drogas: a

experiência de grupos católicos, evangélicos e espíritas. Tese de Doutorado. Departamento de Psicobiologia. Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2006.

fazer a família feliz e assumir as responsabilidades familiares. Um dos entrevistados respondeu: “sonho que não haja mais recaída. Que as pessoas possam ter um encontro consigo mesmas e com Deus e uma vida responsável para gerir a família” (entrevista 8). Esse entrevistado estava abstinente há 38 anos e passou por uma internação. Após o término do programa de recuperação, permaneceu na entidade até a aposentadoria. Os demais afirmaram sonhar em concluir a faculdade e ser pregador da palavra de Deus.