No reforço de suas clientelas, Antonio Belinati não descuida do contato pessoal, da aproximação com os moradores-eleitores dos bairros pobres da cidade. Uma das práticas utilizadas pelo ex-prefeito para garantir esse contato pessoal com o eleitor no atendimento de suas demandas era a promoção de “sessões de atendimento direto à população” em seu gabinete, na prefeitura. As “sessões” eram organizadas em horários especiais, como de madrugada ou à noite, o que facilitaria a presença do morador-eleitor pobre e que, eventualmente, trabalha no horário comercial.
O político em questão prefere se dirigir individualmente aos eleitores. Nesse sentido, por iniciativa própria, oferece essa opção pessoalizada de relação política. Uma alternativa à relação mediada por canais institucionais que expressariam a cristalização do direito político à participação. Ele prefere e oferta uma abordagem que valoriza a relação intimista, característica da esfera privada das relações, onde o que se sobrevaloriza são os gestos, os traços de caráter pessoal, os sentimentos e laços afetivos. Sobre esse procedimento, observe-se, a seguir, as notícias da imprensa local:
Prefeito atende população terça à noite
O prefeito Antonio Belinati recebe a população nesta terça-feira a partir das 20 horas, em seu gabinete. ‘Vamos dar continuidade ao atendimento que fizemos no começo do ano, ouvindo pessoalmente as reivindicações da população em um horário compatível para o trabalhador’, resume Belinati. Todo o secretariado está sendo chamado para participar deste atendimento noturno à população. (Folha de londrina. 1997, s/data, grifo nosso).
Belinati: pão e pedidos na madrugada.
O prefeito de Londrina, Antonio Belinati, traz de volta o atendimento direto à população em seu gabinete. Logo nas primeiras horas do dia. [...] Cerca de 300 pessoas foram ao gabinete na manhã de quinta-feira. Entre elas, pelo menos metade eram moradores de favelas que se reuniram com o presidente da Cohab. As outras 150 foram atendidas uma a uma pessoalmente pelo prefeito. (Folha de Londrina, 12 jan. 1997. Caderno Reportagem, p.1, grifo nosso). Cerca de 100 pessoas que ocupam loteamentos irregulares nos conjuntos Aquiles, Luiz de Sá e Maria Cecília usaram ônibus da Prefeitura para ir até o gabinete [para estar presentes na sessão de atendimento promovida pelo prefeito]. (Folha de Londrina, 10 jan. 1997. Caderno Reportagem, p.3).
Moradores pulam cedo da cama para levar pedidos a Belinati.
Trazendo de volta à Prefeitura o estilo ‘administrar com as portas abertas para a população’, o prefeito Antonio Belinati começou a trabalhar ontem às 5h30 da manhã: até as 9 horas, cerca de 300 pessoas haviam passado por seu gabinete. (Folha de Londrina, 10 jan. 2000, p.3).
A política de clientela aqui enfocada é garantida e reforçada pelo personalismo, exercitado por meio do contato direto entre o político e o eleitor- cliente. Antonio Belinati, por exemplo, demonstra consciência da força do contato direto com o eleitor, por isso sua iniciativa de “abrir as portas ao povo”. Segundo este político, as pessoas querem falar diretamente com ele, sem intermediação.
[...] Desde meu primeiro mandato, recebo as pessoas no meu gabinete. Nesta campanha eleitoral ouvi gente dizer que a única vez que entrou no gabinete do prefeito foi no meu mandato. (Folha de Londrina, 12 jan. 1997. Caderno Reportagem, p.1).
As práticas desenvolvidas pelo político em questão -- para garantir a relação pessoal com o morador-eleitor -- não se resumem às “sessões de atendimento” no gabinete da prefeitura. A variedade dos procedimentos utilizados nesse investimento no contato pessoal com o eleitor é atestada pelas notícias à frente. Ela inclui: a recepção de eleitores em suas duas principais residências (chácara e apartamento), visitas aos bairros e às casas dos eleitores, reuniões com moradores-eleitores nas residências dos mesmos, contatos telefônicos freqüentes, oferta de presentes em datas de aniversários, contato indireto por meio do programa de rádio, entre outros.
“Eu tenho problema do coração. O Belinati é uma pessoa que sempre telefona para mim, preocupado com minha saúde.” (E3). “Mantenho contato por telefone com ele [Belinati]. Já participei, várias vezes, do programa de rádio dele, telefonando e conversando, no ar, com ele. No meu aniversário, ele sempre lembra e fala na rádio, recebo os parabéns.” (E4).
“Às vezes eu ligo na rádio e falo com ele.” (E8).
“O seu Antonio, ele já teve contato assim de vim aqui na minha casa, eu já tive contato de ir, também na casa dele.” (E11).
“Ele vem na minha casa. Inclusive até, eu saí do hospital, fiquei internada, saí, com dois dias que eu tava na minha casa ele veio me ver na minha casa. (...) Ele já tinha saído [da prefeitura], já tinham tirado [cassado] ele.” (E11).
“[O Belinati] mantém contato com a gente mesmo sem ser em época de eleição. Se fosse interesseiro não teria contato agora [em 2005], né?”119(E2).
Um dos relatos colhidos dá detalhes dos procedimentos de aproximação desenvolvidos pelo político em foco: E5 havia se destacado como liderança numa mobilização por melhorias numa via de acesso ao bairro em que morava. A reclamação se dirigia ao DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem). Belinati, informado sobre o papel de liderança desta moradora, procura- a inicialmente para mediar uma solução para o problema. Daí para frente passa a manter inúmeros contatos telefônicos com a entrevistada, dando início a uma aproximação mais contínua. Passados poucos meses já se dava ao “luxo” de visitá- la no leito de um hospital após o parto e de “segurar no colo os gêmeos”, seus filhos recém-nascidos. (conforme depoimento de E5).
O depoimento que segue, do presidente da Federação das Associações de Moradores de Londrina, coletado em 2000, já dava conta das visitas que o referido político fazia aos bairros e da prática da abordagem direta com o morador-eleitor, por meio do contato pessoal e físico:
Ele [Belinati] é um político jeitoso, que vai na favela, pega no colo a criança suja, passa a mão na cabeça de um, abraça o outro, e conquista as pessoas [...]. (Folha de Londrina, 21 maio 2000. p.10).
“No meu aniversário ele me dá presente (...) Manda bolo pra mim. Manda presente.” (E6).
De acordo com a interpretação das falas dos entrevistados, contra o anonimato da representação formal e impessoal e a lentidão burocrática, Belinati ofereceria o atendimento direto e a negociação imediata entre o eleitor e o político- executor, sem descuidar da atenção e do reconhecimento que o contato pessoal envolve. Reiterando, diferentemente da “frieza”, da impessoalidade e do distanciamento, definidores do comportamento de outros políticos, Belinati propõe o
atendimento direto e pessoal ao eleitor, busca a aproximação e a efetivação de vínculos pessoais com o eleitor.
“Ele [Belinati] nem gosta que secretário dele atenda as pessoas. (...) Se ele não puder atender naquela hora em que ele tá com alguma viagem marcada, alguma coisa a serviço, mas ele marca, ele dá atenção pras pessoas. Ele mesmo marca pra atender a pessoas. É tudo ele”. (E3).
“O Seu Antônio [Belinati], ele sempre foi uma pessoa assim, ele ... Se você levava pra ele, por exemplo, um problema da vila, ele nunca falava assim: ‘Ah! No mês que vem. Volta tal dia. Volta o mês que vem,’ Quando tava em condições, ele, já na hora ele falava: ‘Vai lá fulano, leva sicrano, e vai lá e resolve tal coisa.’ Por exemplo, você chegava lá com um problema, ele já falava: ‘Vai lá José e resolve o problema do Edson, vai lá Maria e resolve o problema da fulana.’ Não tem esse negócio de voltar daqui a dois meses, três meses, e você cansa e desiste. (...) Ele só não resolvia quando não tinha condições mesmo de resolver”. (E8).
“O Belinati, o jeito dele governar é totalmente diferente. A porta do gabinete é aberta pro povo. E, os outros [políticos] não. Hoje [2005], você vai à prefeitura, parece uma prisão”. (Referindo-se ao conjunto das reformas que a atual gestão --2004/2007 -- havia promovido no pátio interno da prefeitura, com destaque para as “barreiras” formadas pelos balcões de informação situados no hall de entrada.) (E14).
“Esse atual prefeito [refere-se a Nedson], eu não sei [das qualidades de sua gestão], porque eu não conheço, nunca vi (...). Já fui várias vezes lá pra falar com ele e não consegui falar. (...) E, se fosse no tempo dele [do Belinati] eu ia lá dentro da prefeitura, falava com ele sozinho: ‘Seu Antônio, dá pro senhor me ajudar, por favor?’ Ele não comentava com ninguém, ele ia e resolvia”. (E1).
“Com o Belinati a gente chegava, não era só .. Quantas e quantas pessoas chegavam. Tanto que ele tinha um horário do dia, me lembro, que falava que era o café da manhã com outras pessoas que chegavam, então ele conversava com as pessoas, mesmo que ele não solucionava os problemas das pessoas, mas, pelo menos, ele tava ali pra conversar com as pessoas, e falar: ’Não, não dá pra fazer isso.’ Mas, pelo menos ele atendia as pessoas. Agora, infelizmente, o Nedson [atual prefeito], como prefeito, essa é minha revolta: eu nunca vi o Nedson. Acho que ele veio uma vez aqui no bairro depois que ele ganhou. O negócio dele é lá no centro, o negócio dele é os rico lá no centro”. (E16, grifo nosso).
“Nunca tive dificuldade pra ser atendida na prefeitura. Sempre que eu chegava (...) Mas, eu tenho uma decepção muito grande com esse mandato de hoje, por isso, porque na época do Seu Antonio [Belinati] prefeito, eu entrava, chegava e entrava na sala dele. Anunciava que queria falar com ele, ele vinha e atendia. E, quando eu menos esperei, achando que esse partido [PT] fosse a mesma coisa ... e, a pessoa [o prefeito] me tratou mal, ‘deu de dedo’ na minha cara e pra mim foi a pior decepção do mundo, quando o Nedson fez isso comigo, porque eu achei que ia chegar, expor o caso pra ele e ele ia me ouvir, mas, não. Ele simplesmente se escondeu dentro de uma sala, mentiro que ele não tava ali. E, eu andando por dentro da prefeitura como eu fazia sempre na época do Seu Antonio, eu encontrei com ele na sala do Paulo Bernardo [ex- secretário de Nedson], quando ele (...) veio falar comigo, ele ‘deu de dedo’ na minha cara e eu fiquei bastante revoltada. (...) E, eu, simplesmente, falei pra ele: ‘Olha Nedson, eu, infelizmente, eu não confio mais em você, porque o que você fez não é justo.‘ Então, pra mim foi a pior coisa ... [Isso aconteceu] no comecinho do primeiro mandato [do Nedson] quando ele começou a mandar a frente de trabalho embora. Aconteceu tudo isso porque eu tentei sentar com ele e negociar a frente de trabalho. (...) E, sem contar, que antes do Nedson tomar posse, antes de ele ser candidato, quando ele fazia as campanha dele, nossa! A gente era tão amigo. Eu jamais esperava que fosse acontecer isso”. (E15).
“Eu nunca notei diferença no seu Antonio [Belinati] de quando ele tava na prefeitura, que era prefeito, e hoje que ele não é prefeito. Pra mim ele é uma pessoa que sempre me tratou da mesma forma. Não vejo diferença. Não sei se é só comigo ou ... Eu acredito que seja com as outras pessoas também. A mesma pessoa que ele sempre conversou com a gente, quando ele era prefeito lá no gabinete dele, ele é a mesma pessoa hoje”. (E13).