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Drammen distrikt

In document JERNBANEKALEN DEREN (sider 64-108)

Trazendo a discussão para o século XX, em que se recebeu a maior carga de produções, efeitos e atributos tecnológicos, percebe-se que o afã pelas novas possibilidades, muitas vezes, torna a visão do homem refém do objetivo e o desvia de outros contextos importantes. Assim, entre olhares oblíquos e diretos, vão se formando as discussões contemporâneas a respeito do que hoje chamamos de meio ambiente.

Ainda na década de 1960, levantam-se, em alguns países, movimentos contrários às hegemônicas ideias dominantes. Iniciam-se críticas bastante densas quanto à condição deletéria das relações capitalistas sobre o meio ambiente. Regras tradicionais tentam trazer algo novo e, dessa forma, nascem algumas manifestações de rebeldia com perspectivas em relação à natureza, de tal modo que o indivíduo atualmente possa observar que o capitalismo impõe, através do crescimento econômico desmesurado e do progresso tecnológico, a destruição da humanidade. A partir desse momento nascem correntes contrárias à hegemonia social, como é o caso do ecofeminismo, das expressões étnico-raciais e culturais, bem como a

14 Usamos o termo potência no sentido dado por Max Weber (1991, p.33) para mostrar as forças que regem o

‘fragilidade’ da natureza perante o egoísmo humano passa a ser discutida. Nesse contexto, Mirian Carballo e María Helena Aguirre (2010, p. 17) observam que:

Esta nueva modalidad en crítica literária es un brote del movimento ecológyco y ambientalista de la década de 1960. Los intelectuales dedicados a las humanidades han tomado consciência de los multiplex desafios ecologycos de estos tempos, y se han preguntado qué pueden hacer ellos desde la vida académica por la crisis ambientalista.

Assim, estudiosos ligados à literatura buscam no texto literário o modo como a natureza está representada e qual conceito fica expresso através da relação homem/natureza. Nesse contexto, os olhos do pesquisador mostram a perspectiva ecocrítica ao investigar a obra literária, pois qualquer obra, de qualquer época, pode ser vista sob esta ótica. No entanto, é possível perceber, atualmente, escritores já adeptos desta perspectiva, ou seja, obras apresentam um contexto crítico em relação às questões ambientais, podendo, esses escritores, serem considerados ecocríticos.

Um dos textos considerados precursores dessa perspectiva é Silent Spring _ Primavera

silenciosa (1962), de Rachel Carson, especialmente a fábula que inicia o livro “Uma fábula

para amanhã”, que conta a história de uma cidade no coração da América, onde tudo parecia comungar com a ideia de paraíso, pois as formas de vida estavam em harmonia. Porém, uma praga começa a destruir pouco a pouco cada uma das espécies e todas as formas de natureza começam a perecer até a destruição total do lugar.

Era uma vez uma cidade, no coração dos Estados Unidos, onde todos os seres vivos pareciam estar em harmonia com seu ambiente. A cidade fica em meio a uma espécie de tabuleiro, composto de fazendas prósperas, com campos de trigo e encostas de pomares, nos quais, na primavera nuvens brancas de flores oscilavam por cima das campinas verdejantes. No outono os carvalhos, os bordos e os vidoeiros punham um fulgor de colorido que flamejava e tremulava de través, sobre um fundo de pinheirais. Depois, as raposas uivavam nas colinas e as renas cruzavam silenciosamente os campos, meio ocultas pelas brumas das manhãs de outono. [...] Então, uma estranha praga se infiltrou naquela região e tudo começou a mudar. Algum tipo de feitiço maléfico se instalou naquela comunidade; enfermidades misteriosas varreram um bando de galinhas, as vacas e os carneiros adoeciam e morriam; os lavradores passaram a falar de muita doença em pessoas de sua família. Por toda parte se via uma sombra de morte. [...] Havia, ali, um estranho silêncio. Os pássaros por exemplo, para onde tinham ido? [...] Esta cidade não existe concretamente, mas ela poderá encontrar facilmente, milhares de suas semelhantes, nos Estados Unidos e por outras partes do mundo. [...] Um espectro sombrio se espalhou por cima de nós, quase sem ser notado; [...] Que foi que já silenciou as vozes da primavera em inúmeras cidades dos Estados Unidos? Este livro constitui uma tentativa de explicação. (CARSON, 2010, p. 20-21)

O texto de Carson pode ser visto na temática das discussões ecológicas e invoca também a perspectiva de topocídio15. Trata-se, já, de um texto ecocrítico, uma vez que a autora coloca ficcionalmente a destruição da natureza e da Terra e faz essa alusão de modo claro e objetivo. Ao final da narrativa a autora chama atenção para o que estamos fazendo com o planeta. A crítica de Carson, na época, visava alcançar o uso do DDT, um pesticida de grande poder letal, que estava sendo aplicado de forma errada e em quantidade exacerbada, colocando em risco a vida de várias espécies, inclusive a humana.

No Brasil não é diferente, há bastante tempo autores já se envolviam com as causas ecológicas. A década de trinta, por exemplo, abre espaço para uma literatura naturalista, de aspectos sociais e ambientais, uma vez que, na maioria das obras se encontra a condição de camponeses e a proximidade entre homem e natureza, bem como a exploração do homem pelo outro, perspectivas que podem ser vistas em obras como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, na qual se vê que a cadela de Fabiano é um ente querido, que faz parte da família e, junto com os outros membros, partilha de todos os momentos, assim como também ajuda na hora da necessidade, ao caçar o alimento para a família, como faziam as matriarcas da antiguidade. Essa irmandade também se evidencia na cumplicidade da cadela com os meninos de Fabiano como se fosse irmã deles. Assim, a natureza viva se apresenta como se fosse uma “peça” que, assim como o humano, tem sua função na máquina do mundo sem ser um melhor ou pior que o outro.

Essas perspectivas são vistas também em algumas obras de José Lins do Rego, como

Riacho doce, Fogo morto, entre outras. Assinalamos também a obra de Monteiro Lobato em

que já se pode ver a convivência irmanada entre homem e animal. Vemos na obra lobatiana que o animal, assim como outros elementos da natureza, são vistos em suas especificidades e com respeito, fato que coloca a criança a aprender também esse respeito. Por outro lado, Lobato desconstrói a ojeriza pelos insetos, dando a eles uma relevância enquanto personagem.

Textos como a crônica Ai de ti Copacabana (1958), de Rubem Braga, já apresenta uma crítica que leva aos problemas ambientais. É como se o autor já prenunciasse o caos citadino e a tomada do espaço de Copacabana pelo capitalismo:

15

Topocídio, termo que, segundo Amorim Filho (1996), foi criado por Porteus em 1988 e condiz a destruição do espaço pelas mãos do homem.

Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão. 6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum. (BRAGA, 1960, p.1)

Atualmente, tanto os textos artísticos quanto os críticos mostram uma visão mais aguçada sobre a natureza, no sentido de preservar, não só para protegê-la pela sua fragilidade, mas porque somos parte dela e porque temos que aprender a considerar e respeitar os seres não-humanos, como devemos respeitar ao humano. O problema é que, se o ser humano não tem o devido respeito um pelo outro, o que se pode esperar de suas ações sobre o não-humano e desse humano-desumanizado?

Perspectivas corroboradas por Marina Colasanti em A casa das palavras e outras

crônicas (2002). Ela surpreende o leitor evidenciando situações em que o homem, para

satisfação do próprio ego, destrói o espaço ambiente. A autora mostra a relação entre a natureza humana e a natureza externa, evidenciando que a primeira é prazerosamente satisfeita pela destruição da segunda:

[...]Eis que dois carros pararam do outro lado do rio, do outro lado da rua , carros cheios, famílias em passeio matinal. Duas pessoas saltaram do carro, um senhor saltou do outro. Abriram os braços quase a abraçar o ar fino. Ergueram de leve a cabeça, procuraram o sol e o céu. Pensei comovida diante daquela cena singela de reencontro com a natureza. Mas os três logo se recompuseram . agacharam-se à beira dos canteiros, os famosos canteiros de hortênsias e[...] puxando e cavando e arrancando puseram-se a desenraizar moitas inteiras.[...]

[...] Um casal de adolescentes passa por mim saindo do mar. Traz uma coisa nas mãos [...] e tem um olhar triunfante. __Deixem a pobre __ peço, reconhecendo a iridescência de uma água-viva. [...] Falam de um inimigo feroz. E retornam o caminho, carregando a pequena gelatina disforme. __ O que vocês vão fazer com ela?

__ Vamos tocar fogo! [...]

[...] Eis que, parado em pleno sol, atado ainda à carroça, vi um cavalo.[...] O dono ali sentado à sombra . Moço __eu disse, depois de ir até lá e examinar com ar distraído o cavalo. __Não dá pra botar ele na sombra?

__Precisa não [...] __Precisa sim. O pobrezinho está derretendo. O cavalo, orelhas pendentes, olhar baço, solão em cima. Eu, insistente.

__Moço, é só puxar um pouquinho. __ Tá bom aí. __ E convicto, porque ele lida com esse cavalo há tanto tempo e sempre soube muito bem como se lida com cavalos e o que é bom para eles: __ Ele não se incomoda.

__ Uma pausa. Depois, a certeza final __ Está acostumado. (COLASANTI, 2002, p. 11)

Nesse sentido, a ecocrítica está no fato de, ao se investigar uma obra literária, observar como se apresenta a relação entre humano e não-humano, isto é, do homem com os outros seres da terra e com os recursos naturais que, “em princípio”, seriam a garantia de suas vidas. Percebemos que a literatura vem trazendo cada vez mais fortemente esses aspectos, participando, assim, do contexto de uma nova visão de mundo, em que há a necessidade de preservação e cuidado com a natureza externa, por ela mesma, e pela preservação da espécie humana. A relação homem/natureza pelo olhar ecocrítico é percebida através do contexto natural em que o ser humano está inserido, dando um foco literoambiental, ou seja, observando as relações do homem com as dimensões da natureza: homem, animal, vegetal e mineral nas perspectivas política, social, cultural, fenomenológica, intelectual, que se revelam coletiva e individualmente.

Sendo assim, vemos que a obra de Guimarães Rosa, na época em que foi editada (1956) pode ser considerada também pioneira no sentido de trazer a relação homem/natureza e de mostrar a molestação ao meio ambiente, bem como a exploração dos recursos naturais, em tempos que o Brasil saia da condição de rural para urbano industrial e a exploração do sertão estava só começando. Por outro lado, Rosa coloca em GSV uma natureza viva, participante e independente, como quem quer mostrar que toda ação contra a natureza é criminosa como veremos adiante.

A ecocrítica, na verdade, faz parte de uma longa tradição literária. Muitos filósofos, poetas e escritores já trataram da natureza sem que houvesse para isso uma denominação. Cada observador, a sua maneira, tenta colocar em suas falas a percepção da natureza e a significação dela no mundo. A ecocrítica busca uma junção desses conhecimentos em prol da natureza e, para isso, busca um meio em que todos esses conhecimentos estejam presentes: o texto literário, que permite a incidência de várias visões numa concepção ecológica do mundo.

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