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Não podemos imaginar um quadro social dividido em classes para a Antiguidade, como o temos hoje, sobretudo para a Palestina no tempo de Jesus. Até mesmo em nossos dias já não se adéqua mais a classificação social simplificada, em termos de classe alta, média e

baixa. Temos subdivisões que ampliam sobremaneira a estratificação social. No entanto, um

dado é imutável e torna-se perceptível em todos os contextos históricos: a divisão da sociedade em referência ao fator econômico se dá em decorrência das diferenças que se instalam entre os que têm e os que não têm: bens, educação, prestígio, poder.

Segundo Crossan 115, o Império Romano era uma sociedade agrária caracterizada

pela forja e o arado de ferro, arreamento de tração animal e uso de roda e vela para transportar os produtos. No entanto, ao lado dessas características, e isso sim nos importa, está o fato de que havia um grande abismo entre as classes altas e baixas. Baseando-se no modelo de Gerhard Lenski, Crossan apresenta as classes das quais se compõem as sociedades agrárias: o governante e os dirigentes, sacerdotes, arrendatários, mercadores, camponeses, artesãos e os degradados e dispensáveis.

Os governantes, cerca de 1% da população, possuíam pelo menos a metade das terras; os sacerdotes se colocavam ao lado destes, podendo possuir até 15% da terra; os

arrendatários iam desde generais a burocratas especializados; os mercadores podiam chegar a

ter alguma riqueza e até algum poder político; os camponeses constituíam a grande maioria da população e eram os principais responsáveis pelo sustento e manutenção das classes altas; os

artesãos vêm em seguida, formando 5% da população. Abaixo deles somente as classes dos degradados (rejeitados por sua origem, ocupação ou condição) e dispensáveis (mendigos,

foras da lei, ladrões, trabalhadores diaristas e escravos).

Em vista dos pesados tributos impostos aos pequenos camponeses, muitos se endividavam sendo obrigados a se voltarem para atividades alternativas como, por exemplo, o artesanato, para equilibrarem seu orçamento. A arqueologia nos permite dizer que os produtos artesanais eram produzidos não pelos grandes centros como Séforis e Tiberíades, mas por

115

pequenas cidades e aldeias. Isso nos importa à medida que leva a concluir que “Jesus era provavelmente um artesão camponês, não um pequeno proprietário camponês” 116.

O processo de urbanização com a construção desses dois grandes centros, Séforis e Tiberíades, poderia ser visto como lucrativo para essa nova atividade comercial que se desenvolvia na Galiléia e em suas aldeias, ou seja, o artesanato, pois tanto a manufatura como sua comercialização era feitas diretamente por seus produtores. No entanto, Crossan faz uma observação interessante: “Eles não são atraídos a essa mudança pela oportunidade empresarial, mas sim, são forçados a ela pela necessidade agrícola” 117. Além desse tipo de

mudança na atividade econômica dos povoados, outro fenômeno pode ser observado pelos pesquisadores; os que não se envolviam com o artesanato, ou eram levados à mendicância, ou ao banditismo:

O avanço dos romanos empurrava uma quantidade cada vez maior de camponeses para fora de suas terras, forçando-os a ingressar em bandos de salteadores, e à medida que o cerco se fechava, a entrar na própria cidade de Jerusalém. É assim que surgiu aquilo que R. Horsley chama de “camponeses transformados em salteadores e depois transformados em zelotas”. A principal origem desse grupo está no campesinato da Judéia 118.

Ainda economicamente falando, não podemos dizer que no Antigo Israel, de um modo geral, todos os que possuíssem alguma atividade ao nível comercial ou de prestação de serviços, pudessem se considerar em situação favorável em comparação às demais classes. Como estamos diante de um contexto em que os elementos econômicos, políticos e sociais estão fortemente vinculados aos religiosos, podia-se falar, isso sim, de profissões “impuras”. Jeremias119 elenca um grande número delas: tropeiro, cameleiro, marujo, carreteiro, pastor,

lojista, médico, açougueiro, coletor de excrementos de cães, fundidor de cobre, curtidor de peles, ourives, assedador de linho, cortador de pedras, mascate, tecelão, barbeiro, lavandeiro, sangrador, encarregados dos banhos, curtidor, jogador de dados, agiota, coletor de impostos.

O que podemos dizer, então, de Jesus? Que tipo de profissão lhe foi atribuída? Para responder a essa pergunta, os estudiosos lançam mão de uma frase clássica trazida pelos Sinóticos. Em Marcos temos: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria [...]”? (Mc 6,3); Em

116

CROSSAN, J. D. O nascimento do cristianismo..., p.265.

117

Ib. p.268.

118 Id. O Jesus histórico..., p. 231. 119

Mateus: “Não é ele o filho do carpinteiro [...]”? (Mt 13,55); E em Lucas: “Não é este o filho de José”? (Lc 4,22). Na verdade não temos diferenças significativas nas perguntas que os evangelistas trouxeram, visto que em tal sociedade o ofício do pai era passado ao filho. Podemos dizer, portanto, que Jesus era incluído por seus ouvintes, ao grupo dos artesãos.

Ao lermos estes textos notamos certa admiração por parte dos ouvintes que não conseguiam imaginar um simples artesão realizando tantos prodígios e discursando com tanta sabedoria. No entanto, tal espanto não tem origem no tipo de profissão de Jesus em si. A profissão de artesão era tida em consideração pela sociedade. A questão é que os que desempenhavam tal função, como outras tantas manuais, não recebiam, como os escribas, uma formação adequada tornando-se, portanto, desqualificados para a interpretação da Tora. Echegaray vê neste episódio, uma ambivalência que a sociedade projeta sobre os da sua classe:

Aprecia-se a habilidade profissional, mas mostra-se desprezo pela ignorância que, automaticamente se atribui aos da sua condição. Um artesão que não tivesse recebido nenhuma formação estaria desqualificado para interpretar a Tora, e é exatamente isso que Jesus faz, abalando os moldes convencionais que negam a um homem do povo capacidade para explicar as Escrituras 120.

Méier prefere classificar Jesus como “marceneiro”, que trabalhava com objetos duros (provavelmente madeira e pedra), e não “carpinteiro” no sentido como entendemos hoje. A seu ver, Jesus certamente pertencia à classe pobre, ou seja, que precisava trabalhar muito para prover seu sustento:

Jesus, marceneiro em Nazaré, ocuparia algum lugar no nível inferior do grupo médio; Num sentido, ele era realmente pobre; Mas Jesus provavelmente não era mais pobre que o restante dos habitantes de Nazaré, ou da maior parte da Galiléia. Sua pobreza não era a pobreza opressiva e degradante do trabalhador diarista ou do escravo rural 121.

Rotular tais profissões como “impuras”, desprezíveis ou indignas, vai além da questão religiosa com suas proibições rituais. Geram verdadeira exclusão social, visto que os que dela se serviam para sobreviver, eram impedidos, legalmente, de ocupar qualquer cargo público, podendo, como nos informa Echegaray, chegar até à perda dos direitos cívicos. Essas

120 ECHEGARAY, H. A prática de Jesus, p. 113. 121 MEIER, J. P. Um judeu marginal..., p.281.

profissões não eram, no entanto, colocadas todas no mesmo plano. Existiam graus de impurezas:

Eram consideradas mais impuras as que se caracterizavam por agirem diretamente contra a Lei ou sob suspeita de imoralidade: os mercadores de produtos do ano sabático se enquadram no primeiro caso, os que trabalham num estabelecimento de banhos; os que comerciam no ultramar; os próprios marinheiros. Os cobradores de impostos caíam na sanção de impureza grave. Deste modo, ao critério de classe social inferior, a sociedade judaica superpunha critérios de pureza legal e outros de ordem sobretudo moral que justificavam ideologicamente, enrijecendo-a, a hierarquização da sociedade 122.

Não podemos deixar de colocar, em complemento a tal quadro social, a posição que ocupavam as mulheres, as crianças e os escravos. Sem a pretensão de esgotar o assunto social e antropologicamente, e sabendo que pode haver diferenças de costumes e mentalidades conforme o tipo de sociedade será apresentado apenas alguns elementos norteadores que nos levarão à compreensão de algumas ações e palavras de Jesus em relação a esses elementos. Morin123 traz uma oração que, segundo ele, era recomendada aos homens daquela época, que

nos dá uma ideia do que significava ser mulher na Antiguidade palestinense: “Louvado seja Deus que não me criou mulher”. Porque, naquele contexto histórico, era tão desfavorável nascer mulher? O autor coloca alguns elementos: não participavam da vida pública, na cidade só apareciam cobertas com um véu, um homem não poderia olhar ou cumprimentar uma mulher casada. Observa, porém, que nos meios rurais essas normas quase sempre eram desrespeitadas.

A parte isso, se viam desobrigadas de algumas funções em que os homens eram devedores, ou seja, das peregrinações ou do ensino da Lei, mesmo porque as escolas só eram acessíveis aos homens. Até podiam participar do culto nas sinagogas, porém sempre separadas dos homens e sem que pudessem se pronunciar. O autor, ainda coloca que no casamento era posse do marido, mas não sua escrava. Também não podia ser sua herdeira. Tinha, por fim, direito a uma sepultura honrada.

A situação da mulher na sociedade palestinense, pode ser comparada à de um escravo. Na época comprava-se a mulher por dinheiro, contrato e relações sexuais; comprava- se também um escravo pagão por dinheiro, contrato e tomada de posse. Outro elemento em

122 ECHEGARAY, H. A prática de Jesus, p. 115. 123

comum é que, como o escravo, a mulher depende de seu senhor/marido, e tem que assumir todas as tarefas; não pode aproveitar-se nem de seus rendimentos, se os tiver, ou do que achar. Que diferença há então? Jeremias traz ao menos dois elementos que os distingue:

Juridicamente, a jovem esposa se distinguia de uma escrava: por poder conservar o direito de possuir (mas não de dispor) de bens que trouxera consigo; pela garantia que lhe dava o contrato de casamento: fixava-se a quantia que se devia pagar à mulher, em caso de separação ou morte do marido. Qual a diferença entre uma esposa e uma concubina? A esposa dispõe de um contrato, e a concubina não 124.

Temos relatos nos Evangelhos canônicos de diversas mulheres curadas e perdoadas por Jesus, como uma forma de inclusão social devido ao lugar desprivilegiado que ocupavam. Assim, vemos Jesus perdoando a mulher adúltera (cf. Jo 8,1-11), curando a hemorroíssa (cf. Lc 8,43-48), elogiando a oferta daquela pobre viúva (cf. Lc 21,1-4; Mc 12,41-44), dialogando e oferecendo seu dom maior a uma samaritana (cf. Jo 4,10), lançando um grande elogio à fé e ao amor de uma pecadora contra o preconceito dos fariseus, perdoando-lhe os pecados (cf. Lc 7,36-47), estabelecendo relação de grande amizade com as irmãs Maria e Marta (cf. Lc 10,38- 42). Para uma cultura onde a mulher deveria passar literalmente despercebida, Jesus podia ser interpretado como traidor ou zombador das leis e costumes de seu povo.

Por um lado, a tradição de Jesus é dominada por uma linguagem androcêntrica e por um patriarcalismo inabalável; por outro, pode-se reconhecer, tanto na tradição dos ditos como na tradição narrativa, uma surpreendente e múltipla participação de mulheres e relações com o mundo feminino 125.

Temos que considerar, no entanto, que tais costumes não podiam ser observados igualmente pelas mulheres dos meios mais populares como eram pelas de classes mais abastadas e que, por isso, poderiam ter o privilégio de manterem-se “retiradas” das ruas e dos meios públicos para dedicar-se apenas aos serviços domésticos. Muitas vezes as mulheres eram obrigadas pela situação econômica, a ajudarem seus maridos em suas profissões. Sem dúvida, nos meios rurais, estabeleciam-se níveis de relações menos rígidos para as mulheres: “a jovem vai à fonte, a mulher dedica-se, juntamente com o marido e filhos ao trabalho agrícola, vende azeitonas à porta, serve à mesa” 126. Uma mulher não deveria, no entanto, ficar

sozinha no campo e nem conversar com estranhos.

124 JEREMIAS, J. Jerusalém..., p.484.

125 THEISSEN, G.; MERZ, A. O Jesus histórico. Op. cit. p.243. 126

Observamos nos relatos evangélicos algo interessante: diversas mulheres faziam parte do grupo que acompanhava Jesus. Para explicar esse “fenômeno” dentro de uma sociedade extremamente patriarcalista, Crossan serve-se de uma antropologia de gênero, ou seja, uma análise das relações entre o homem e a mulher em sociedades pré-industriais mais simples e mais complexas, e a seguir em sociedades rurais.

No que diz respeito às sociedades pré-industriais simples e complexas, ele conclui que a mulher de um modo geral, parece gozar de maior sorte em sociedades mais simples, do que nas mais complexas. Em se tratando das sociedades camponesas, segundo Crossan, há uma espécie de equilíbrio ao se falar de poder e autoridade, e conclui: “As mulheres camponesas têm poder real como controle. Os homens camponeses têm poder „mítico‟ como

status” 127. Quanto aos escravos, tínhamos os de origem judaica e os pagãos. De acordo com

Jeremias 128, um judeu podia tornar-se escravo de três maneiras:

1. Quando o ladrão não estava em condições de ressarcir o que roubara: Nesse caso só podiam ser vendidos os homens adultos e somente a judeus. Posteriormente Herodes decide que ladrões deveriam ser vendidos também aos estrangeiros;

2. Em caso de extrema pobreza, podiam vender-se voluntariamente (cf. Lv 25,39- 43). Também apenas os israelitas adultos podiam fazê-lo;

3. Filhas judias de até doze anos, podiam ser vendidas (cf. Ex 21,7) por seus pais a um judeu. No entanto, tal venda significava, na maioria das vezes, que a jovem estava destinada a ser mais tarde a esposa de quem a comprou, ou do filho deste.

Em se tratando de escravos pagãos, não eram considerados parte da sociedade judaica, apesar de participarem dela. Temos relatos da presença de grande número de escravos pagãos domésticos em casas dos notáveis de Jerusalém. O preço dos escravos variava de acordo com a idade, o sexo, as habilidades ou defeitos físicos e “espirituais”. A conversão ao judaísmo era imposta aos escravos pagãos, seja ele homem (circuncisão) ou mulher (banhos

127

CROSSAN, J. D. O nascimento do cristianismo..., p.207.

128

rituais). No entanto, como nos informa Jeremias 129, apesar de se tornarem “filhos da Aliança”

através da circuncisão, isso não os inseria na comunidade de Israel, até que fossem libertos. No Evangelho de Lucas, vemos Jesus curando um servo do centurião (cf. Lc 7,1-10). Jesus entra na realidade de uma sociedade onde pequenos, pobres, escravos, doentes ou crianças, não tinham lugar ou significado algum. Faz-se presente na história de um povo chamado a ser “Luz para as Nações”, para ser ele mesmo, a “Luz” que trás às claras e

denuncia toda situação de descaso e opressão, ao mesmo tempo em que anuncia a “Lei”

suprema: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). Situação incoerente, portanto, com a eleição de todo um povo. Aquele milagre foi além da cura física; devolveu a dignidade a quem, até então, se sentia indigno: ouviu a súplica de um pagão e curou um escravo.

As crianças também não têm voz e nem vez na sociedade de Israel. Precisamente por isso, as vemos nos discursos de Jesus, ao comparar-lhes com os que entrariam no Reino (cf. Mt 11,16-17; Lc 7,31-32) e ao desejar proximidade com elas (cf. Mc 10,14; Mt 19,14). Levando-se em conta que a criança não gozava de posição favorável em sua sociedade, não é de se admirar que Jesus afirme que o Reino pertença, inicialmente, àqueles que ocupam uma posição social desfavorável, confirmando, assim, a opção preferencial de Deus pelos injustiçados da sociedade, ou melhor, das sociedades.