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O primeiro encontro do GDPF, ocorrido em 25 de maio de 2002, foi cercado de muita ansiedade. Participaram os professores: ANTÔNIO CARLOS, MARINA, TIÃO,

LEANDRO, GRACINHA, SÔNIA, FLÁVIA MARIA, SERGINHO e LUIZ CARLOS, e os pesquisadores PAULO MENEZES e ARNALDO VAZ. No início da reunião, nos apresentamos e solicitamos que cada professor fizesse o mesmo. Logo após, falamos dos objetivos da pesquisa e do propósito do grupo que estava sendo criado. Depois disso, passamos para a apresentação da atividade que havíamos previsto para aquele encontro. Tratava-se de uma dinâmica, elaborada pelo pesquisador Arnaldo Vaz – orientador desta tese – que põe em cheque a existência dos movimentos de rotação e de translação da Terra. A discussão sobre a atividade nos fez perceber que o conteúdo de gravitação – que estava relacionado com a atividade apresentada – não era muito abordado pelos professores nas aulas de Física do Ensino Médio. Mesmo assim, a dinâmica provocou reflexões interessantes por parte dos professores participantes, resgatando situações relacionadas à formação e à prática educativa de cada um.

LUIZ CARLOS: “Quando há aula prática, nós percebemos claramente nossa dificuldade pessoal em primeiro lugar. Quem nunca trabalhou com aula prática tem muita dificuldade e um artifício que nós temos é o artifício da fuga”. (GDPF, 25/05/2002)

ANTÔNIO CARLOS: “Será que nós temos medo de não conseguirmos explicar o que devemos no que se refere à prática? E, se o nosso aluno for fazer uma prova de vestibular, de um concurso e ele não der conta? É uma questão interessante que a gente deve discutir. Se possível, pra tentar mudar”... (GDPF, 25/05/2002)

O segundo encontro foi realizado no dia 15 de junho de 2002 e seguiu a mesma dinâmica do primeiro. Dos professores que estiveram presentes na primeira reunião, apenas o professor LUIZ CARLOS não compareceu e outros quatro professores ingressaram no grupo (AFONSO, CARLOS, DENISE e JEDERSON). A atividade escolhida para essa reunião foi retirada de um artigo intitulado: Um experimento contraintuitivo14 – que trata de atividades com resultados que contradizem o senso comum dos estudantes. O marco principal desse encontro foi o fato de os professores começarem a demonstrar interesse em trazer atividades e experimentos desenvolvidos por eles para apresentar para o grupo. Essa iniciativa foi incentivada por nós e os professores AFONSO e SERGINHO ficaram encarregados de trazer as atividades para o próximo encontro.

No terceiro encontro, a novidade ficou por conta das atividades que apresentadas pelos professores. O professor Afonso apresentou um trabalho de autoavaliação, por meio da organização de portifólios, que ele estava desenvolvendo com seus alunos do 1º ano do

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AXT, R.; BONADIMAN, H.; SILVA, M. T. X. Um experimento contraintuitivo. Caderno Catarinense de Ensino de Física, v.17, n.1: p.27-32, abril de 2000.

Ensino Médio. A repercussão desse trabalho foi tão grande, que o professor Afonso foi convidado a apresentá-lo, posteriormente, para os professores de um importante colégio particular da cidade e, em 2004, o seu trabalho sobre autoavaliação se transformou em um relato de experiência que foi apresentado no XVI Simpósio Nacional de Ensino de Física. (SILVA; MENEZES, 2005)

O professor Serginho apresentou uma série de artefatos, que ele próprio desenvolveu ou adquiriu, para demonstrar alguns conceitos e teorias da Física em sala de aula. A discussão sobre essas atividades girou em torno da importância de chamar a atenção do aluno para o conteúdo de ensino. O ponto marcante desse encontro foi o interesse que as reuniões e as atividades apresentadas começavam a despertar nos membros do grupo. Um exemplo disso foi o fato de o professor Antônio Carlos ter construído e apresentado na reunião, mesmo sem ter sido programado, um artefato, denominado “pista dupla” (APÊNDICE D), que foi discutido no artigo apresentado na reunião anterior. Isso possibilitou a realização na prática de um experimento que havia sido discutido apenas na teoria.

A partir do terceiro encontro, passamos a ter a certeza de que o GDPF estava se constituindo de fato como um grupo colaborativo. Com o passar do tempo, o entrosamento e a confiança entre os participantes aumentou e os relatos de atividades e experiências se tornaram mais frequentes. Naquele momento, começava a ficar evidente para nós que um dos motivos que levava o professor a participar das reuniões do GDPF era a vontade de inovar e buscar novas ideias que pudessem favorecer o aprendizado de seus alunos. As atividades e práticas que os professores apresentavam eram, em sua maioria, frutos de experiências vivenciadas por eles próprios e o GDPF se configurava no espaço em que eles podiam compartilhar essas experiências com outros colegas.

Outro aspecto que começou a ficar evidente foi o fato de o diálogo com os companheiros do grupo despertar nos professores uma reflexão sobre si mesmos e sobre sua própria prática, ajudando-os a resgatar ações que se perderam na rotina do tempo.

LEANDRO: Eu fiz o seguinte. Primeiro eles (os alunos) são muito dependentes do professor, pelo menos no 1o ano é assim. Não querem fazer exercício, não querem... Qualquer coisa... Ah não, isso é difícil e tal. Então eu peguei a ideia que surgiu aqui: se eu chegar com a matéria, de cara, e der pros meninos, eles vão sentir o primeiro impacto da matéria e depois eles vão achar difícil e tudo mais. Aí vão vir as dúvidas depois. Então, o que eu fiz? Antes de começar o assunto eu já falei que eu queria um trabalho daquele assunto. Queria um resumo daquele assunto com exercícios de vestibulares resolvidos. É lógico que alguns eles não iriam conseguir resolver. Mas, eles procuraram. Você tem que dar exercícios falando que vai avaliar porque se não eles não fazem. Mas, depois que eles entregaram o trabalho, que eu dei a prova, que eu corrigi, muitos alunos elogiaram. Falaram assim: ‘só desse jeito que eu vou estudar mesmo, só desse jeito. Você devia fazer

isso mais vezes, dar os trabalhos pra gente fazer e depois explicar. Pelo menos quando a gente chega, a gente não chega sem saber nada, chega com alguma noção’. Bom, e outro critério que eu também estou usando, é que as provas que eu vou dar – essas provinhas, estes pontos que eu vou distribuir, sem ser as provas de etapa bimestral – são provas acompanhadas de trabalho. Então, o aluno para fazer a prova, ele vai ter que usar o trabalho dele. Então, quanto mais completo tiver o resumo dele, mais exercícios em cima daquilo, ele vai conseguir fazer a prova e isso parece que está surtindo efeito, os alunos estão começando a interessar mais pela Física. Então, esse foi um dos pontos que eu comecei a mudar... (GDPF – 29/06/2002)

ANTÔNIO: Eu pensei, com esta experiência que eu trouxe aqui hoje, que já estamos na metade do ano e aquilo que eu tinha proposto para mim mesmo eu não fiz nada ainda. Tudo por causa desse maldito tempo que o Serginho acabou de colocar. Nós não temos tempo. Às vezes, a gente não tem disponibilidade na escola, não tem material... Porque também não é qualquer experiência que a gente vai fazer. Tem que fazer uma coisa mais bem organizada. Então, tudo é complicado, “né”? (GDPF – 29/06/2002)

No quarto encontro, fizemos, inicialmente, uma avaliação do potencial da "pista dupla", construída pelo professor Antônio. Em seguida, apresentamos um outro artigo: O uso de recursos audiovisuais e o ensino de ciências15 e um vídeo educativo denominado: Fórmulas no trânsito16. Após assistir o vídeo, os professores foram divididos em dois subgrupos. Um subgrupo deveria elaborar uma estratégia para o uso da pista dupla na sala de aula, e o outro para a utilização do filme. Depois disso, as estratégias elaboradas foram discutidas e reformuladas com a contribuição de todos. No final, dois professores ficaram encarregados de executar as atividades planejadas com suas turmas e apresentar os resultados na próxima reunião do GDPF. O professor Jederson ficou com o experimento da pista dupla e o professor Afonso ficou com a atividade do filme.

Começamos a perceber que os professores demonstravam bastante disposição para implementar as mudanças que eram sugeridas pelos colegas nos encontros do grupo. Aos poucos, a descontração foi aumentando e o GDPF foi se configurando num ambiente de camaradagem e cumplicidade que deixava os professores livres para falar de suas ideias, angústias e convicções. As reuniões foram ficando mais descontraídas e todos se sentiam valorizados quando eram incentivados a relatar suas ações para o grupo. Isso ajudou a aumentar o interesse dos professores pelas reuniões do GDPF.

CARLOS: “[...] na escola, a gente senta pra conversar, mas as reuniões, na verdade, já estão programadas, ou seja, as suas idéias não são expostas. Fala-se em montar um projeto e quando chega lá o projeto já está pronto! Você vai ter que obedecer ao que foi

15 ROSA, P. R. S. O uso de recursos audiovisuais e o ensino de ciências. Caderno Catarinense de Ensino de

Física, v.17, n.1: p.33-49, abril de 2000.

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MOTO PERPÉTUO: fórmulas no trânsito. São Paulo: Fiat Automóveis S.A., 2000. 1 fita de vídeo (15 min.) VHS, son., color., bublado.

indicado pra você fazer. E no final você nem sabe se deu resultado, se foi bom. É complicado!” (GDPF – 13/07/2002)

Os professores também aproveitavam as reuniões do GDPF para reclamarem dos problemas do sistema educacional e para falar das dificuldades que enfrentavam no dia-a-dia da sala de aula. Assuntos, tais como baixos salários, falta de incentivo profissional, descaso da política educacional, excesso de trabalho, burocracia das escolas, falta de interesse dos estudantes, número excessivo de alunos em sala de aula e falta de laboratórios e recursos didáticos, eram recorrentes. Em alguns casos, esses fatores eram utilizados para justificar dificuldades relacionadas ao ensino, à aprendizagem e ao próprio domínio do conteúdo. Apesar disso, os professores demonstravam grande vontade de mudar, de realizar novas experiências, de melhorar a qualidade de suas aulas. No grupo, essa vontade, às vezes, tomava a forma de um pedido de ajuda:

DENISE: “Neste ano estou com sete turmas de Física, então eu queria pedir uma ajuda. Não sei se tem jeito de dar continuidade ao trabalho, porque eles já vêm com uma deficiência muito grande”. (GDPF – 29/06/2002)

Por outro lado, ao longo das discussões, esses mesmos professores relatavam experiências e atividades, que podiam ajudar a sanar dificuldades apresentadas por outros colegas.

DENISE: “No ano passado eu tentei fazer um projetinho com o 3º ano e gostei muito. A gente tinha feito isso no Pró-ciências17 e eu entrei com o projeto no 3º ano. Eu fiquei encantada com o desempenho deles porque tudo que você perguntava pra eles, eles sabiam. Eles deram uma aula, todos os alunos. Surtiu efeito! [...]”. (GDPF – 29/06/2002) A angústia que existia quando o professor falava de suas dificuldades era substituída por alegria e satisfação, quando ele contava suas realizações. Esses dois lados surgiam naturalmente nos diálogos do grupo, revelando que o lado pessimista, que muitos professores apresentam, esconde, por vezes, qualidades que passam despercebidas quando não há estímulo para a reflexão.

As rotinas das escolas eram apontadas como um fator de empecilho às mudanças. Porém, percebia-se que os professores eram capazes, não só de apontar as dificuldades, como também de apontar caminhos para contorná-las.

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Programa de capacitação de professores de ciências, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais.