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4. INTERVIEWS

4.4 A DJUSTMENT TO THE GENERAL ENVIRONMENT

Ao descrever a situação do fenómeno humano da sexualidade contemporânea, encontramos sempre um denominador comum, o erotismo. “Dizer que a nossa sociedade está erotizada não seria uma afirmação negativa. A questão é que quando o fazemos é para fazer ressaltar os aspectos negativos do erotismo actual”147. No entanto, o erotismo nasceu como impulso sexual da pessoa, com determinadas finalidades biológicas e apareceu como elemento integrante e peculiar do comportamento sexual humano.

A situação actual nasceu em contextos histórico-culturais que contribuíram para a crescente erotização da sociedade, provocados pelas reacções violentas contra tabus ancestrais, a concentração urbana, a massificação da cultura, a expansão da psicologia, entre outros. Alguns dos momentos a salientar relacionam-se com o facto: de Freud considerar a sexualidade como um problema científico; de haver um elevado fluxo de literatura que surgiu, repentinamente, com ou sem qualidade científica; de estar a crescer a exploração feita pelos meios de comunicação social, cinema e audiovisuais; de aparecer o movimento de libertação da mulher.

Na realidade, a partir de Freud e depois de muitos anos de se considerar a sexualidade como algo desligado do homem e esta ser associada ao pecado, assistimos a uma verdadeira revolução no campo do sexo e do amor, que estava a afectar as estruturas sociais da família. Disto era exemplo a imensa literatura sobre amor e matrimónio, publicada, desde os anos cinquenta, de uma forma rápida e vertiginosa. Este fenómeno, que se tornou explosivo depois de Freud, tomou proporções mais alarmantes a nível biológico, genético, psicológico, sociológico, antropológico, religioso e moral.

Mas, se a repressão sexual foi complexa, a liberalização sexual, com a tendência para recuperar o tempo perdido, conduziu a uma sexualidade inconsciente, fantasiosa, em que a razão foi excluída e o processo tornou-se doloroso e caótico, provocando medo e confusão.

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Para muitos, esta revolução sexual não era mais do que a degradação do ser humano, pois ao pretender separar o amor da sexualidade, reduziu-se este ao erotismo, privilegiando o instante mais do que a estabilidade da relação, criando o desencanto da sexualidade que afecta a pessoa no seu todo, deixando de ser gratificante, na medida em que a pessoa não se dá verdadeira e totalmente a outra pessoa. Nesta esfera social, a sexualidade reduziu a pessoa humana a um mero objecto de erotismo, privada da sua dimensão transcendental e sagrada. Animalizaram as pessoas, criaram seres tristes e desiludidos que caem numa angústia e náusea profunda, terminando em vidas sem sentido e absurdas.

Na perspectiva de Marciano Vidal, era certo que se tinha que romper algumas barreiras, no sentido de destruir tabus existentes, sombras escuras do passado, mas também não se podiam construir seres livres “deitando fora” todos os valores tradicionais, pois a maioria fazia parte dos valores fundamentais do homem. O carácter libertador, factor principal da revolução sexual para muitos, estava revestido de um claro matiz, em que se verificava a manipulação das mesmas estruturas, embora com preponderância económica.

Esta crise não era a primeira da história, pois os costumes foram evoluindo, mas o que era mais preocupante era que esta era uma crise da própria moral, dos valores, como sugerem vários autores. Ela surgiu de um novo conhecimento do homem, face a um mundo que desapareceu erguido pelas verdades eternas e que agora era apresentado pela antropologia, sociologia e psicologia.

A ética sexual, sem fazer mudanças fundamentais, procurou delinear os problemas a partir de um novo método e duma nova linguagem, tendo em conta os pressupostos da antropologia cultural, da sociologia e da psicologia do nosso tempo. Apesar das críticas feitas pelos moralistas e homens da Igreja a este fenómeno, era indiscutível que a moral sexual tradicional tinha sofrido uma profunda transformação.

O ser humano devia estar atento para poder conhecer as formas manipuladoras da sexualidade. A sexualidade era-nos muitas vezes apresentada como tema principal do cinema, da televisão e da literatura, como meio para distrair e incrementar o consumismo erótico, com recurso à publicidade, não deixando lugar para o diálogo ou para pensar em questões tão importantes como a educação, a família, a pobreza, a economia social e a política.

Marciano Vidal, na sua obra Moral de Atitudes considerou que era urgente desmistificar o endeusamento da sexualidade, porque estávamos a cair na sua

sacralização e a contribuir para o erotismo idolátrico, não permitindo a liberdade do homem, mas a sua alienação.

3 – Revolução do Vaticano II

Dadas as grandes mudanças operadas no século XX, a Igreja teve necessidade de parar para reflectir sobre o seu lugar no mundo, particularmente, face aos novos problemas que emergiam da vida moderna. A convocação do Concílio Vaticano II, por João XXIII provocou uma revolução, uma mudança de mentalidade destinada a aceitar este novo mundo e a iluminar a seiva renovadora que brotava do Espírito Santo.

“A humanidade vive hoje uma fase nova da sua história, na qual profundas e rápidas transformações se estendem a toda a terra. (...) De tal modo que podemos já falar duma verdadeira transformação social e cultural, que se reflecte também na vida religiosa. (...) Ao mesmo tempo que o mundo experimenta (...) forças antagónicas”148.

Os homens, depois da segunda Guerra e do extermínio dos campos nazis, tinham um sentido de liberdade que não tinha fronteiras, fomentavam-na “dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer [fosse o que fosse], mesmo o mal, contanto que agrade”149. Dadas as circunstâncias em que viviam, tornou-se, por vezes, difícil discernir os valores fundamentais da pessoa e aquilo que os oprimia e esmagava face a uma evolução tão rápida dos acontecimentos culturais, científicos e técnicos. “O mundo actual apresenta-se, assim, simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio”150.

Este homem, que buscou o espaço e transformou a Terra, passou a pertencer a uma mentalidade dinâmica e evolutiva que exige um novo modelo cultural e social. Um dos factores que maior influência exerceu na evolução, desta sociedade, foram os meios de comunicação social, mais sofisticados e abrangentes, fazendo do mundo a aldeia global onde vivemos.

O progresso das ciências e das técnicas desenvolveu condições de vida que transformaram a mentalidade da sociedade e da estrutura familiar, originando tensões e dificuldades de relacionamento entre os seus membros, desenvolvendo relações e

148 GS, nº 4, p. 8. 149 GS, nº 17, p. 21. 150 GS, nº 9, p. 14.