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Depois desta digressão pelos estudos literários, regressemos aos estudos de tradução e debrucemo-nos sobre tópicos indispensáveis à caracterização do texto e seus contextos, mais concretamente, a relação que existe entre o público-alvo e as normas de tradução vigentes no contexto de chegada e a sua relevância perante uma tradução.
Entende-se por “cultura de chegada” a cultura que acolhe um texto traduzido. Segundo Gail Robinson, a cultura engloba dois níveis, o externo (no qual se incluem a língua, os comportamentos e hábitos, assim como as suas representações, i.e., arte, folclore, artefactos) e o interno (ideias). É neste nível interno, associado às ideias, que se incluem as crenças e os valores partilhados por um grupo de indivíduos.78 A cultura, então, funciona como um sistema partilhado de interpretação da realidade e de organização da experiência. Isto é, indivíduos que partilham e pertencem à mesma cultura tendem a percecionar e organizar os seus contactos com a realidade de forma semelhante. Não quer isto dizer que todos os indivíduos de um grupo específico compreendam da mesma forma esses contactos, mas sim que apresentam padrões de comportamento mais ou menos semelhantes que permitem identificar um grupo no qual se enquadram.79
Ao encontro desta definição de cultura como um sistema vem a Teoria dos Polissistemas, associada aos estudos descritivos de tradução, já abordados no ponto 2., e desenvolvida pelo israelita Itamar Even-Zohar, nos anos 70. Segundo esta teoria, “cada cultura é um sistema composto por diversos subsistemas, que, por sua vez, está em ligação com outros sistemas e subsistemas. Ao interagirem e relacionarem-se entre si, estes sistemas provocam um movimento constante entre a periferia e o centro”.80 O autor considera que o texto traduzido “interage com os sistemas da língua de chegada, tais como as normas sociais, as convenções literárias e o contexto histórico”.81 Gideon Toury, que também foi mencionado no ponto 2., foi influenciado pela Teoria dos Polissistemas e vê o texto traduzido como um produto da cultura de chegada, afastando-se dos modelos prescritivos.82 Esta posição do texto traduzido no sistema social e literário da cultura de chegada é que influenciará as estratégias seleccionadas pelo
78 Gail Robinson, Crosscultural Understanding, Hertfordshire: Prentice Hall International (1988). Citado em Pedro Costa, “Tradução, Cultura e Globalização”, Faculdade de Letras da Univ. do Porto (2013).
79 Pedro Costa, “Tradução, Cultura e Globalização”, Faculdade de Letras da Univ. do Porto (2013), 7.
80 Ana Teresa Bento da Gama Prata, Tradução de Literatura Infantil e Juvenil: Análise de duas traduções portuguesas de Charlie and the
Chocolate Factory, de Roald Dahl, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Univ. de Coimbra (2010), 10.
81 Idem, ibidem. 82 Idem, ibidem.
38 tradutor e a perspectiva sob a qual abordará a tradução. Voltamos, então, às noções de adequação e aceitabilidade propostas por Toury e explicadas no ponto 2. Deverá o tradutor optar por uma tradução em adequação, privilegiando o contexto de partida e as normas nele vigentes, ou de aceitabilidade, dando mais importância ao contexto de chegada e às suas normas? Ou será que não deve privilegiar nenhuma das abordagens, procurando, sim, alcançar um equilíbrio entre ambas, oscilando entre adequação e aceitabilidade conforme os os obstáculos que forem surgindo? Esta foi a perspectiva sob a qual traduzi Sandry’s Book, tentando atingir esse equilíbrio.
Esta reflexão sobre a abordagem que se vai seguir é importante no contexto da tradução de LIJ, pois cabe ao tradutor decidir se vai transmitir à criança/ao jovem elementos que lhe são estranhos ou desconhecidos, ou criar adaptações para lhe tornar o texto mais familiar. Embora a idade do leitor e, por conseguinte, o seu estádio de desenvolvimento e a sua capacidade de aceitar o estranho ou estrangeiro seja um factor a considerar, é também relevante ter em mente a época e o contexto em que vivemos actualmente. Os avanços tecnológicos e o advento das redes sociais transformam o mundo num lugar cada vez mais globalizado, o que dilui as fronteiras entre culturas. As crianças e os jovens têm, portanto, cada vez mais acesso a produtos com características estrangeiras – exemplos disso são os desenhos animados em língua estrangeira (embora legendados) e os videojogos, os quais, muitas vezes, se fazem acompanhar de termos noutras línguas que acabam por ser usados como empréstimos nas línguas de chegada.83
Cabe, portanto, ao tradutor estar ciente das normas vigentes na cultura de chegada, mais especificamente da forma como as marcas culturais estrangeiras são vistas e aceites, funcionando como um mediador cultural, uma ponte entre culturas, conhecedor não só do que é aceite de um modo geral, mas também ao nível do público alvo a que se destina uma tradução. Como já referi no ponto 2., o público-alvo de Sandry’s Book compreende uma faixa etária entre os 10 e os 15 anos, pelo que engloba vários níveis de desenvolvimento. Neste aspecto, a solução que propus, na tradução, foi um compromisso entre algumas adaptações e alguns empréstimos, como veremos no capítulo III do relatório.
No que diz respeito à utilização de estratégias de “adequação” ou “aceitabilidade”, as normas variam de cultura para cultura e também de época para época. Prova disso é a forma como são tratados os conteúdos audiovisuais importados, que podem ser veiculados através de
83 Raquel Sofia Lopes Espada, Tradução e Acessibilidade: Relatório de Estágio Curricular na Electrosertec, Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa (2018), 113.
dobragem ou legendagem. Em países como Espanha, Alemanha e Itália verifica-se a prevalência da dobragem em vez da legendagem, vestígio das medidas proteccionistas tomadas com a finalidade de promover os regimes fascistas, reforçando a ideia de unidade nacional, transmitida através da promoção da língua nativa em detrimento de outras.84 Em Portugal, a legendagem é a opção mais usual, devido aos elevados custos da dobragem.85 Ainda assim, esta última é utilizada, frequentemente, em filmes ou desenhos animados (destinados a crianças e jovens), como é o caso dos filmes da Walt Disney, até mesmo os mais recentes. Como vemos, é obviamente importante que um tradutor tenha noção das normas de tradução de cada cultura de chegada, em especial daquelas aplicáveis a cada tipo de conteúdos e respectivos destinatários – embora a legendagem seja a forma mais utilizada em Portugal para veicular a tradução de filmes, aqueles destinados a crianças e jovens são uma excepção, havendo quase sempre uma versão dobrada, para além da versão legendada, o que poderá estar relacionado com a aquisição, ou não, da leitura.
No contexto da LIJ, surgem vários exemplos ilustrativos do papel do tradutor como mediador cultural, assim como da evolução que a tradução deste tipo de literatura tem sofrido nos últimos tempos. Como vimos no parágrafo anterior, o contexto político influencia, muitas vezes, as normas de tradução das culturas de chegada. Se isto é verdade, também o é o facto de a globalização ter tido repercussões nessas normas, o que se traduz na utilização de estratégias de tradução diferentes daquelas usadas em décadas anteriores à actual.
A colecção infantil Anita é conhecida pela maioria dos portugueses. Criada em 1954 por Marcel Marlier e Gilbert Delahaye, os livros começaram a circular em Portugal a partir de 1966, publicados pela Verbo. A personagem principal, cujo nome original é Martine, tem o nome modificado em várias línguas – em Espanha é Martita; Debbie, nos EUA; Cristina, em Itália; e Anita, em Portugal, entre outros. Com mais de trinta títulos, a colecção foi reeditada em 2015 em Portugal, com uma diferença: Anita é, agora – ou talvez se deva dizer que sempre foi –, Martine. Em resposta ao Jornal Público, Joana Faneco, a responsável pelo marketing e pela comunicação da editora Zero a Oito, explica:
Esta mudança é uma estratégia global da editora Casterman, que pretende tornar a marca ‘Martine’ universal. Cada vez mais as crianças de todo o mundo estão unidas pelas
84 Catarina Duarte Silva de Andrade Xavier, Esbatendo o tabu: estratégias de tradução para legendagem em Portugal, Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa (2009), 19.
mesmas histórias, pelos mesmos temas, pelos mesmos heróis de animação. Todas elas sabem quem é o Mickey, o Noddy e o Harry Potter. Esta razão, aliada ao conceito de ‘aldeia global’ em que vivemos actualmente, faz com que a decisão de voltar às origens ganhe todo o sentido.86
Embora os responsáveis por esta nova edição pudessem não ter tido em conta a possibilidade de esta mudança afastar os adultos – e, portanto, potenciais compradores –, que guardam na memória uma ideia nostálgica da personagem associada ao nome Anita (vale a pena referir o movimento iniciado por Ricardo Araújo Pereira, intitulado “Não Mexam na Anita, Seus Badalhocos!”), o facto é que o principal motivo de Anita agora se chamar Martine se prende com o conceito de “aldeia global”. Na sua resposta ao Público, Joana Faneco faz referência a outras personagens do imaginário infantil e juvenil cujos nomes não foram nunca alterados: o rato Mickey, Noddy e Harry Potter, todas elas transversais a nacionalidades e culturas. Simon Casterman, descendente do fundador da editora-mãe da Martine, justifica assim a decisão:
Achámos que era altura de fazer algumas alterações na vida de uma das mais queridas figuras femininas da literatura para crianças. Muitos editores e tradutores com quem falámos concordaram que estava na altura de fazer uma nova tradução. (…) Duas gerações de leitores partilharam com grande entusiasmo as aventuras de Anita: agora é altura de passar essas histórias à próxima geração.87
A nova geração a quem se pretende contar as aventuras de Martine é, ao contrário das anteriores, uma geração globalizada, familiarizada com línguas estrangeiras no ensino primário ou até antes, acostumada a usar a Internet através de computadores e tablets, perfeitamente capaz de assimilar e aceitar uma personagem com um nome estrangeiro, o que constitui uma marca da interculturalidade que vivemos actualmente. Esta interculturalidade deve, então, ser tida em conta por um tradutor. Seguramente, tive-a em conta ao traduzir Sandry’s Book, relativamente aos nomes das personagens.
86 Rita Pimenta, “A Anita Sempre se Chamou Martine”, Público (2015), disponível em
https://www.publico.pt/2015/05/14/culturaipsilon/noticia/a-anita-sempre-se-chamou-martine-1695685
Curiosamente, existe um outro caso de reedição de uma colecção cujos protagonistas não viram os nomes alterados. Em Setembro de 2011, a Oficina do Livro publicou uma nova tradução da colecção Os Cinco, de Enid Blyton. Estes livros, que começaram a ser publicados em Portugal nos anos 60, contam as aventuras de um grupo de quatro crianças e um cão. Júlio, David, Ana, Zé e Tim – em inglês, Julian, Dick, Anne, George e Timmy – marcaram a infância de milhares de jovens portugueses.88
O que é interessante na publicação de novas traduções destas colecções é que, no caso da primeira, o nome da personagem principal foi alterado, ao passo que, no caso d’Os Cinco, os nomes continuam traduzidos. Saliente-se que Anita – ou Martine – é uma colecção de livros ilustrados, destinada, à partida, a uma faixa etária inferior àquela à qual se destinam os livros d’Os Cinco e, consequentemente, que se poderia pensar que os seus leitores, com menor conhecimento do mundo, estariam menos aptos a aceitar marcas estrangeirantes no texto.89 Esta questão – i.e., a tradução de nomes próprios, quer antropónimos, quer topónimos – é, aliás, bastante controversa, havendo autores que consideram que devem ser traduzidos, outros que acreditam que não devem e outros, ainda, que sugerem a tradução de alguns e não de outros. Na tradução de Sandry’s Book, regi-me por esta última abordagem. Esta questão será devidamente abordada adiante, no ponto sobre topónimos e no ponto sobre antropónimos, assim como nos pontos relativos ao mesmo assunto no capítulo III do relatório.
O público-alvo de uma tradução é, assim, o principal responsável pelas escolhas de um tradutor de literatura infanto-juvenil. Não é, porém, o único. É certo que a faixa etária do leitor tem influência nas estratégias utilizadas pelo tradutor. No entanto, é importante considerar que, na verdade, existem intermediários no processo da criação, publicação e aquisição de livros para e por crianças ou jovens. Efectivamente, os produtores da LIJ são os adultos e os consumidores são crianças e jovens. Quem decide quais os livros publicados e traduzidos também são os adultos, são os adultos que os traduzem, são, frequentemente, os adultos que os compram e, até, que os lêem em voz alta para as crianças. “A literatura tem como alvo a criança, mas o intermediário é sempre o adulto”.90 O facto de existirem intermediários torna a LIJ ambivalente, isto é, os livros devem agradar e ser aceites tanto por crianças e jovens como por adultos. O mesmo se passa com as traduções. As estratégias utilizadas pelo tradutor devem, por um lado, focar-se no leitor e na forma como este irá entender o texto e, por outro, no adulto que 88 “"Os Cinco", de Enid Blyton, regressam com cara nova”, Diário de Notícias (2011), disponível em
https://www.dn.pt/artes/livros/interior/os-cinco-de-enid-blyton-regressam-com-cara-nova-1976378.html
89 Elvira Cámara Aguilera, “The Translation of Proper Names in Children’s Literature”, E-F@BULATIONS / E-F@BULAÇÕES (2008), disponível em https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4666.pdf
90 Ana Teresa Bento da Gama Prata, Tradução de Literatura Infantil e Juvenil: Análise de duas traduções portuguesas de Charlie and the
o vai publicar, comprar e/ou ler. Isto poderá envolver algum malabarismo, conjugando os desejos e expectativas de leitura do público-alvo com as exigências dos intermediários. Na prática, este malabarismo traduz-se, por vezes, em estratégias de purificação, adaptação ou mesmo omissão, quando o contexto político, social, até religioso a isso obrigam. Purificação consiste na “sanitização” dos textos, despindo-os de elementos que podem não ser aceites pela cultura de chegada, tais como linguagem insultuosa/obscena, violência, ideologias, entre outros. Em alguns casos, como em países onde existem regimes totalitários, a purificação pode ser feita por exigência e sob vigilância dos governos, funcionando como um tipo de censura.91
Estratégias de adaptação cultural são aquelas que implicam mudanças com a finalidade de “ajustar um texto ao quadro de referências do leitor”.92 Alguns exemplos são, precisamente, e como já foi referido anteriormente, a tradução de topónimos e antropónimos, assim como a conversão de unidades de medida ou, ainda, o uso de equivalências (como provérbios). Se não existirem certas adaptações, o texto traduzido poderá ser de compreensão mais difícil para o leitor. Esta questão surgiu e destacou-se ao longo da tradução de Sandry’s Book, tanto ao nível dos topónimos, como dos provérbios e/ou expressões idiomáticas e, também, das unidades de medida. Ao mesmo tempo, adaptações excessivas apagarão as marcas de interculturalidade. Cabe ao tradutor tentar alcançar o equilíbrio e esse equilíbrio, isto é, a medida certa de adaptações, está associada à imagem que o próprio tradutor tem do que significa ser criança ou jovem. A preocupação com o excesso de adaptações ao longo da tradução levou-me a tomar a decisão de recorrer a empréstimos em vários casos, nomeadamente, mantendo a maioria dos antropónimos (ainda que pudesse tê-los traduzido), mantendo as expressões de gíria ou os provérbios criados pela autora e, também, as palavras novas que esta inventou. Isto não significa que não tenha recorrido a adaptações, quer usando estratégias de decalque, quer de utilização de equivalências (provérbios). Creio, desta forma, conseguir um compromisso entre adaptações e empréstimos, entre aproximações ao contexto de chegada e ao contexto de partida. Resumidamente, um compromisso entre aceitabilidade e adequação.
Em suma, ao traduzir LIJ, o tradutor deve ter em consideração não só as normas vigentes na cultura de chegada como, também, aquelas associadas à tradução desta literatura, de modo
91 Cecilia Alvstad, “Children’s Literature and Translation”, Handbook of Translation Studies Volume 1 (2010), disponível em
https://benjamins.com/online/hts/articles/chi1.
92 “Tradução de Literatura Infantil”, Traduzir Literatura (2015), disponível em http://traduzirliteratura.blogspot.com/2015/04/traducao-de-
a tornar os textos mais facilmente aceites pelos destinatários e pelos adultos, intermediários no processo de publicação, tradução, aquisição e, muitas vezes, leitura das obras.