Há na composição da tarefa do tradutor muito mais do que um mero exercício de transferência de forma e sentido. Nos meandros desse tão distinto ofício, permanece a necessidade constante de adaptar e adaptar-se, tanto o objeto quanto o tradutor em si, diante da passagem do tempo e da mudança do espaço que reconstroem as partes do texto em um todo universalmente reconhecido através da tradução.
O ponto de partida dessa dissertação foi compreender a tarefa da tradução, aqui fazendo-se necessário adentrar o campo da intersemioticidade, através da abordagem do processo em si através da visão de Peirce. Tarefa árdua, uma vez que a significância do fazer tradutório permeia múltiplas áreas do conhecimento que, como raízes, acabam gerando inúmeras conotações para ambos tradutor e tradução.
Para se traduzir intersemioticamente, não basta apenas verter signos verbais por não-verbais, como já aponta Jakobson em sua teorização inicial, mas entender que o signo precede o verbo, e como tal, rege-o mas, mesmo nessa relação de precedência, por ele é regido. A capacidade abstrata do signo pauta aquilo que as pontes intersemióticas constroem ao longo do oficio da tradução.
Em direção a uma compreensão comprovadamente intersemiótica, é necessário carregar esse discernimento entre o abstrato e o concreto a nível de signo. Mas se a abstração rege o oficio, analiticamente compor um quadro para que se possa examinar as pontes parece algo, certamente, impossível. Dessa feita, comprova-se nessa dissertação a importância do modelo pragmático de Peirce para que, de uma maneira sincrética, seja possível o entendimento das etapas que compõem a tradução intersemiótica em um nível substancialmente mais concreto.
Estruturar os processos mentais formativos do signo linguístico em uma tríade estabelece um possível caminho para a assimilação da tradução em formato semelhante. Para tanto, o trabalho aqui apresentado constituiu uma tentativa primeira de refinar a leitura intersemiótica das personagens de uma obra que compõe as mesmas tanto através do verbo quanto da imagem na obra de partida para um universo midiático em que o verbo torna-se voz e a imagem torna-se movimento.
E da mesma forma que a intersemioticidade age na diferenciação dos veículos sobre o qual o objeto se constrói, também age por intermédio dela a ação do tempo e do
espaço; Carroll produz um País das Maravilhas,em 1865, e a equipe de Disney se debruça sobra esse País das Maravilhas e o reconstrói, em 1951,em um novo mundo que remete ao passado-ícone, estabelece-se como um índice e aponta para o futuro das adaptações-símbolo que seguiriam daquele momento em diante.
A representação, de Peirce, do signo em ícones, índices e símbolos aliados aos valores espaço-temporais, afortunada adição posterior de Plaza, são um poderoso material de análise sobre o fazer tradutório. Ao segmentar o processo intersemiótico, as mais delicadas nuances e os mais modestos detalhes dos variados elementos que integram o trabalho da adaptação de uma obra surgem como uma torrente, invisível até então.
A aplicação dessa abordagem pragmática, no entanto, pode vir a estabelecer mais pontes do que o esperado. O trabalho do tradutor na se limita apenas a adaptar um texto, mas a adaptar um universo particular de um tempo igualmente particular. A análise sob a ótica peirceana compreende esses detalhes e, estruturada como se fez nessa dissertação, tornou possível a visualização semioticamente esmerada dos passos necessários para a construção do signo-tradução.
Ora, o signo-tradução nunca permanece estático. Os arranjos que provém dos momentos históricos conferem às representações icônico-indicial-simbólicas uma relação que tem no tradutor o foco, e a responsabilidade, de compreender esses momentos e repassá-los ao público alvo. O signo-tradução, sob a tutela desse tradutor, não possui capacidade de permanecer estático, pois, uma vez percebido, já está em condições de construir novas pontes em direção a novos ícones, índices e símbolos.
E esse infinito é a melhor definição de tradução para Peirce. Nessa semiose infinita, o objeto nunca para de ser reescrito, adaptado e moldado para novas eras e sociedades. A tradução intersemiótica preza pela transferência de elementos de um universo semiótico para outro, mas é sob a luz dos estudos de Peirce que um pesquisador consegue enxergar esses elementos em movimento, como que vistos a um nível microscópico, quase fugaz.
Apresentou-se, nessa dissertação, uma pequena amostra das infinitas proporções que os estudos peirceanos podem conferir a respeito de ambas transição e impacto do signo. Se a potencialidade de analisar-se uma lista de personagens é capaz de render frutos aos estudos de tradução de maneira tão instigante, o que dirá das outras formas de se adaptar o mundo intersemioticamente?
A humanidade sempre repousa sobre o passado e, dialogando com ele, estabelece o presente enquanto, num ímpeto de ousadia, tenta apontar para o futuro. A tradução-signo emula os mesmos passos enquanto o tradutor adapta o objeto e, através dessa tradução, inicia um leque de novas traduções.
Desse infinito semiótico, eis aqui uma fotografia-mônada, em um zoom dedicado para uma parte desse universo, que deseja, acima de tudo, inspirar novas fotografias sobre o esforço intersemiótico daqueles que traduzem o tempo-espaço, geram novas tríades, impactam o nascimento de novos olhares. Com a certeza de que há mistérios inúmeros nos processos formativos da tradução intersemiótica, seria satisfatório descobrir que esse trabalho pode inspirar novas pesquisas através da lente de Peirce.