1 Kapittel
4.1 Diskusjon
Além de pôr a audiência em contato com uma suposta realidade, pelo seu tratamento enquanto interlocutor do discurso, o apresentador gerencia, explorando performance, enqua- dramentos de câmera, cenário em que está imerso e transmissão direta, a logística de vozes e relatos que compõem as demais unidades do noticiário (reportagens, ao vivo, entrevistas, co- mentários). É ele o responsável por delegar o comando da enunciação ao repórter, hierarqui- camente a segunda representação empírico-comunicativa de um telejornal.
Nas reportagens e entradas ao vivo, os sujeitos enunciatários adquirem distintas posi- ções no discurso. Dessa forma, também é possível construir um sentido de conversa pelas unidades que compõem as notícias do telejornal, sejam elas ao vivo ou pré-gravadas. Assim como ocorre na cena de apresentação, o sujeito enunciatário pode ser posto no lugar de inter- locutor do telejornal, neste caso representado pela figura do repórter. Ao configurar um relato que se desenvolve no tempo da transmissão direta, ainda que este tenha sido anteriormente gravado, ativa-se o sentido de copresença, o que insere o sujeito enunciatário naquele espaço- tempo conformado no ato da enunciação, aspecto visto na análise sobre os efeitos de sentido de instantaneidade e simultaneidade.
Além disso, repórteres, assim como os apresentadores, favorecem se da operação de referenciação destinada a desficcionalizar o discurso, denominada por Veron (1983) de “olho no olho” (O-O). Ao olhar para a câmera, o telejornal, pela figura do mediador, nos aproxima do que é dito, colocando-nos como interlocutor primeiro da sua fala, de modo a nos convencer de que podemos crer no que vemos. Isso explica por que, numa reportagem ou numa entrada ao vivo, o repórter é o único sujeito gabaritado a olhar diretamente para a audiência, diferen- temente das fontes que olham para o lado, aspecto aprofundado adiante. Via texto verbal, esse contato com o público é estabelecido de maneira explícita a partir do uso do pronome pessoal você e de vocativos: “Olha aqui em cima...”, “Como vocês podem ver...”, “Observem que...”, “Para vocês terem uma ideia...” etc. Isso demonstra que o espectador também pode ser inse-
rido no tempo-espaço das reportagens como interlocutor primeiro do relato noticioso.
A figura do repórter é visualizada durante as entradas ao vivo, nos stand-ups e nas passagens das reportagens100. Através do corpo, atua enquanto interlocutor direto do enuncia- tário, dirigindo-se a um suposto sujeito interessado sobre os fatos do mundo. Ao usar sua i- magem para se fazer presente no local, ainda que simbólico, do acontecimento, e para convo- car copresença, esses mediadores, contemporaneamente, tem representado personas a partir de performances corporais, estratégia historicamente explorada pelos chamados “telejornais policiais”101 que parece migrar para os telejornais tradicionais da TV brasileiras como os aqui estudados.
De acordo com a maioria dos manuais de telejornalismo das emissoras brasileiras, na passagem ou em um ao vivo, momentos em que o narrador se torna visível no telejornal, este deve se apresentar sobriamente de modo a não fazer sua aparência se sobressair em relação ao que é dito. Ao mesmo tempo em que se projeta no fato, reportando-o in loco, sua atuação cor- poral deve representar uma espécie de “não eu”, um sujeito imparcial que está ali apenas para relatar o que apurou, estratégia que justifica sua caracterização séria e formal. A norma, nesse caso, prevê para o repórter o corpo do homem civilizado, que se veste de modo sóbrio, assim como fazem os apresentadores: terno para os homens, tailleur para as mulheres, em cores escuras, claras ou pastéis, cabelos bem penteados, performance contida com pouca movimen- tação corporal, gestos comedidos e estudados e uma expressão facial séria (CAMPELO, 1996, p.92-93). Geralmente, aparece de pé em plano americano, que o coloca de modo mais distan- ciado do espectador e, ao mesmo tempo, insere-o no contexto visual do fato noticiado.
As qualidades desse sujeito corporificado são pautadas por uma lógica relacional, na qual o valor positivo estaria relacionado a uma suposta qualidade neutra. Pela “lógica da gra- dualidade” proposta por Fiorin, esse atributo positivo (eufórico), que identifica a neutralidade, configura-se a partir do jogo relacional entre dois pólos disfóricos: o exagero e a insuficiência (FIORIN apud FECHINE, 2008b, p.73). Em relação ao se vestir, a justa medida é apontada como sinônimo de sobriedade, atributo que se diferencia tanto do espalhafatoso (excesso)
100 Nas reportagens, essa aparição do repórter é também chamada de abertura, quando é inserida no início do
relato, e de fechamento, quando encerra a narrativa. O termo “passagem” indica a demonstração do corpo do repórter no interior do relato, mas é utilizado nesta tese para denominar qualquer inserção visual do mediador, seja no início, no fim ou no meio da reportagem.
101 Refiro-me aos programas policiais que têm como referência o formato inaugurado pelo Aqui e Agora, “pro-
grama jornalístico com o objetivo claro de conquistar as classes C/D/E: sensacionalista, apelativa, recheado de reportagens policiais com ação, aventura, flagrantes, denúncias, violência e tensão” (PATERNOSTRO, 1999, p.36). Com duas horas de duração, o Aqui e Agora, versão brasileira do original argentino Nuevediario, represen- tou um marco no telejornalismo brasileiro. O programa surgiu em maio de 1991, no SBT, e era marcado pelo estilo dramático da locução radiofônica e uso do plano sequência para dar mais realismo e suspense às histórias narradas.
quanto do despojado (insuficiência). A mesma articulação pode ser usada na interpretação da performance do repórter quando quer parecer firme em sua fala (ríspido/duro X delica- do/mole) e moderado nos gestos (exagerado/espalhafatoso X insuficiente/apagado). Pressu- põe-se que essa caracterização represente um sujeito imparcial frente ao acontecimento, ao atuar como uma espécie de ventríloquo do dito.
Contemporaneamente, esse tipo de caracterização tem concorrido com uma segunda forma de performatizar a notícia, através da assumida configuração de uma persona que agora utiliza seu corpo não apenas como estratégia de certificação de um suposto relato imparcial, mas como dispositivo expressivo de interpretação do enunciado. Se antes a regra era apresen- tar-se enquanto ventríloquo do fato, hoje o corpo do repórter também é explorado como lugar de performatização do acontecimento narrado. A atuação dos repórteres no interior dos relatos noticiosos tem acompanhado um fenômeno que Veron (1983), a princípio, destacou para ca- racterizar o que ele denomina de apresentador moderno ou metaenunciador. Diferentemente do mediador ventríloquo, que se afirma como mero ponto de passagem da fala através da re- dução da gestualidade e expressões rígidas, enunciações desprovidas de modalizações etc., os apresentadores dos telejornais e também os repórteres têm utilizado o corpo como modaliza- dor discursivo de seus enunciados.
A tendência observada sobre a personalização dos apresentadores dos telejornais brasi- leiros, a partir da década de 1990, quando estes passam a se apresentar como uma figura mais próxima do espectador, que se projeta enquanto “eu” no discurso, e é assim reconhecido pela audiência (MACHADO, 2000; FECHINE, 2008b; HAGEN, 2009), vem sendo incorporada pelos repórteres. Assim, não só a atuação do apresentador, mas a do repórter passa a se valer de um sistema gestual complexo do corpo midiatizado, o qual interpreta corporalmente o dito, explorando os dispositivos discursivos do local que ambienta suas falas, expressões faciais, gestualidades, proximidades e distanciamentos da tela, apresentando-se como um determinado sujeito no discurso e, consequentemente, construindo um lugar para seu interlocutor no pro- cesso comunicativo.
São observados distintos posicionamentos performáticos assumidos pelo repórter (o de ventríloquo e o de persona) no interior do relato que vão gerenciar os lugares construídos para o sujeito enunciatário. É a partir do tipo de interação proposta pelo sujeito mediador, aspecto diretamente relacionado ao tipo de performance convocada, que o interlocutor pode ser posto em diferentes perspectivas. Esta pesquisa destaca, pelo menos, três posições construídas para o espectador durante o processo de apreciação das reportagens dos telejornais analisados que
vão se relacionar justamente com distintos tipos de performance do repórtere: sujeito teste- munha, sujeito cúmplice e sujeito personagem. Tais posições, além de se relacionarem com os sentidos de conversação e participação, atuam na produção de sentido de simultaneidade e, também, de revelação, aspecto discutido no próximo capítulo analítico. É importante destacar que os lugares construídos para o espectador, no processo de interação com o programa, não são classificações, mas indicações de uma postura majoritária feita no processo de conversa- ção com o enunciatário. Isso significa que, numa mesma matéria, pode haver indicações para os diferentes tipos de postura, assim como gradações de testemunho, cumplicidade e de repre- sentação do sujeito personagem. Além disso, reconhece-se que as três posições se relacionam com o sentido de testemunha do fato narrado, respondem pelo lugar construído no interior do contexto comunicativo para aquele que estar interessado em saber sobre as coisas do mundo e, para isto, dispõe-se a testemunhar falas, ações e interpretações constituías pelos e nos telejor- nais.
Ainda assim, optou-se por destacar um tipo específico de posição construída para o in- terlocutor, denominada de sujeito testemunha, responsável por indicar uma forma mais explí- cita de posicionar o espectador como alguém que aprecia aquilo que é revelado pelo repórter, mas sem a demanda de uma adesão mais próxima ao processo de interação. Nesse tipo de posicionamento, apesar de, na passagem da reportagem, o repórter olhar para o público, este não está implicado no discurso, não é explicitamente convocado para se engajar na situação vivida in loco pelo sujeito de fala. Ao contrário, é colocado como um “outro” (para quem se fala) distanciado, que não se inclui na história relatada, ainda que a testemunhe. A especifici- dade da televisão de demonstrar, a partir de imagem e som, o dito pelo texto verbal reforça a constituição desse lugar de testemunha. Veja-se um VT que ilustra esse tipo de construção bastante corriqueira, detectada em todos os programas analisados nesta pesquisa. A matéria, cuja cabeça foi descrita no tópico anterior deste capítulo102, discorre sobre o problema das creches clandestinas no Brasil e foi ao ar no dia 21.05.10 pelo Jornal do SBT Manhã.
Parece obra em acabamento. Era creche clandes- tina e a polícia descobriu.
A casa funcionava de forma irregular havia de- zesseis anos e atendia dezesseis crianças.
Sonora (Crédito: Gilberto Evangelista- tenente da
PM): “Elas estavam em condições insalubres de cuidado, né? Com colchão em más condições, alimentação em más condições”
Uma babá cobrava setenta reais por mês pelo serviço. Para as mães, nenhuma surpresa.
Sonora (sem crédito): “Eu sabia”
Indignação na periferia de São Paulo.
Sobe som (voz do homem que empurra a câmara
da equipe de reportagem – “Tira isso daí” – e da voz do cinegrafista – “Tira a mão de mim, rapá”)
Sonora (Crédito: Maria das Graças da Silva –
mãe de aluno) “Na rua inteira oh, todo mundo conhece ela, como ela cuida bem das crianças. Por isso que todo mundo deixa aqui amontoado”.
Sonora (sem crédito): “Ela é muito, muito humil-
Só carinho não é suficiente, é o que defende esta doutora em alfabetização.
Estímulos recebidos até os seis anos são decisivos para o sucesso escolar.
Numa creche isto é proposta pedagógica. Só pode ser feita por profissionais.
Sonora (Crédito: Silvia Gasparian Culello - prof.
Psicologia da Educação – USP): “O governo ain- da está falhando na oferta de mais vagas de cre- che, que é uma necessidade séria da população. Consequência disso é a multiplicação de lugares, de instituições, que acabam virando, infelizmente, depósito de crianças”.
Sobe som (crianças cantando “Se eu fosse um
peixinho e soubesse nadar...”).
Esta creche particular foi aberta há quatro anos na mesma região da clandestina. A pedagoga responsável investiu na carência da comunidade. Assim que nascem, os bebês são escritos pelo município. Mas a vaga aparece, em media, um ano depois.
Sonora (sem crédito): “Quando chamam, eu per-
Dez milhões de crianças estão na fila para entrar em creches públicas de todo o país. O ministério da educação prevê que, até o ano que vem, meta- de estará matriculado. Enquanto isso...
Passagem (Helayne Cortez – São Paulo): Quem
precisa e pode paga, mas, mesmo assim, com dificuldade. Aqui, 70% dos alunos têm renda fa- miliar até três salários mínimos. A mensalidade no período integral representa mais de 30% de todo o orçamento doméstico da maioria.
Sonora (Crédito: Rosilda Vasconcelos – mãe de
aluno): “Seria muito melhor para a gente econo- mizar, para a gente que é pobre também, que a gente não estamos rico, né?”
Para Cristina, o problema também é dobrado. Quase metade do salário dela vai para a creche. É o preço para poder trabalhar, já que o acesso gratuito à educação, para esses brasileiros, de- pende de uma longa espera.
Sonora (Credito: Cristina Reis – mãe de alunos):
“A minha mais velha tem três ano. Há três anos ela tá na fila de espera. Eu não tenho realmente, não tenho com quem deixar, então tenho que pa- gar”.
Figura 20: Imagens ilustrativas da reportagem (Jornal do SBT Manhã/21.05.10)
Em relação à convocação de conversação e o consequente tipo de participação propos- to ao sujeito enunciatário enquanto interlocutor da reportagem descrita, é possível notar o esforço, do ponto de vista verbal e audiovisual, em colocá-lo no lugar daquele que presencia o que é narrado de modo a tornar o relato autêntico. Assim, o credenciamento do dito se pauta no distanciamento aparente do repórter em relação ao fato, ou seja, da não inclusão do media- dor como personagem da ação narrada, e na ênfase à demonstração daquilo que é noticiado. A autenticação da reportagem descrita depende deste processo de demonstração e comprovação da tese defendida (o problema social ocasionado pela carência de creches públicas para os
filhos de trabalhadoras) via valorização de sonoras e imagens e áudio ambiente referentes ao dito. Para nos convencer sobre um determinado ponto de vista, colocando-nos como observa- dor dos atos representados de modo a validá-los como fatos, constrói-se este lugar de teste- munha do dito.
Ao afirmar “Parece obra em acabamento. Era creche clandestina e a polícia desco- briu”, aparecem imagens da fachada da casa em construção com uma viatura da polícia à frente; quando a narração indica que “a casa funcionava de forma irregular”, apesar da tal irregularidade não ser mostrada visualmente, convoca-se o depoimento de uma fonte oficial, o tenente da PM, que caracteriza o estado do local: “Elas estavam em condições insalubres de cuidado, né? Com colchão em más condições, alimentação em más condições”. A mesma estratégia é explorada quando a afirmação sobre o consentimento das mães é comprovada por depoimentos de três mulheres (“Eu sabia”, “Na rua inteira oh, todo mundo conhece ela, como ela cuida bem das crianças”; “Ela é muito, muito humilde, muito carinhosa com eles”), bem como a dificuldade em custear a mensalidade de uma creche particular é atestada pela sonora de uma quarta mãe (“Seria muito melhor para a gente economizar, para a gente que é pobre também, que a gente não estamos rico, né?”).
Ao mesmo tempo, busca-se na voz de uma especialista a explicação para as cenas ini- ciais do VT (flagrante da creche clandestina seguida de protesto das mães que defendem a “boa intenção” da babá), qualificadas enquanto “fenômeno social”, cuja origem estaria na “falta de incentivo do governo”. A demonstração de tal fenômeno passa pela fala da especia- lista em educação e pela configuração de duas personagens: a pedagoga que criou uma creche particular na mesma região da clandestina e a trabalhadora Cristina, que investe metade do seu salário para pagar a mensalidade da creche particular, pois a filha está há três anos na lista de espera do município.
Durante sua aparição, a repórter se encontra em plano americano, o que sugere um lu- gar mais distanciado em relação ao espectador e, ao mesmo tempo, evidencia este sujeito no lugar do acontecimento. A repórter Helayne Cortez é enquadrada do lado direito da tela, o que possibilita a ênfase no fato que ocorre em segundo plano: crianças brincam com a professora num pátio. De modo a indexar um determinado significado para a cena, a repórter explora o texto verbal, afirmando estar numa creche particular (através do uso de advérbio de lugar a- qui) onde a maioria dos pais tem dificuldades para arcar com os custos. A ênfase no termo aqui em sua fala, articulada à imagem de crianças brincando, indica o lugar geográfico de onde reporta o fato. Mas, apesar de olhar para a câmera, o que convoca interação com o es-
pectador (para quem se fala), a reportar não o inclui como sujeito do relato, sua postura é for- mal, distanciada de modo a valorizar mais o dito pelo texto verbal do que a interação proposta com o interlocutor. Ainda que não se esteja, aqui, fazendo uma análise do conteúdo do VT, é importante entender, nessa discussão sobre o tipo de interação acionado com o espectador, como a argumentação da matéria é pautada no uso de imagens e áudio de personagens que incorporam o dito, como uma espécie de prova real daquilo que é narrado. A passagem do VT do Jornal do SBT Manhã, por exemplo, serve de gancho para a história de Cristina, a mãe que gasta metade do seu salário para manter os filhos numa creche por falta de opção.
O sujeito interlocutor testemunha também pode ser identificado no processo de intera- ção proposto pelas entradas ao vivo, já descritas no capítulo anterior103, quando o repórter se posiciona de fora do estúdio (num lugar configurado como cenário do acontecimento) para nos relatar o que ocorreu ou está ocorrendo naquele momento. Nesse caso, faz-se uso da ima- gem (como pano de fundo do enquadramento da passagem ou inserida sobre a narração) em articulação com o texto verbal como dispositivo de comprovação do dito. Mas o que caracte- riza o lugar de testemunha proposto para o enunciatário é justamente a performance do repór- ter. Nas entradas ao vivo exibidas pelos telejornais nacionais, o repórter – como demonstram os exemplos descritos no capítulo anterior – posiciona seu suposto interlocutor como teste- munha do dito. Suas aparições são marcadas pelo enquadramento de câmera em PA, que valo- riza o local do acontecimento e o aproxima do fato mais que do espectador, performance con- tida, reduzidos movimentos corporais e referência verbal ao acontecimento em si (o que inclui ênfase no aqui e agora da sua narração). A intenção é buscar se inserir no cenário e no mo- mento do fato relatado como estratégia de construção de prova do dito.
No ao vivo, já descrito no capítulo anterior, veiculado pelo Jornal da Record, em 12.12.08, sobre a entrega de donativos para os desabrigados das enchentes em Santa Catari- na104, o repórter Ogg Ibrahim aparece em PA de dentro do cenário do acontecimento relatado (em segundo plano vemos um grande galpão com mantimentos espalhados pelo chão, cami- nhões e pessoas separando alimentos). Essa relação com o lugar onde está o telejornal, através da figura desse mediador, é explorada, além da imagem, pelo texto verbal, que inclui o sujeito enunciador no espaço-tempo do fato narrado. Olhando para seu interlocutor, ele fala: “(...) nós
estamos aqui no centro de distribuição de alimentos aqui da marejada em Itajaí. Até agora
já saíram daqui cerca de 40 mil cestas básicas e a toda hora chegam caminhões lotados com alimentos vindos de todas as partes do país”.
103 Especificamente entre as páginas 70 e 81. 104 Descrito no capítulo anterior na página 71.
Dessa maneira, o enunciatário, para se engajar enquanto espectador de um telejornal, isto é, reconhecer o valor jornalístico do relato, é convocado a se colocar como apto a teste- munhar, no sentido de ver, atestar, verificar, comprovar ou mesmo presenciar, aquilo que é demonstrado pelo telejornal. A constituição do sujeito cúmplice, segunda posição identificada para o enunciatário, também posiciona o enunciatário como testemunha do fato narrado, ou seja, identifica-se essa mesma preocupação em demonstrar via imagens, áudio, fontes e dispo- sitivos verbais aquilo que é narrado pelo repórter, o diferencial, contudo, esta no modo como o sujeito de fala se insere no fato narrado e dialoga com o espectador.
A ideia de cumplicidade se relaciona ao sentido de partilha, consentimento, coopera-