Conforme evidenciamos, os personagens têm sido objeto de discussão ao longo do tempo, gerando consensos e dissensos entre os estudiosos da área. De modo geral, uma das polêmicas em torno deles refere-se à associação e/ou dissociação com uma dada realidade. Esta, nas palavras de Noa (2006, p. 87), corresponde ao “mundo empírico no qual nos movemos”. Mundo esse recriado na tessitura literária por meio dos seres ficcionais e do espaço social onde são situados.
A título de exemplo citamos o estudo de Noa (2006, p. 23) que, ao analisar a produção literária em Moçambique, no período colonial, levou em conta o “processo histórico (a colonização) e um sistema (o colonialismo) [...]”, recorrendo às distintas vertentes teóricas da literatura e aos fatos históricos, quando necessário. Desse modo evidenciou como o colonizador caracterizou o outro, o colonizado. Partindo das suas considerações destacamos “a bestialidade, a inferiorização”, traços estereotipados que constituíram a imagem do negro, mulato e indiano naquele período. Em se tratando do negro, semelhante fato ocorreu na literatura brasileira desde o período colonialista à contemporaneidade, salvo as exceções apontadas por nós e por demais estudiosos da área.
Se a literatura não é o reflexo da realidade humana, conforme entendemos ela, por outro lado, não deixa de expressar as marcas do passado, os traços do presente e de lançar projeções futuras. Sendo assim, configura-se enquanto meio possível de se
reinterpretar, reler, recriar realidades e de, também, transcendê-las. A linguagem literária torna-se, desse modo, um campo fértil às imersões sociais, existenciais, críticas, reflexivas, étnico-raciais, entre tantas outras ações e sensações humanas. E os personagens são, certamente, seres importantes nessa imersão.
Uma unanimidade por parte dos estudiosos de literatura até então aludidos quanto à personagem foi o reconhecimento da sua complexidade no campo da teoria literária, resultante da reinterpretação da mimese aristotélica ao longo do tempo.
A Arte Poética é retomada como texto fundamental para nortear estudos acerca da relação e/ou dissociação entre personagem e pessoa. Importa salientar, no entanto, que independente da perspectiva adotada pelos estudiosos de seres ficcionais, conforme salienta Luna (2005, p. 21) em sua ampla Arqueologia da ação trágica,
[...] é igualmente certo que a tragédia de ontem como o drama de hoje gravitam em torno dessa preocupação humana com a sua dimensão existencial. Sejam os personagens trágicos heróis míticos, semideuses, reis ou pessoas comuns, gente como a gente, sublinhando a dramatização de suas dores [...] (LUNA, 2005, p. 21).
Luna faz uma imersão arqueológica nas fontes primárias do universo grego, traz à tona os conflitos, as ações e frustrações que acometem a vida dos personagens nas tragédias. Nesse percurso ela, logo de início, estabelece analogia entre a arte e a vida humana, haja vista a necessidade de expressar aflições que fogem à racionalidade humana.
Os personagens se configuraram então, desde o mundo grego, como um meio de expressar a “preocupação humana com a sua dimensão existencial” (LUNA, cit, p. 21), face às fatalidades da vida, mas, também, são meios de expressar alegrias, aventuras amorosas, as trajetórias de pessoas que existiram, de fato, as reminiscências, desvãos da memória, enfim, as dualidades e instigações, face à limitada existência do ser.
Se Segolin (1978) parte da Arte Poética e amplia seus estudos até a modernidade para demarcar a diferença entre a personagem “antropomórfica” e a “anti-personagem”, Luna (2005) também retoma essa obra secular e algumas fontes primárias da época e segue outro prisma teórica. Retoma Hegel (s/d) e outros “tragediógrafos”, para analisar as ações e repercussões dos conflitos na trajetória dos seres ficcionais na tragédia grega, principalmente, além de enfocar as sucessivas transmutações na modernidade. Enfim, temos, então, dois pontos de vista diferenciados partindo de um mesmo texto teórico.
Brait (1990, p. 43) pontua, portanto, que, se durante muito tempo [...] prevaleceu a “tese ético- representativa” dos personagens de ficção, levando-se em conta que “os estudos empreendidos por Aristóteles serviram de modelo, num sentido, à concepção de personagem que vigorou até meados do século XVIII”, por outro lado, a partir do século XX, houve uma “radicalização”, erigida pelos “[...] formalistas russos que iniciam, por volta de 1916, um movimento de reação ao estudo naturalista – biológico ou religioso – metafísico da literatura”. No entanto, tais estudos só chegam ao Ocidente em 1955 e constituíram uma “verdadeira ciência da literatura”, esclarece Brait.
Na realidade, o que está em voga é que, se para os estudiosos da corrente imanente da arte pela arte, há uma “essência” ou “especificidade” literária, enquanto para os demais, a exemplo de Eagleton (1983) e Compangnon (2006), isso é colocado em xeque. Compreendemos, desse modo, que menos reducionista, talvez, seja partirmos das “especificidades” vislumbradas como uma das ferramentas analíticas para subsidiar nossos estudos.
Enfocamos, aqui, as abordagens pautados na “arte pela arte” e a personagem como “ser de papel”75 logo, dissociada da realidade humana, com o intuito de reiterar que nos norteamos em outras perspectivas visto que, embora “[...] alguns críticos venham insistindo na conceituação da personagem como „ser de papel‟, sem nenhuma identificação com a pessoa viva, ela guarda sempre, em sua ficcionalidade, uma dimensão psicológica, moral e sociológica”76.
De acordo com Antonio Candido (1992, p. 55), um dos pioneiros em tais estudos no Brasil, a “personagem é um ser fictício”, no entanto, questiona: “[...] como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe?”. Enquanto ser fictício, a personagem é resultado da criação do artista e “[...] comunica a impressão da mais lídima verdade existencial”. Em outras palavras, pode-se afirmar que “[...] o romance se baseia [...] num tipo de relação entre o ser vivo e o ser fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização deste”. Assim sendo, ganha “vida” no imaginário do leitor, o qual vivencia suas emoções, sensações, conflitos existenciais, morais, étnico-raciais, socioeconômicos.
É importante compreender que o estudo da personagem possibilita a leitura do universo do homem, mediada pela palavra, uma vez que é por
75 Conforme a entende Segolin (1978); Palo e Oliveira (2005).
meio desta que ele recria o seu cotidiano e o de outrem, suscitando a percepção do leitor em face desse mundo (CANDIDO, 1992, p. 29)
Considerando a contribuição de Candido (1992), é possível observar que os personagens, na obra literária, emergem da visão que se tem da realidade humana, não se reduzindo à reprodução de um dado momento histórico. Mas, por outro lado, determinados contextos podem ser tomados como referência para a caracterização de tais seres na narrativa. E isso é perceptível, também, por meio do espaço (físico ou psicológico) nos quais são situados. Faz-se necessário, então, observar se os referidos seres ficcionais desempenham os mesmos papéis nas narrativas e, ainda, estudar o espaço social e psicológico deles, visandoa correlação com a temática étnico-racial.