Um breve testemunho pessoal sobre a personalidade e obra de Januário Godinho 1. Nos últimos anos da década de 50, integrando já o atelier de Nuno Teotónio Pereira e tendo começado a colaborar na revista Arquitectura, aceitei o encargo de fazer a “ponte” com o Norte do País.
Assim, o Nuno Teotónio Pereira recomendou-me ao Fernando Távora com o qual tinha, como se sabe, contactos próximos, pelo menos desde o Inquérito à Arquitectura Popular, e ambos me sugeriram que procurasse o Januário Godinho e visse as suas obras mais recentes e as mais antigas.
Estes detalhes pessoais só têm interesse para se perceber como era difícil, nesse tempo, chegarmos, em Lisboa, ao conhecimento dos autores nortenhos. Januário Godinho recebeu-me da melhor maneira: marcou um almoço de sarrabulho em Famalicão e levou-me a ver uma casa que tinha feito para um industrial, à qual se chegava fazendo em carro uma larga curva do caminho à volta de uma grande árvore e que terminava no pórtico da casa, também em curva: uma emoção!
espreitado o interior da lota de Massarelos (ainda dos 30s) projectada para a OPCA, empresa de obras públicas dirigida pelo seu irmão engenheiro. A lota de Massarelos é um espaço interno invulgar pela estrutura e pela iluminação diurna, seguramente a mais bela depois da garagem do Comércio do Porto. E a propósito desta última, é interessante recordar que Godinho e Losa eram (em 1929) jovens colaboradores de Rogério de Azevedo. Não me admiraria que Rogério de Azevedo lhes “entregasse” o projecto da garagem enquanto o patrão se dedicava… à sede, cuja frente dava para a Avenida dos Aliados…, como faria, a seguir, também com Januário (segundo me contou) no ante-projecto da Pousada do Marão: “fazes o esboceto numa semana e pago-te a viagem ao estrangeiro” (que Januário Godinho queria fazer)!
Mas voltemos à Casa Oliveira, a que tínhamos chegado à volta da árvore e da curva de uma das faces do U, a da sala, em que a casa se desdobra e de onde arrancam os dois lados que fazem o pátio em trapézio: de um lado, a ala dos quartos, servida por uma galeria ou varanda exterior corrida, abre para o pátio, enquanto, do lado oposto, um telheiro semi-aberto enquadra a paisagem longínqua.
Olhando mais de perto, os revestimentos, madeiras, beirais… podiam ser vistos nas Pousadas do tempo de António Ferro –, mas se fossem retirados os postiços e adereços, estaríamos perante uma obra-mestra escondida, que bebia memórias
wrightianas, empiristas ou simplesmente do nosso vernacular. Percebi, então,
porquê o jovem autor da Igreja das Águas (Penamacor, 1949-50) ou o da Casa de Oir (1957), podia admirar estas obras marcadas pelo ecletismo – ou pelo hibridismo das referências.
O ambiente político e as opções arquitectónicas têm relações menos lineares ou unívocas do que por vezes se pensa e escreve. As pressões, (sobretudo) estilísticas, das encomendas públicas nos anos 30, 40-50 ou 60, tiveram matizes – da cumplicidade à censura – muito diferentes e houve excepções geográicas e temáticas notórias, como aliás aconteceria noutros países europeus de limitadas liberdades. E não só.
2. Nessa mesma visita à obra de Famalicão, Januário Godinho explicou, ao então jovem crítico, a sua própria estratégia proissional e que, em palavras suas, se resumia em “obras da mão esquerda e da mão direita”, conforme os graus de limitação contextual decorrentes dos programas e da expressão arquitectónica. Assim, a Câmara de Famalicão estava no primeiro grupo (como os Palácios da Justiça), e as Pousadas das hidroeléctricas no segundo. E a Casa Oliveira, objecto da visita? Essa, apesar dos adereços, seria, sem dúvida, do primeiro. A sua interpretação das diferenças não estava tanto no “visual” moderno e não-moderno, mas no grau de interpretação pessoal dos programas, e na convencionalidade do signiicado dos espaços internos e exteriores. E esclarecia- me que a competência construtiva e o respeito pelas expectativas do cliente, público ou privado, estavam à partida à frente da ortodoxia da linguagem visual que se viesse a adoptar.
Recorrendo muito esquematicamente ao triângulo vitruviano, diria que a diferença entre as duas mãos não estava nos vértices “irmitas” e “utilitas”, mas sobretudo no vértice “venustas” – mais retórico ou convencial numa das mãos, mais livre ou inovador da linguagem espacial e igurativa…, ou simplesmente decorativa. Aliás a sua geração e as anteriores deixaram esse legado de ambiguidade e polissemismo: Ramos, Segurado, Cristino, Jacobetti, Pardal, Cotinelli, Nuno Marques da Silva, Rogério ou Porto. Aliás, só nos anos 50-60 seria mais visível o consenso modernista na dominante franco-brasileira – e por pouco tempo, como sabemos e vivemos: os “regionalismos críticos” intrometeram-se nessa ortodoxia, sem ser preciso esperar pelos excessos “posts” do im da década. Mas também não evitaram o retorno recente a formalismos simpliicadores em que os efeitos volumétricos se sobrepõem às espacialidades – sejam internas ou da vida colectiva.
3. Januário Godinho – mais do que Viana ou Losa para não sair do ambiente portuense – tinha a diferença cultural, talvez como o caso Keil em Lisboa, de ter conhecido os países onde a modernidade se adjectivava de empirista ou
regionalista (de Asplund e Dudok a Häring) ou a criatividade incessante de Aalto e F. L. Wright… Senão o ecletismo depurado de Perret e Plecnik ou Sharoun…, para não falar dos focos mais mediterrânicos, como Libera ou Ridolfo e Coderch. Este conhecimento viajante permitiu-lhe perceber o que era essencial e perene, e o que era subsidiário ou variável com os diferentes contextos e lugares – desde que a estrutura dos espaços tivesse a forma justa e durável.
A longa obra de Januário – talvez o menos estudado dos arquitectos da “revisão” do modernismo centro-europeu (e brasileiro) – foi multi-facetada e polissémica como a dos colegas que atrás lembrei e merece uma interpretação que faça ressaltar as constantes ou permanências subjacentes às variações de tempo e lugar: dos clientes, das circunstâncias geográicas ou referências formais. Roupagens que, não deixando de ser signiicativas aos níveis correspondentes, podem diicultar a percepção dos valores que as suportam.
As ambiguidades ou contradições evidentes, da sua geração, e não só, justiicam uma descodiicação paciente que traga à tona as intenções e os valores mais profundos. Como já se fez com Lino, Ramos, Viana, Losa ou Keil.