O baculovírus AgMNPV vem sendo utilizado no controle de uma das principais pragas da soja, a lagarta Anticarsia gemmatalis. Sabe-se que um dos fatores essenciais para manutenção dos vírus no campo é a capacidade de infecção do inseto hospedeiro. Os produtos responsáveis pela infectividade no inseto por via oral são as proteínas PIF (per os infectivity factors), presentes na superfície da partícula viral. Esse estudo demonstrou haver estabilidade dos genes codificantes dessas proteínas em vários isolados do baculovírus AgMNPV, coletados ao longo de 20 anos de aplicação em uma mesma localidade no Brasil (Londrina, PR) bem como coletados em diferentes regiões (Brasil, Argentina e Uruguai). Entre os genes pif dos isolados analisados, o gene pif2 apresentou ser o mais variável, possuindo maior número de sítios polimórficos. No entanto, a quantidade de SNP (Single Nucleotide Polymorphism) encontrada não indica uma alta variabilidade deste gene quando comparado a estudos semelhantes realizados com outros baculovírus.
Os resultados alcançados demonstram que, apesar de anos de aplicação no campo, os genes essenciais para a infectividade oral do vírus permanecem conservados. Com o advento das novas tecnologias de sequenciamento, isolados de AgMNPV poderão ter seus genomas totalmente sequenciados em breve, o que fornecerá informações sobre a estabilidade do genoma viral e um maior conhecimento da evolução desse vírus no campo.
As proteínas PIF possuem uma região N-terminal hidrofóbica que se ancora à membrana do ODV. A natureza insolúvel dessas proteínas tornam-nas difíceis para expressar e purificar, uma vez que tendem a formar corpos de inclusão no interior
celular e serem tóxicas para a célula nas quais estão sendo expressas. Com os vetores utilizados para expressão das PIF, somente as proteínas PIF2 e PIF4 foram expressas. Entretanto, o anticorpo obtido para a proteína PIF-2 não foi específico. Novas etapas de purificação poderão ser realizadas para conseguir eliminar contaminantes bacterianos, bem como novas imunizações para obtenção dos antissoros específicos para PIF2 e PIF4. Neste trabalho, apesar do emprego de diferentes estratégias, os vírus recombinantes com deleção dos genes pif não foram obtidos, no entanto, os plasmídeos necessários para obtenção dos mesmos encontram-se construídos e poderão ser utilizados em estudos posteriores.
A análise comparativa de dois genomas de clones do vírus AgMNPV com distintos parâmetros de virulência, revelou fatores que poderiam estar associados a virulência do patógeno ao inseto hospedeiro. No clone Ag-16, que apresenta baixa virulência in vivo, algumas modificações são aberrantes como: as deleções/inserções encontradas no gene pe38 e a grande quantidade de substituições não sinônimas como no ie-2. Esses genes são transativadores da transcrição de genes precoces e estão envolvidos na replicação do DNA viral o que poderia estar ocasionando uma limitação ou um retardo da replicação do DNA genômico de Ag-16. Outros genes importantes que apresentaram alterações foram o odv-e56, que tem um papel essencial na maturação de envelopamento dos ODVs e os genes bro-a e bro-b que se encontram fusionados em uma única ORF e o bro-c que possui também uma grande quantidade de SNP e estão envolvidos na recombinação entre genomas de baculovírus.
O genoma do vírus AgMNPV é mais próximo filogeneticamente do vírus
Choristoneura fumiferana defective MNPV (CfDefMNPV). Uma particularidade do
em duas ORFs. No entanto, este gene encontram-se como uma única ORF nos genomas do vírus Ag-01 e Ag-16.
A quantidade de regiões homólogas (hr) foi diferente entre os clones. Essas regiões funcionam como origem para replicação do DNA e como enhancers para transativação de genes. Na comparação entre os genomas, observou-se que, enquanto o vírus Ag-2D possui nove regiões homólogas, o clone Ag-01 possui oito (ausência de
hr4) e clone Ag-16 possui sete (ausência de hr1 e hr4). As deleções encontradas nestas
regiões hr parecem não ter relação com a virulência uma vez que elas se encontram ausentes nos dois clones com distintos graus de virulência.
Alguns dos eventos encontrados no genoma do vírus Ag-16, os quais afetam genes com funções importantes no ciclo de vida do vírus, poderiam estar relacionados à diminuição da virulência. No entanto, com base em nossas análises não foi possível identificar fatores conhecidos que pudessem ser correlacionados a alta virulência do vírus Ag-01. Estes clones possuem polimorfismos em regiões gênicas que ainda não foram descritas na literatura, o que indica a necessidade de estudos de caracterização e função de novos genes e de regiões reguladoras, as quais poderiam estar contribuindo para o aumento da virulência observada.
Não houve modificações na ultraestrutura do vírus que pudessem ser associadas à variação no grau de virulência descrito para os dois clones virais como pôde ser observado durante as análises morfológicas das células infectadas com os dois clones.
A elucidação de fatores de virulência é de grande importância, pois poderá resultar em tecnologias de engenharia genética ou de produção em cultivos celulares que permitam o avanço do uso de baculovírus como bioinseticida. Outros clones que foram purificados a partir do vírus selvagem Ag-79, os quais se encontram conservados no Laboratório de Virologia de Insetos da Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnologia, e deverão ser sequenciado futuramente. A análise comparativa do genoma de diferentes genótipos deverá trazer informações relevantes sobre a diversidade genética do vírus e de processos que permitam sua melhor adaptação em cultivos celulares e no inseto hospedeiro.