6. Discussion about the results
6.1. Discussion about the Norwegian results Cod: results from the single and multi-species models
No tópico passado, vimos que a mercadoria possui duas faces: o “valor-de-uso” e o “valor-de-troca”. Concomitante a isso, por trás de cada uma dessas faces, também foi apontado - sem muitos detalhes - sobre os dois tipos formais que o trabalho pode assumir em cada um desses casos. Neste tópico, vamos nos dedicar com mais detalhes a respeito desse caráter duplo do trabalho, porque, junto com o problema das duas formas de valor de mercadoria, a duplicidade modal do trabalho, como diz o próprio Marx (2011), é um dos pontos fundamentais para uma crítica ao sistema econômico ainda vigente.
Para começar a explanação, tomemos um dos objetos de exemplo utilizado por Marx: 1 casaco. Ele é, individualmente, um “valor-de-uso”, objeto que sana uma necessidade específica humana, a saber, a necessidade de se vestir. Para que ele venha a existir, alguém tem de executar um tipo particular de atividade capaz de moldar uma quantidade “x” de matéria-prima “y” em sua forma adequada: coloquemos a medida utilizada por Marx – 10 metros de linho para produzir 1 casaco. Essa atividade que o cria, aí, como um “valor-de-uso”, tem que ser consciente de seu fim, dos meios a serem usados para alcançá-lo, da maneira como deve usar esses meios e do objeto sobre o qual estes (meios) são aplicados. Tal atividade, sob esse espectro, é considerada como trabalho útil, visto dela ser capaz de expressar a sua utilidade no “valor-de-uso” que gerou ou de ser capaz de criar um “valor-de-uso”: trabalho útil, desse modo, deve ser sempre relacionado às objetivações úteis que ele proporciona.
O trabalho, considerado mediante esse “ser útil”, possui caráter de unicidade. Cada tipo de trabalho útil, assim como cada variedade de “valor-de-uso”, contrasta-se categoricamente com os seus demais. Sendo mais claro, casaco e linho são “valores-de- uso” distintos, e os respectivos trabalhos subjacentes ao processo de produção deles também são distinguíveis entre si. O tecelão é responsável por produzir o linho e o alfaiate pela confecção do casaco. É somente por causa de serem “valores-de-uso” com qualidades distintas que o casaco e o linho podem ser confrontados um com o outro e, por conseguinte, adquirir uma outra forma, que é a de serem mercadoria. Cada mercadoria possui, por lógica, em uma sociedade na qual os produtos geralmente tendem a adquirir essa forma, um tipo de trabalho útil correspondente (executado por produtores autônomos possuidores de negócios particulares). A isso se dá o nome de divisão social do trabalho38.
Aqui Marx (2011) apresenta um raciocínio desconstrutivo curioso: apesar de ter uma conexão lógico-material com a mercadoria, a divisão do trabalho não implica obrigatoriamente na produção de mercadorias. É possível exemplificar essa exceção com certos tipos de comunidades humanas nas quais, mesmo havendo a divisão de tarefas, não se tem em mente a troca de produtos, mas o simples usufruto do objeto. O “valor-de-uso”, por sua vez, independe do trabalho especializado para se efetivar, porque qualquer ser humano, desde tempos imemoriais, quando capaz de incorporar a consciência do agir para a fabricação, por exemplo, do já dito casaco, tem capacidade para produzi-lo (este ato de confecção, por conseguinte, não está limitado ao alfaiate).
Até agora, tudo o que foi descrito acima trata de mostrar a face útil, qualitativa do trabalho. Mas coloquemos um avanço na relação entre os dois “valores-de-uso” apresentados por nós: duas pessoas querem trocá-los entre si. Para que a troca seja realizada, tem-se de levar em conta a quantidade de horas de trabalho empregadas na produção de ambos. Como foi postado que 10 metros de linho equivalem a 1 casaco, digamos que o tempo para produzir 10 metros de linho e 1 casaco equivalem a 1 hora de trabalho cada. Aqui se desenrola o ponto tocado por nós no tópico anterior:
Como valores, casaco e linho são coisas de igual substância, expressões objetivas de trabalho de natureza igual. Mas o ofício de alfaiate e o de
38 Existem exceções quanto a isso: “Há estágios sociais em que a mesma pessoa, alternativamente, costura
e tece, em que esses dois tipos diferentes de trabalho são apenas modalidades do trabalho do mesmo indivíduo e não ofícios especiais, fixos, de indivíduos diversos, do mesmo modo que o casaco feito hoje por nosso alfaiate e as calças que fará amanhã não passam de variações do mesmo trabalho individual” (MARX, 2011, p.65).
tecelão são trabalhos qualitativamente diversos. [...] Pondo-se de lado o desígnio da atividade produtiva e, em consequência, o caráter útil do trabalho, resta-lhe apenas ser um dispêndio de força humana de trabalho. O trabalho do alfaiate e do tecelão, embora atividades produtivas qualitativamente diferentes, são ambos dispêndio humano produtivo de cérebro, músculos, nervos, mãos, etc., e, desse modo, são ambos trabalho humano. São apenas duas formas diversas de despender força humana de trabalho. [...] O valor da mercadoria, porém, representa trabalho humano simplesmente, dispêndio da força de trabalho humano em geral. [...] Ao considerar os valores do casaco e do linho, prescindimos da diferença dos seus valores-de-uso, e, analogamente, ao focalizar os trabalhos que se representam nesses valores, pomos de lado a diferença entre suas formas úteis, a atividade do alfaiate e a do tecelão (MARX, 2011, p.66-67).
Não pretendo retomar toda a questão da dinâmica da troca mediante o tempo de trabalho necessário na produção da mercadoria. O que importa para nós, crucialmente, é o desvanecimento dos caracteres do trabalho tanto em seu ato produtivo quanto em seu resultado final, o esfacelamento de sua utilidade quando ele assume a forma de trabalho abstrato. Isso, como vemos na citação acima, tem as suas causas em torno do princípio de troca. A ênfase dada ao caráter meramente fisiológico da atividade humana - quando o aspecto quantitativo aparece na relação entre dois “valores-de-uso” distintos - expõe a face quantitativa (e abstrata) do trabalho enquanto mero dispêndio de força de trabalho simples (que nada mais é que a força de trabalho que qualquer homem comum possui em seu organismo) em um determinado período de tempo. Na sociedade capitalista, o trabalho simples médio é a unidade de medida universal pela qual os outros tipos de trabalho estão reduzidos, não importando a magnitude qualitativa entre o trabalho simples e o trabalho complexo, porque este é puramente entendido como uma quantidade maior de trabalho simples39. Tudo está racionalizado por meio desse denominador comum,
nenhum trabalho e nem mesmo a percepção humana escapam à racionalidade estratégica econômica capitalista. Esse ato de redução de todo tipo de trabalho à sua forma simples, por mais absurdo que pareça, é visto como normal aos olhos dos produtores. Não se tem ideia de um processo social - que consiste nessa abstração da concretude do trabalho pela dominância do “valor-de-troca” - ser o responsável pela mediação desse fenômeno
39 “Por mais qualificado que seja o trabalho que gera a mercadoria, seu valor a equipara ao produto do
trabalho simples e representa, por isso, uma determinada quantidade de trabalho simples” (MARX, 2011, p.66).
reducionista. A ascensão social do “trabalho abstrato” é tratada como algo estabelecido pelos costumes econômico-sociais.
Falamos dessa absurdidade, mas o seu motivo para sê-la está vago. Não é possível falar sobre ela sem dizer o que, no fundo, o trabalho abstrato representa. O seu segredo é apresentado na comparação entre as duas formas do trabalho:
Se o trabalho contido na mercadoria, do ponto de vista do valor-de-uso, só interessa qualitativamente, do ponto de vista da grandeza do valor só interessa quantitativamente e depois de ser convertido em trabalho humano, puro e simples. No primeiro caso, importa saber como é e o
que é o trabalho; no segundo, sua quantidade, a duração de seu tempo
(MARX, 2011, p.67. Grifo nosso).
Bem: o trabalho abstrato envolve tempo e quantidade de produção sem se
importar com as condições nas quais o trabalho foi executado. No ato da troca, não há
interesse em saber se os produtos foram originados por um trabalho desumanizante ou não. Em uma sociedade na qual a troca entre produtos é intensa, a barbárie expõe o seu direito de ser como o próprio fundamento do capital. Das quase imperceptíveis até as mais aberrantes formas de deformação presentes na ideia de trabalho abstrato, tudo tende a ser tomado como “natural” pelos detentores dos meios de produção e, não por menos, pelos trabalhadores subordinados a esses meios. A indignação de certos capitalistas sobre o trabalhador poder render e trabalhar mais para compensar “devidamente” a compra do trabalho e aumentar a competitividade de seus produtos no mercado, e a “necessária” resignação (pautada pelo imperativo da sobrevivência) que os trabalhadores apresentam frente ao regime desumano que os comanda oferece uma noção do que está em jogo40.
Toda essa ilusão social gerada em torno do “valor-de-troca”, que põe o absurdo como normal social, é fundamentada em torno do fetichismo da mercadoria e o fenômeno da reificação. Na sociedade capitalista, há uma irresistível imbricação entre os dois em vista da “forma mercadoria” mediar socialmente a totalidade das manifestações vitais dessa sociedade. O tédio, sob essa perspectiva, vai ser fundamentado em uma inversão total de caracteres: a coisa (a mercadoria) é animizada e o homem é coisificado. Para
40 Sugiro a leitura destas três notícias para explicitar ainda mais o que estou querendo expressar:
<http://www.tecmundo.com.br/foxconn/17930-conheca-a-absurda-realidade-da-producao-de-gadgets-na- china.htm>; <http://www.tecmundo.com.br/foxconn/18116-gerenciar-1-milhao-de-animais-me-da-dor- de-cabeca-diz-ceo-da-foxconn.htm>; <http://www.tecmundo.com.br/foxconn/19778-presidente-da- foxconn-chama-brasileiros-de-folgados.htm>.
entendermos como isso acontece, fiquemos primeiramente com o desvendamento do caráter fetichista da mercadoria.