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Durante o ano de 1921 a CGT 1921 a CGT mantém contactos com organismos sindicais estrangeiros; além do mais, A Batalha insere muitíssima informação sobre os acontecimentos internos na vida de partidos políticos e organismos sindicais estrangeiros, onde a questão internacional – sobretudo em torno das relações com a Internacional Sindical Vermelha – provoca grandes discussões e amiúde mesmo cisões; em geral como foi referido, é uma informação pouco isenta, que repercute sobretudo os pontos de vista do sindicalismo revolucionário.

Regista-se, além disso, correspondência com alguns organismos sindicais, caso da Textile Workers Industrial Union, dos Estados Unidos, afiliada da International Workers of the World (IWW), de que A Batalha dá conta, no sentido de os operários do sector têxtil que emigrem para aquele país sejam portadores de uma cata de transferência da indústria a que pertencem, para ingressarem à chegada naquela organização sindical105

Mas é sobretudo com a CNT de Espanha que a relação é mais notória – por um lado, no princípio do ano a organização operária portuguesa declara aderir ao boicote dos produtos espanhóis nos portos portugueses, enquanto se mantivessem as perseguições ao movimento operário em Espanha106, secundando um apelo emitido por aquela central sindical; depois, será daquela organização que a CGT receberá convite, em Maio de 1921, para participar no Congresso da ISV, apontando nessa correspondência a conveniência, identificada por várias confederações sindicais nacionais, de ser feito «um esforço para constituir uma verdadeira internacional revolucionária», havendo «um vivo interesse em que a Confederação portuguesa assista ao mesmo congresso.»107

Na CGT, a ida do delegado português a Moscovo estava, desde meados do ano de 1921, envolta numa mentira. Recorda-se que, confrontado por Joaquim Cardoso quando

105 AB, 03-03-1921. 106

AB, 23-02-1921. A organização desse boicote gerou alguns atritos entre a USO e a CGT, com acusações desta de que a USO-Lisboa de pretender invadir as competências da Confederação; essas quezílias parecem ser o resultado de fricções pessoais anteriores, envolvendo, do lado da USO-Lisboa, Carlos de Araújo, do Sindicato dos Correeiros, e Domingos Pereira, do Sindicato dos Manipuladores de Pão, o primeiro com um inquérito a decorrer então no Conselho Confederal da CGT, e o segundo, protagonista de um incidente com a direcção da CGT a propósito da acção da Confederação na greve dos Ferroviários, no final do ano anterior. Ver AB, 06-03-1921.

107 António Ventura – “O primeiro delegado operário português na União Soviética”, Seara Nova, nº

das discussões em torno da posição confederal sobre o “Manifesto do Partido Comunista”, o secretário-geral Manuel Joaquim de Sousa negou que o Comité Confederal tivesse concretizado tal acção. No mês de Novembro, o Comité Confederal irá assumir, no Conselho Confederal, que encarregara Francisco Perfeito de Carvalho dessa missão, sem consultar aquele órgão, sem o informar a posteriori e, mais, quando questionado directamente, mentindo. A questão aliás, teria já sido levantada, por mais de uma vez, no Conselho Confederal108.

Em plena crise interna, resultante dos desenvolvimentos da questão da nota oficiosa da CGT contra o manifesto do PCP e a irradiação de Joaquim Cardoso e Carlos de Araújo, com as relações entre a CGT e a Federação da Construção Civil em completa derrapagem, o Comité Confederal convocou o Conselho para tratar desse delicado assunto, a missão à Rússia de Perfeito de Carvalho. No relatório lido pelo secretário- geral na sessão do Conselho de 9 de Novembro de 1921, detalha-se a recepção de um convite da União Sindical Italiana, em Maio de 1921, no sentido de a CGT se fazer representar no congresso da Terceira Internacional, em Moscovo, e as condições e motivações que levaram o Comité Confederal para agir à revelia do Conselho – a necessidade de agir rapidamente para concretizar a ida do delegado à Rússia, e o «melindre» do assunto, decidindo mantê-lo em segredo, para evitar que, se fosse conhecido, as autoridades impedissem essa deslocação. Tratava-se, na expressão do relatório do Comité, de um «segredo de carácter revolucionário», exigido pelas circunstâncias; ainda assim o “segredo” tinha deixado de o ser, por razões que o Comité declara desconhecer (referindo uma «inconfidência ou outras circunstâncias estranhas à sua vontade») e o envio do delegado à Rússia tinha mesmo sido notícia na imprensa; quando inquirido sobre o tema, no Conselho Confederal, adianta o relatório, o Comité mentira, por razões de força maior, empenhando a sua palavra, a bem da causa e no estrito cumprimento do seu dever. Reconhecendo o pesado encargo dessa delegacia à Rússia, no estado das finanças da CGT, todavia justificado pela importância e o alcance dessa representação, aliás no espírito das deliberações do Congresso de Coimbra e com vista a uma próxima decisão, em congresso, da questão internacional, o Comité refere o que ficara acordado com o delegado para a minimização desses encargos, em especial a edição, em livro, pela CGT, do relatório dessa delegacia.

É de todo improvável que, a título individual, os delegados do Conselho Confederal desconhecessem o assunto; daí que, como refere a acta da reunião daquele órgão que vimos seguindo, o Conselho Confederal tenha votado, sem discussão e por

108

Como foi referido antes, a direcção da CGT só em Janeiro de 1922 dá conhecimento à organização de ter reunido, três meses antes, em Novembro de 1921, para ouvir o relato do delegado enviara à Rússia em meados do ano; o relato da reunião do Conselho Confederal, de 09 e 11 de Novembro de 1921, em que foi discutida a deslocação de Perfeito de Carvalho à Rússia, foi publicado somente em Janeiro de 1922 – “A CGT portuguesa e as relações internacionais”, AB, 24 e 25-01-1922.

unanimidade, o relatório do Comité, dando assim por aceites as explicações dadas e validando, sem questionar, a atitude do Comité, que tendo feito suas as competências do Conselho, havia sido desleal escondendo tal acto, além disso mentindo repetidamente ao principal órgão da CGT, mesmo depois de ser pública a delegacia à Rússia.

Perfeito de Carvalho, então em Lisboa, não de regresso, mas em trânsito, encontrava-se presente nas duas sessões do Conselho Confederal, ao qual dá conta dos resultados da missão de que o Comité Confederal o incumbira.

O delegado da CGT à Rússia relata aos conselheiros confederais as circunstâncias da formação e os fins da Internacional Sindical Vermelha, que, nos termos do relato, foi criada em virtude de algumas organizações operárias como secção da Internacional Comunista (Terceira Internacional), dadas as reticências de ao carácter político da Terceira Internacional; a ISV, sublinha Perfeito de Carvalho, não é uma organização política, mas uma organização económica como pretendiam os delegados reticentes, «sobretudo de países latinos», que se pretendia que «unisse as centrais sindicais dos outros países, e que seria o eixo em volta do qual toda a actividade revolucionária deveria girar». No entanto, acrescenta, como «os povos dos países não latinos, pela boca dos seus delegados, não admitem a separação das duas internacionais – política e económica, a internacional comunista não é de natureza absolutamente política, e a internacional sindical vermelha não é, por sua vez, de natureza exclusivamente económica. Entendeu, por isso o congresso que as duas internacionais trabalhassem de acordo no sentido de tornar possível a revolução emancipadora do proletariado em todo o mundo»; com esse objectivo, a ISV tem representação no Conselho da Internacional Comunista, e vice-versa, sendo que nesse processo de interacção, acentua Perfeito de Carvalho, a ISV está em vantagem, pelo facto de ter estar representada no Comité da Internacional Comunista, enquanto esta apenas tem representação no Conselho da Internacional sindical.

No seu relato, Perfeito de Carvalho não ilude a insatisfação expressa pelos «representantes dos países latinos e os sindicalistas revolucionários com a orientação do congresso» da ISV, lendo os documentos por estes então apresentados, mas refere que «quando terminou o congresso estes delegados tinham [...] modificado um pouco as suas opiniões, em presença dos factos que lhes foi dado observar.»

Perfeito de Carvalho fala seguidamente dos pormenores da sua viagem até Moscovo – provavelmente dos factos constantes do relatório do Comité Confederal antes apresentado aos delegados do Conselho, como o de não se ter podido juntar aos delegados espanhóis com que se deveria encontrar em Paris, para viajarem juntos até à capital russa, do dinheiro que houve que fazer-lhe chegar para custear despesas não previstas, que originou mais atrasos e um acréscimo de encargos para a CGT – e dos contactos que tinha mantido com a ISV, cujo comité internacional o havia reconhecido