do lactato. No sangue periférico a glucose pode estar mais elevada e o lactato mais baixo, quando comparado com o liquido abdominal. Os responsáveis por esta produção lactato ainda não são bem conhecidos, porém, bactérias, leucócitos, eritrócitos e a anaerobiose tecidular, estão em consideração.
É importante salientar que estes achados clinicopatológicos não são suficientes para diagnosticar uma peritonite séptica, devido ao reduzido número de amostras dos estudos publicados até agora. Doenças assépticas como torção do intestino delgado, neoplasia abdominal e trombose vascular mesentérica, tendem a apresentar aumento da concentração do lactato peritoneal (Gillespie et al, 2016).
3.7. Técnicas de recolha e medição
Uma vez que a quantificação do lactato tem sido muito utilizada como uma ferramenta de monitorização em pacientes críticos, têm surgido mais aparelhos que tornam esta medição mais rápida, eficaz, prática e acessível (Toffaletti, Hammes, Lineberry & Abrams, 1992; Bakker & Lima, 2004; Pang & Boysen, 2007).
No quotidiano clínico, a quantificação do lactato nem sempre foi simples, exigia grandes quantidades de amostra e o envio para laboratórios especializados, tornando-se assim impraticável devido ao tempo necessário para a obtenção de resultados e devido ao efeito de latência observado nas amostras (Acierno, Johnson, Eddleman & Mitchell, 2008). Os pacientes em estado crítico necessitam de rapidez na tomada de decisões em relação ao tratamento a implementar sendo, frequentemente, necessário realizar mais do que uma quantificação de lactato. Assim, surgiu a necessidade de conseguir os resultados num curto espaço de tempo, com uma quantidade de amostra reduzida, de forma a tornar a medição de lactato um parâmetro significativo num plano de diagnóstico (Ancierno & Mitchel, 2007).
Hoje em dia, na prática clínica, o lactato pode ser facilmente medido através de uma variedade de dispositivos, seja no laboratório, ou em analisadores portáteis, sendo que a maioria dos dispositivos utilizados têm limites aceitáveis de concordância em relação aos dispositivos laboratoriais (Bakker et al, 2013). Contudo, os clínicos devem estar conscientes em relação aos diversos erros que podem cometer durante a colheita da amostra, uma vez que estas podem influenciar a qualidade da amostra e consequentemente a concentração de lactato (Pang & Boysen, 2007). Determinados factores de stress como a mudança de ambiente, manipulação e contenção, má nutrição, parasitismo, infecções, administração de fármacos e procedimentos cirúrgicos, podem contribuir para a hiperlactacidemia sérica (Franco et al, 2016).
venoso periférico são semelhantes aos níveis de lactato sanguíneo arterial. Embora existam diferenças entre os valores obtidos nos diferentes locais, estes não se revelam clinicamente significativos (Hughes, Rozanski, Shofer, Laster & Drobatz, 1999; Pang & Boysen, 2007; Bakker et al, 2013).
Assim, o sangue deve ser colhido através de punção venosa (veia safena, veia cefálica e veia jugular), ou por punção arterial (artéria radial) (Hughes et al,1999). A oclusão da veia (garrote) deve ser aplicada o mínimo tempo possível, pois a sua oclusão prolongada pode elevar os níveis de lactato. O stress causado pela manipulação e/ou pelo simples facto do animal se encontrar num ambiente estranho pode conduzir a alterações na concentração de lactato, devido ao aumento da atividade hormonal (catecolaminas), sendo estas variações mais evidentes nos felinos (Buckingham, 1996; Acierno et al, 2008).
A concentração de lactato pode ser medida em sangue total, plasma ou soro. O lactato presente no sangue total representa a média de lactato dentro dos eritrócitos e do plasma, após a lise dos mesmos. O lactato plasmático refere-se à concentração do lactato apenas na fracção do plasma.
Ao utilizar um aparelho de medição portátil, pode-se realizar a medição do lactato apenas com uma gota de sangue diretamente da seringa ou do sangue recolhido para uma seringa heparinizada ou tubo de sangue. Se a medição for executada num analisador de bancada, devem-se utilizar seringas para gasimetria arterial, comercialmente disponíveis ou tubos capilares com heparina liofilizada seca (Gillespie et al, 2016). É importante que a análise seja feita no menor espaço de tempo possível, a fim de evitar eventuais alterações provocadas pela glicólise eritrócitária (Pang & Boysen, 2007; Andersen et al, 2013; Gillespie et al, 2016), uma vez que mesmo após a colheita, estas células (eritrócitos) continuam a produzir lactato (Nel et al, 2004; Pang & Boysen 2007; Scott, LeGrys, & Schindler 2014).
A temperatura ambiente também é uma variável importante a ter em conta, já tendo sido alvo de estudo (Valenza et al, 2005). A concentração de lactato sanguíneo heparinizado pode aumentar até cerca de 0,5 mmol/L após 30 minutos à temperatura ambiente e 0,2 mmol/L em 120 minutos se for armazenado em banho de gelo. A concentração de lactato sérico, pode aumentar drasticamente nos primeiras 15 a 30 minutos se houver formação de coágulo, mostrando assim a importância do anticoagulante.
O tubos de citrato de sódio devem ser evitados, pois os valores de lactato diminuem erroneamente. Para análise em laboratório, o tubo mais indicado deve conter fluoreto de potássio, inibidor da glicose e oxalato de potássio, um anticoagulante. Contudo, é sempre importante seguir as diretrizes de processamento da amostra específicos de cada analisador ou laboratório de referência (Pang & boysen, 2007; Gillespie et al, 2016).
Existem dúvidas se a administração de Lactato de Ringer, pode ou não influenciar os valores de lactato sanguíneo, devido ao lactato presente na sua composição. A solução de
Lactato de Ringer contém 28 mmol/L de lactato e inclui ambos os isómeros D-lactato e L- lactato em diferentes concentrações, dependendo do fabricante. Um estudo feito em pessoas e em canídeos demonstrou que o Lactato de Ringer utilizado, num bolus de 15 a 20 mL/Kg, não levou a alterações nos níveis plasmáticos de D-lactato, nem em indivíduos normais, nem indivíduos com choque hemorrágico (Karagianis et al, 2006; Pang & Boysen, 2007).
3.8. Limitações do lactato
A medição do lactato pode ser pouco sensível em determinadas situações. A hiperlactacidemia ocorre quando o oxigénio diminui e quando a produção de lactato excede a sua capacidade de metabolização. Assim, a medição do lactato pode falhar ao não detectar a hipoperfusão precoce ou regional. Em algumas situações a medição do lactato também pode não ter especificidade como indicador de diminuição do oxigénio celular (Boag & Hughes, 2005; Karagiannis et al, 2006). A concentração de lactato medida no sangue arterial, venoso central ou na artéria pulmonar reflete a produção total do corpo e homeostase. Um nível normal de lactato não assegura a perfusão adequada em nenhum órgão em específico. Os tecidos isquémicos não possuem fluxo venoso suficiente para alterar o pool venoso total e o lactato vindo desses tecidos acaba por se diluir.
A hiperlactacidemia também pode ser provocada por alterações na excreção do lactato pelo fígado e outros órgãos, levando a concentrações elevadas de lactato. Além disso, a acumulação de lactato em tecidos isquémicos pode ser diluída aquando instituição de terapia para promover a perfusão, aumentando assim os níveis de lactato. Contudo, estas alterações de lactato não representam a oxigenação dos tecidos (Lagutchik et al, 1996). A forma como é obtida a amostra pode afectar e alterar a concentração de lactato. Se o paciente estiver sob muito stress devido à manipulação e à contenção, pode levar ao aumento moderado das concentrações sanguíneas do lactato (Hughes, 1999).
Outros factores como a hemólise, prática de exercício físico, administração de glucose e hiperventilação também levam a alterações nos níveis de lactato (Karagiannis et al, 2006).
4. Lactato e a Doença Oncológica
Na medicina humana, as concentrações de ácido láctico no sangue, são conhecidas por estarem elevadas em pacientes oncológicos.
A hiperlactacidemia que ocorre nos pacientes com neoplasia pode ser suficiente para resultar em acidose láctica. Embora não seja comum, tem sido documentada como secundária a várias formas de leucemia, linfoma, carcinoma, sarcoma e feocromocitoma