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4 Financial assistance before the Court of Justice

4.6 Conferral and institutional balance. Use of Union institutions in inter se financial

4.6.3 Discussion and conclusion

Nos dois textos sobre o masoquismo da década de 60, Deleuze aventava a hipótese156 das influências do grande etnólogo e jurista hegeliano Bachofen em Sacher-Masoch, seu ávido leitor, que lhe forneceria uma concepção teórica e uma estrutura ideológica para seu fantasma. Também se iaà de i adaà deà fo tesà o oà Ba hofe à eà C euze (KERSLAKE, 2007, p. 77),

155 Da ielàLaga heà e e te e teài sistiuàso eàaàpossi ilidadeàdeàu aàtalà is oàeu-supereu: ele distingue, e à necessidade opõe o sistema eu-narcísico-eu-ideal, e o sistema supereu-ideal de eu. Ou bem o eu se lança numa empresa mítica de idealização, onde ele se serve da imagem da mãe como de um espelho capaz de refletir e

es oàdeàp oduzi àu à eu-ideal ,àe ua toàidealà a ísi oàdeàtodaàaàpot iaà– ou então ele se lança em uma empresa especulativa de identificação, e se serve da imagem do pai para produzir um supereu capaz de atribuir u à idealàdoàeu ,à o oàidealàdeàauto idadeàfaze doài te i àu aàfo teàe te io àaoà a isis o.àEàse àdú idaà estes pólos, eu e supereu, podem estar numa estrutura de conjunto, onde não apenas eles inspiram formas de sublimação muito diversas, mas também suscitam problemas funcionais mais graves (é assim que Lagache interpreta a mania, como prevalência funcional do eu ideal, e a melancolia, como dominação do do supereu ideal do eu). Mas, mais importante ainda é a possibilidade, para estes dois pólos de dessexualização, de atuarem em duas estruturas diferenciadas ou dissociadas da perversão, em favor de uma ressexualização perversa que confe eàaà adaàu àu aàsufi i iaàest utu al à DELEU)E,à ,àp.à .

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curiosamente, a descrição da história por Jung. Para o romancista Masoch, a teoria de Bachofen serve de tela de projeção de sua fantasia pessoal num mito impessoal: sem levar em conta as

pespe ti asàhist i asàest a has que fundamentam o masoquismo, como a narrativa épica da substituição do primevo direito da mãe pela Lei Fálica ascendente na Grécia e em Roma, ele se torna incompreensível, defende Deleuze.

E àtodosàosàluga esà osàa tigosà itosàeàle das,àBa hofe àe o t aàt aços de conflitos e t eàoà at ia adoàeàoàpat ia ado (GEYSKENS, 2010, p. 111), e sua bizarra teoria da história é a seguinte. Três períodos marcavam a história: o hetairismo primitivo, a ginocracia - estes dois primeiros momentos nos quais predominava o matriarcado – e o patriarcado moderno. No i í io,à po aàdaà elaà atu eza ,àaà elaç oàe t eàoàho e àeàaà ulhe àti haà aàigualdadeàsuaà única lei, incestuoso mundo de Afrodite. Até que irrompe uma catástrofe glacial: mudam-se os modos de vida e finda o incesto como modo relacional – não por repressão, mas por alteração na organização social pós-incidente climático. No estabelecimento de uma sociedade agrícola, inicia-se a época de Deméter e o governo das amazonas sobre os homens – época de precário esplendor e perfeição ! Naà figu aà deà De te ,à aà deusaà doà segu doà pe íodoà at ia al ,à dizà Ge ske s,à Maso hà des o eà oà idealà deà u aà f ia,à se e aà M e,à ujaà f iezaà esisteà aoà aleg eà paga is oà deà áf oditeà eà ujaà ate idadeà aià o t aà aà o de à pat ia al (idem). Época supe adaà à fo çaà o à aà leià pat ia al,à ueà daíà e à diante proíbe o incesto com a mãe sob a a eaçaàdaà ast aç o (KERSLAKE, 2007, p. 78). Início da modernidade, à qual Deleuze opõe com Sacher-Masoch prognósticos e conceitos junguianos:

Mas o que é propriamente masoquista é a fantasia regressiva pela qual Masoch sonha em se servir do patriarcado nele mesmo para restaurar a ginocracia, e da ginocracia para restaurar o comunismo primitivo. Aquele que desenterra Anima saberá como torcer as estruturas patriarcais em seu benefício e redescobrir a potência da mãe devoradora (DELEUZE, 2007, p. 3; negrito nosso).

ái da,à u aàide tidadeà àesta ele idaàe t eàaà e,àaàestepeàeàaà atu eza,à a a te izadaà pelaà se e idade,à ueldadeà deà ate idade (GEYSKENS, 2010, p. 111). Herdada por Sacher- Masoch de Bachofen, esta identificação da natureza fria e severa com a Mãe que, glacial, acolhe seus filhos, não deve ser lida como uma projeção do escritor da imago materna na natureza, como quis Freud em seu Problema Econômico do masoquismo,àpa aà ue à todosàa uelesà ueà at i ue àosàa o te i e tosàdesteà u doà àP o id ia,àaàDeus,àouàaàDeusàeà àNatu eza à aà e dade,à e e ga à essesà pode esà e t e osà eà lo gí uosà deà fo aà itol gi aà eà seà creem ligados a eles por liames libidinosos, co oà seà seà t atasseà deà seusà pais .à áà atu ezaà oà à metáfora da mãe. Não são as alcovas da história pessoal de Masoch os determinantes de seus

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si to as,à asàestesàgoza àdeàu à a te ài pessoal.à Meusàsi to asàago aà epete àt açosàfo aà doàte poàdaà atu eza . áào sess oàpessoalàdeàMaso hàto a-se expressão de uma afinidade

eterna e t eàpai oàeà ueldade (GEYSKENS, 2010, p. 112). Neste sentido, a fantasia masoquista expressa algo de pré-cultural, anterior à linguagem. Esta noção de natureza virtual, arcaica,

primeira, supra-histórica, fora do tempo, ontológica é um traço, como sugeriu Kazarian, de textos produzidos por Deleuze nas décadas de 50 e 60157.

6.4.3. Crítica de Deleuze ao postulado freudiano da função paterna na gênese da fantasia: da mítica inversão dialética de Pulsões e seus destinos (1915) à etiologia de Bate-se numa

criança (1919)

No texto de 1915, As pulsões e seus destinos, o masoquismo e o sadismo são trabalhados por Freud em sua tentativa de precisar o indispensável conceito de pulsão, até então, obscuro - conceito-limite entre a biologia, como sua fonte, e a psicanálise, como seu destino. Masoquismo e sadismo, quando mobilizados no interior deste escopo teórico, são modos de satisfação das pulsões. Originárias de fontes orgânicas múltiplas e anteriores à organização genital do corpo, as pulsões são independentes em seus modos de satisfação: ao incremento de excitação no aparelho psíquico, elas respondem de modos tão variáveis quanto são suas origens. Os objetos ao qual irão ligar-se para se satisfazerem, para que predomine a constância energética no psiquismo – o prazer regendo este domínio como o seu princípio –, é oàele e toà aisà a i elà na pulsão e não está originalmente vinculado a ela, sendo-lhe apenas acrescentado em razão de suaàaptid oàpa aàp opi ia àsatisfaç o à F‘EUD,à ,àp.à .àF eudàsuste taàaàteseàdeàpuls esà originariamente sádicas no psiquismo: humilhar, subjugar, praticar a violência, são suas metas, um objeto é buscado para serem agidos, a dor nada tem a ver com isso - áà ia çaàs di aà oà le aàe à o taàaài posiç oàdeàdo àeà oàte àesseàp op sito ide ,àp. .àOàe e í ioàdoàpode à descreverá a qualidade ativa deste movimento pulsional (e, neste sentido, Freud está perto de Krafft-Ebbing).

O verbo humilhar exige, por preconceito gramatical, alguém feito objeto ou paciente de tal ato. Alguém externo ao eu, em princípio, até que o objeto da atividade da pulsão torne-se o próprio eu devido à inversão dialética, mitológica - o teórico Freud não busca suas causas neste texto. Mas a pulsão não se exerce sobre o eu, sem que dela o eu padeça, passivo. Corresponde a

157 Cf. KAZARIAN, 2009, p. 117

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esta mudança objetal, portanto, uma mudança de meta: da atividade característica do exercício da pulsão sádica à passividade sofrida pelo eu masoquista tornado objeto. Certa repartição de lugares no psiquismo é pressuposta por Freud, desenvolvida ulteriormente em O eu e o isso (1923) numa topologia que lhe permitirá pensar uma instância que age e outra que padece: o supereu atuando sua pulsão sádica sobre o eu. Aqui, o destino da pulsão incidindo sobre o próprio eu é nomeada neurose obsessiva eàdes itaàpo àF eudà o oàu aà ozà diaà efle i a :àaà pulsão da pessoa age contra a própria pessoa158. Finalmente, um terceiro estágio dos destinos sadomasoquistas da pulsão: após a mudança de objeto da pulsão - de fora do eu ao próprio eu - e da meta ativa em passiva, convida-se um outro a exercer a atividade: um sujeito sádico para um masoquista seu objeto. Apenas este terceiro estágio constituiria a experiência masoquista: o eu subjugado humilhado pelo sádico num feliz encontro.

A passividade sofrida em seu corpo-objeto é um fenômeno menor; o masoquista não goza aí, mas gozaria, para Freud, identificado ao gozo ativo de seu carrasco na sua fantasia, fruindo da fúria contra sua própria pessoa. O essencial é: mudança de objeto sem alteração da

meta, o sadismo original sendo a via, na fantasia, de satisfação da pulsão (FREUD, 1915, p. 65). Esta primeira hipótese aventada por Freud funda-se no poder (dominar, humilhar) e na atividade e passividade a regular os instintos, cega à importância dos sentimentos de prazer e dor nos destinos das pulsões. A dor do masoquista transbordada em prazer, Freud disto dirá um acontecimento secundário: longe de ser a finalidade de sua posição – buscar a dor (o que o obrigaria a problematizar o prazer como um princípio) –, o sujeito já assumia uma posição masoquista, assujeitada, antes de experimentá-la. Uma vez vivida à passagem da dor intensa ao

prazer, aí então, o masoquista poderá elegê-la como meta (masoquismo erógeno). O destino da pulsão está candidato ainda a mais uma volta: estando a pulsão ativa vinculada aos prazeres e às dores, pode-se explicar o prazer do sádico não apenas com o exercício ativo da dominação, mas à sua identificação ao outro que goza sofrendo159.

Explicava-se, num primeiro momento, a satisfação masoquista pela identificação fantasmática com a figura do sádico agindo sua força; agora, tendo a dor aderido ao corpo, a satisfação sádica é dialeticamente explicada pela identificação fantasmática ao doído prazer masoquista. Mas Freud refreia esta ideia de um masoquismo originário, encerrando o passe-

158 Na neurose obsessiva, segundo Freud, seàe o t aàoà olta -se contra a própria pessoa sem a passividade [...] A ânsia de atormentar torna-se tormento de si mesmo, castigo de si, e não masoquismo. O verbo ativo não seàt a sfo aà oàpassi o,à asà u à dioà efle i o à F‘EUD,à ,àp.à .

159Freud diz: Qua doàse ti àdo esàse torna uma meta masoquista, pode surgir também, retroativamente, a meta sádica de infligir dores, que o próprio indivíduo, ao suscitá-la em outros, frui masoquistamente na ide tifi aç oà o àoào jetoàsof edo à F‘EUD,à ,àP.à .

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passe dialético. São restaurados os direitos do sadis o,àaà aisào igi iaàdasà etas:à f ui àaàdo à seria uma meta originalmente masoquista que, no entanto, só se tornaria uma meta instintual em alguém originalmente sádico à F‘EUD,à ,à p.à ; negritos nossos). Deleuze o critica exatamente neste ponto:

Freud invocava a hip teseà deà u aà o-e itaç oà li idi al ,à segu doà aà ualà osà processos e excitações ultrapassando certos limites quantitativos eram erotizados. Uma tal hipótese reconhece a existência de um fundo masoquista irredutível. É por isso que, desde sua primeira interpretação, Freud não se contenta em dizer que o masoquismo é o sadismo retornado; ele afirma, igualmente, que o sadismo é o masoquismo projetado, já que o prazer do sádico reside apenas no prazer às dores que faz sofrer a outrem na medida onde ele, nele mes oà i euà aso uista e te à a ligação dor-p aze .àF eudà oàdei aàdeà a te à o àissoàoàp i adoàdoàsadis o à (DELEUZE, 1967, p. 91; grifos nossos).

As consequências teóricas de tal gesto ressoam em escritos posteriores como Bate-se

numa criança (1919). O incômodo de Deleuze é menos com a manutenção do sadismo originário

– em 1919, sua transformação em passividade masoquista torna-se compreensível pela teoria do recalque e pelo surgimento de uma consciência de culpabilidade saída do Édipo (a necessidade de inversão dos destinos pulsionais não é mais um mito) -, e mais com a primazia ao papel do pai nos dois tipos de fantasias de espancamento analisadas por Freud, tanto as construídas em análise pelas meninas, quanto a relatada por seu único caso do sexo masculino:à nos dois casos a fa tasiaàdeàespa a e toàde i aàdeàu aàligaç oài estuosaà o àoàpai à F‘EUD,à .àNosàdoisà casos, tão distintos como os gêneros que constitui - o menino e sua sexualidade vinculada à feminilidade, logo à passividade (como quis a tinta aqui misógina de Freud); a menina e sua sexualidade viril, vinculada à atividade -; para estas sexualidades tão diferentes, mas expressas,

igualmente, em fantasmas de punição, o psicanalista quererá encontrar o mesmo fundo: o pai

como primeiro o objeto de amor. O pai tornado na fantasia o carrasco: travestido de indivíduo adulto ou de professor, para elas, e com vestes de mulher, chicotes e peles, para eles – numa interpretação que faz da mãe mera coadjuvante. Abstração grosseira, suspeitava Deleuze munido de seus métodos bergsonianos.

Mas como Freud descreve estas fantasias? Vimos que o masoquismo seria o terceiro estádio do desenvolvimento da pulsão sádica em As pulsões e seus destinos: a pulsão sádica encontrou o não-eu como seu primeiro objeto, ativa; num primeiro passe dialético, o objeto é alterado e ela toma o próprio eu como objeto, não se podendo dizê-la verdadeiramente ativa, pois é o eu (Freud diz: a própria pessoa), neurótico obsessivo, que exerce a ação sobre ele mesmo, padecendo – o melhor sendo caracterizar a ação da pulsão de reflexiva; e um terceiro momento, em que a pulsão de humilhação encontrou um carrasco para exercer sua atividade

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sobre o eu, momento propriamente masoquista. Este movimento em seus três momentos será vinculado aos casos analisados por Freud em Bate-se numa criança, descrevendo os processos de constituição da fantasia masoquista nas cinco meninas por ele analisadas, e em seu único caso masculino. Nelas quanto neles, bater significa amar. A origem desta mistura? O ciúme.

A menina ama o pai; o pai não deve, para ela, amar outras pessoas, mãe e irmãos. Ela odeia estes outros e viveria esta pulsão sádica caso uma força de origem social não a impedisse; recalca, então, a agressividade contra os outros, e a solução encontrada pelo psiquismo é fazê-la abater-se sobre o eu: sou batida, ela, então, formularia. Alguém bate em mim - a menina formularia -, caso não intervisse um novo recalque: recalque não apenas do sadismo que ela dirigiria ao mundo exterior, agora retornado contra si, mas do objeto sobre o qual incidira esta agressividade retornada: aquele em quem se bate eu desconheço; é uma criança qualquer. Último movimento defensivo de mascaramento: um adulto do sexo masculino bate num ou em vários meninos . Este adulto: o pai travestido. Estes muitos meninos: a menina viril.

Da análise das meninas, Freud passa a dos meninos. O recalque neles não é tão forte: quando o menino formula que uma criança é batida, sabe ser ele o punido. Mas o que é que sua fantasia se esforça em esconder, simbolizando-o? Sua homossexualidade constitutiva; o amor pelo pai. Para que a pulsão sádica o tome como objeto tendo outro ator como sujeito, este ator não poderá nunca ser o pai, objeto de amor e de ciúme. Colocar o pai em cena na conclusão do fantasma o pai bate em mim explicitaria sua demanda de amor. Quem deve então bater? A mãe. A mãe, ou outra figura feminina, a quem o amor pode endereçar-se sem ameaçar a heterossexualidade do sujeito. A mãe é quem me bate; mas quando usa o chicote, seus direitos punitivos são metáforas do pai: ela faz como se. Deleuze não pode concordar com isso: os direitos da mãe, não sendo senão metáfora, não forçam na análise do masoquismo um mito inteiramente outro. Será por via de Jung que Deleuze tentará fazê-lo.

6.5. Jung