Os estudos da marcha em hemiplégicos no solo, realizaram a avaliação das variáveis temporais para determinar o tempo de duração das fases e subfases durante o ciclo do andar. De forma geral, a assimetria após o AVC é observada através destas diferenças temporais nas fases do ciclo da marcha, que ocorrem no lado parético e no membro não parético, tanto na
fase inicial da recuperação como a longo prazo (TURNBULL; WALL, 1995). Mais ainda, a comparação das porcentagens de duração do ciclo feitas em pacientes hemiplégicos e em indivíduos saudáveis revelou maiores diferenças para o membro não parético (pacientes hemiplégicos) do que para o membro parético, quando comparados com a duração dos eventos em sujeitos sem alteração do movimento (VON SCHROEDER; COUTTS; LYDEN; BILLINGS, 1995). A perna não parética apresenta aumento na porcentagem de duração da fase de suporte e diminuição no período do balanço, uma vez que, neste período o hemiplégico avança rapidamente a perna não parética, para evitar que todo o peso seja suportado sobre o membro parético. Tal fato deve-se, provavelmente, ao trabalho realizado para compensar o hemicorpo acometido e permitir a realização da marcha (DEGANI, 2000). A Figura 2 apresenta a representação esquemática destes eventos, na marcha dos hemiplégicos.
Peat, Dubo, Winter, Quanbury, Steinke e Grahame (1976), encontraram uma porcentagem de 67% na fase de apoio e 33% no balanço na extremidade parética, e de 80% e 20%, respectivamente, no lado não parético, sendo estas porcentagens diferentes das reportadas para sujeitos normais durante o suporte (≈60%) e o balanço (≈40%). Estes dados mostram que, como mecanismo compensatório, a extremidade menos afetada sofre aumento no tempo total de apoio e diminuição no balanço, provocando assim uma assimetria temporal entre os membros inferiores.
Em hemiplégicos, os valores encontrados para a duração do duplo suporte (DS) e suporte simples (SS) também foram diferentes dos reportados em sujeitos normais, os quais mostraram uma porcentagem de (≈20%) no DS e de (≈30-40%) no SS. Barela, Whitall, Black e Clark (2000) encontraram que nos hemiplégicos, o tempo total do DS para os dois membros inferiores foi ao redor de 43%. A porcentagem específica para o primeiro e segundo duplo suporte no lado parético foi de 18,5% e 25,9%, entretanto, para o membro não parético foi de 26,5% e 16% respectivamente. A maior porcentagem no segundo duplo suporte do membro parético se deve, provavelmente, a que o paciente precisa de um tempo maior para preparar o avanço da perna não parética, devido à dificuldade para propulsar o centro de massa para frente. Outras mudanças acontecem no início e no final da fase de suporte, demonstrando a assimetria temporal dos eventos para os dois membros inferiores. O toque de calcanhar do membro não parético ocorre depois da metade do ciclo (61,6%) e, o contato inicial do lado parético antes da metade do ciclo (39,8%). Igualmente, a perda de contacto ocorre no membro não parético durante 77,1% do ciclo e no lado parético durante 65,7% do ciclo (BARELA; WHITALL; BLACK; CLARK, 2000).
Ainda, a duração do SS foi de 21,3% para a perna parética e de 34,8% para a perna menos afetada (BARELA; WHITALL; BLACK; CLARK, 2000). Estes resultados indicam que o membro parético tem um menor tempo de apoio monopodal e um aumento no tempo do
duplo suporte, revelando a assimetria e alteração na organização temporal na marcha do hemiplégico. Pai, Rogers, Hedman e Hanke (1994) verificaram estas mudanças nos dois membros inferiores dos hemiplégicos, analisando a capacidade para transferir o peso de uma perna para outra e manter a carga no SS. Estes autores encontraram que no lado parético em 80% das tentativas, os pacientes não conseguiram realizar a transferência e sustentação do peso, no entanto, no membro não parético em 52% das tentativas realizadas estes eventos se apresentaram mais tardiamente.
Os resultados destas variáveis temporais da marcha no hemiplégico também têm sido utilizados para determinar os índices de simetria e os coeficientes de variabilidade no andar hemiplégico (KIM; ENG, 2003; TITIANOVA; PITKÄNEN; PÄÄKKÖNEN; SIVENIUS; TARKKA, 2003; WALL; TURNBULL, 1986). Em sujeitos normais, os valores destes índices ficam perto de 1, demonstrando simetria na organização temporal da marcha. Em hemiplégicos foram reportados valores diferentes, com índices de 0,90 na fase de suporte, de 1,23 na fase de balanço, 0,84 no primeiro duplo suporte e no suporte simples e de 1,15 no segundo duplo suporte (DEGANI, 2000). Estes resultados são especialmente significativos, porque representam o nível de controle e o grau de deficiência durante a marcha. De forma específica, o índice para a fase de balanço da perna não parética tem relação com a capacidade do lado acometido de permanecer em apoio unipodal durante a subfase de suporte simples. No entanto, o índice na fase de balanço da perna parética mostra as dificuldades deste membro em reverter a sinergia extensora anormal e avançar o segmento como um pêndulo (KIM; ENG, 2003).
Por outra parte, todas as alterações na organização temporal salientadas anteriormente afetam o relacionamento intermembros, já que os eventos que acontecem em um membro estão influenciados e relacionados ao comportamento do outro membro. Desta forma, a coordenação intermembros permite verificar a simetria no andar através da alternância entre
as fases de suporte e balanço. A coordenação intermembros representa um movimento 50% fora de fase, ou seja, em um determinado evento do ciclo da marcha, um membro está 50% à frente ou atrás do outro membro (FREITAS JUNIOR; BARELA, 2000). Isto significa que, quando um membro inferior está na fase de suporte, a outra extremidade inicia o balanço.
Estas alterações no acoplamento intermembros foram verificadas mediante as diferenças temporais na ocorrência das fases da marcha nos hemiplégicos. Nestes pacientes, a relação está alterada devido à diminuição, tanto da fase de apoio na perna parética, como da fase de balanço na extremidade não afetada, o que compromete a coordenação intermembros em ambas extremidades (TELLINI; SAAD, 1997). Barela, Whitall, Black e Clark (2000) verificaram que no lado parético, o toque de calcanhar e a perda de contato ocorrem mais tardiamente, possivelmente devido ao aumento na duração da fase de suporte do lado não parético, sendo esta uma forma de reorganização intermembros para conseguir realizar a marcha.