A maioria dos estudos desenvolvidos em Fortaleza, Ce tem sido elaborada por geógrafos, focando sempre as alterações no clima urbano e as variáveis urbanas que as
impulsionam com o objetivo de auxiliar no planejamento urbano. Dessa forma, concentram-se mais no campo termodinâmico do clima urbano. Entretanto, no que diz respeito à quantificação do nível de conforto térmico, ainda são muito poucos os que chegam a avaliá-lo quantitativamente.
Repelli et al. (1997) investigam o motivo da sensação de desconforto da população, manifestada principalmente nos períodos que antecedem os meses chuvosos, através da aplicação do índice de Temperatura Aparente (calculado como Índice de Calor –
HI). Na avaliação das flutuações diárias e sazonais, utilizam os dados diários de temperatura
máxima do ar e umidade relativa às 15:00h da estação meteorológica da FUNCEME, no período de janeiro a dezembro de 1996. Os autores observaram que a umidade é um dos principais parâmetros utilizados para medir o nível de conforto ambiental, podendo ser um bom regulador da sensação térmica.
Goulart, Lamberts e Firmino (1998), visando integrar os dados climáticos em todos os níveis do projeto arquitetônico, tomam como base a metodologia adotada por ASHRAE na determinação de um dia típico de projeto. Para cada dia típico, são listados os valores horários de temperatura do ar, umidade relativa, nebulosidade (ou radiação solar), direção e velocidade do vento. Para essa finalidade, usam dados de 1961 a 1970 da Estação Meteorológica do Aeroporto Internacional Pinto Martins, dentro de um perfil de 24h.
Moura e Sales (2005) buscando definir as condições de conforto térmico na Lagoa da Sapiranga e no bairro Centro, através da análise de variáveis climáticas, realizam medições de temperatura, umidade, nebulosidade e velocidade e direção dos ventos no perfil de 24h durante as estações chuvosa e seca. Através da aplicação do índice de Temperatura Efetiva (calculado como Índice de Desconforto - DI) observam que as condições de estresse devido ao calor são predominantes entre 07:00 e 19:00h. Em 2008, Moura dá continuidade a esse estudo e amplia a análise a fim de caracterizar o clima produzido pela cidade de Fortaleza e seu efeito no nível de conforto térmico.
Paiva (2010) analisa os contrastes microclimáticos de um conjunto habitacional e a influência do uso e ocupação do solo nesses parâmetros climáticos e no nível de conforto. Para tanto realiza medições de dados de temperatura e umidade do ar, velocidade e direção dos ventos e nebulosidade às 06:00, 09:00,12:00,15:00,18:00 e 21:00h durante os períodos chuvoso e seco e aplica os índices de Temperatura Efetiva (calculada como DI) e o Diagrama do Conforto Humano do INMET, constatando que os pontos de maior densidade de construções são os mais desfavoráveis ao conforto térmico.
Maciel, Nascimento e Zanella (2012) analisam o conforto térmico nos terminais de ônibus do Conjunto Ceará, Parangaba e Messejana através do índice de Temperatura Aparente (calculada como Índice de Calor – HI), não constatando nenhum nível de periculosidade. Paiva e Zanella (2012) comparam a aplicabilidade do Diagrama do Conforto Térmico do INMET e do Índice de Temperatura Aparente (calculado como HI) e verificam que nenhum dos índices é adequado ao clima de Fortaleza. O primeiro devido à sua deficiência na incorporação da componente velocidade dos ventos e o segundo, por superestimar o efeito da umidade.
No mesmo ano, Moura e Zanella (2012) propõem a identificação de anos-padrão que melhor representem os eventos de conforto e desconforto térmico a partir da utilização do índice de Temperatura Efetiva (calculada com DI). Toma como base os dados horários de temperatura de bulbo seco e úmido da Estação Meteorológica do Campus do Pici-UFC entre os anos de 1974 a 2009. Os autores identificam o ano de 1974 como o Ano Extremo do Conforto e o de 1998 como o Extremo de Desconforto e consideram o de 2006 como o ano Habitual.
Paiva e Zanella (2013) analisam a influência do uso e ocupação do solo no conforto térmico humano na região central do bairro Messejana através da aplicação dos índices de Temperatura Efetiva Corrigida e Temperatura Aparente (calculada como HI).
Petalas e Mota (2013) verificam o comportamento térmico horário e mensal da sensação térmica da população a partir da aplicação do índice PMV, usando os dados horários e mensais da Estação Meteorológica do Aeroporto Internacional Pinto Martins entre 1991 e 2010. Também avaliam a preferência térmica da população por meio de entrevistas.
Os autores observam que no início da manhã, a sensação térmica é de levemente aquecido, passando a muito quente entre 10:00 e 15:00h. Começa a diminuir a partir das 13:00h e se estabiliza após 18:00h como levemente aquecido. Também verificam que a sensação térmica é mais agradável nos messes de Junho e Julho, passando de quente para levemente aquecido e que o desconforto começa a aumentar em Agosto e alcança o seu valor máximo em Outubro, corroborando com as respostas dadas pela população.
Além dos trabalhos citados acima, não se pode deixar de mencionar os de Santana (1997) e o de Costa Filho (2010) por verificarem de forma qualitativa o efeito da morfologia urbana e dos usos do solo no conforto térmico humano; o de Branco, Zanella e Sales (2012) pela importância atribuída às áreas verdes na redução da carga térmica imposta aos seres humanos; e os de Hissa (2000) e Lopes, Fontenelle e Araújo (2011) que apesar de avaliarem o conforto térmico dentro da habitação ressaltam a importância do meio externo na
determinação dessa variável e apontam para a necessidade de se considerar o entorno, principalmente no que diz respeito ao comportamento da insolação e ventilação.
Também deve ser mencionado o estudo realizado por Pereira e Assis (2009), no qual são abordados os modelos adaptativos de conforto para o meio interno. Com o propósito de identificar qual modelo é o mais adequado às condições climáticas brasileiras, os autores avaliam as condições de conforto em três cidades de diferentes condições climáticas, dentre elas, Fortaleza, Ce; entretanto, tomam como parâmetros os limites de conforto definidos por Araújo (1996 apud PEREIRA; ASSIS, 2009) para a cidade de Natal, RN.
Observando a ordem cronológica, verifica-se um crescimento no interesse de avaliar as componentes termodinâmicas do clima não só com relação à sua transformação e produção, mas também no que diz respeito à percepção humana. Uma vez que esse é o nível fundamental de resolução climática e o ponto para onde convergem e se associam todas as outras componentes, os trabalhos realizados são referenciais básicos para que se aja no meio urbano, conforme sugerido por Monteiro e Mendonça (2011).
A maioria das aplicações é feita com índices empíricos e algumas pesquisas revelam a sua não adequação às características climáticas locais. O capítulo que se segue descreve a metodologia utilizada nesse estudo para a caracterização bioclimática de Fortaleza, a identificação de índices mais adequados à realidade local, a verificação da necessidade de ajustes e a investigação das características térmicas da população.