5. Analyse
5.2 Digitalisering – i et sosioteknisk perspektiv
Para Marcuse, a grande contribuição dada por Marx nos Manuscritos Econômico-
Filosóficos foi a descrição da “auto-realização” dos seres humanos nos termos da “unidade
entre o pensamento e o ser”. Porém, o problema para Marx não era mais de ordem filosófica porque a abolição do modo de trabalho alienado não poderia ser produzida pela filosofia; “a crítica começa em termos filosóficos porque a escravização do trabalho e sua libertação são condições que (...) afetam as bases mesmas da existência humana” 712. Marx deu o passo decisivo que conduziu da filosofia à teoria social por meio da demonstração de que os conceitos da filosofia só se realizam por meio de uma prática social; e essa prática deve intervir nas próprias relações de trabalho.
A filosofia atinge sua meta quando formula a visão de um mundo no qual se realiza a razão (...) A verdade exigiria a prática histórica real para realizar o ideal; ao deixar este de lado, a filosofia renuncia à sua tarefa crítica, transferindo-a a uma outra força. O ápice da filosofia é, pois, ao mesmo tempo sua renúncia (...) O pensar
711
BLOCH, Ernst, 2006, p. 249-50. 712
crítico (...) assume nova forma. Os esforços da razão voltam-se para a teoria social e para a prática social.713
Na segunda parte de Razão e Revolução, intitulada “O advento da teoria social”, Marcuse confronta a apreensão hegeliana do conceito de “trabalho” com a de Marx e esboça a concepção de “teoria social”. Essa passagem da filosofia à teoria social se estabelece sobre as bases mesmas elaboradas por Hegel, mas só é completada com Marx, com sua análise da
forma especificamente social do trabalho na sociedade capitalista. No entanto, já em Hegel
podemos encontrar os primeiros indícios da penetração do social na análise filosófica, tal como nos mostra Marcuse. Vamos buscar, apoiando-nos nos textos de Marcuse, a origem e desenvolvimento desse conceito do trabalho, o que nos permitirá acompanhar o movimento “da filosofia até a teoria social” mostrando a imanência da questão social na filosofia, assim como os seus limites.
O conceito de “trabalho” não é um conceito periférico no sistema de Hegel, mas é justamente o conceito central de sua filosofia social, por meio do qual ele concebe o desenvolvimento da sociedade. Hegel “enfoca o processo de trabalho como a força decisiva
para o desenvolvimento da cultura” 714, sendo ele responsável pelos diversos tipos de
integração na sociedade humana (família, sociedade civil, Estado).
A primeira interpretação do conceito de trabalho aparece na filosofia de Hegel no
Sistema de Iena (1802-6), no estágio da “Filosofia do Espírito”, lugar onde ele define o
processo de trabalho como o modo pelo qual “os objetos [são] incorporados ao mundo subjetivo”, na medida em que não sejam “mais coisas mortas, mas pertencem, na sua totalidade, à esfera da auto-realização do sujeito” 715, sendo fabricados e organizados pelos indivíduos e tornando-se parte de sua personalidade. Com isto, “a natureza instala-se na história do homem” e a história passa a ser essencialmente “história humana” 716.
A ação do trabalho é a própria atividade da “mediação”. Pelo trabalho “o homem vence a separação dos mundos objetivos e subjetivos”, transformando “a natureza em um meio adequado ao seu próprio desenvolvimento” 717.
No Sistema de Iena, a descrição ontológica do conceito de trabalho se torna “saturada de conteúdo social”. Hegel descreve o modo de trabalho na moderna produção de mercadorias e se aproxima da análise marxista do trabalho “abstrato e universal”; ele deu os 713 Idem, ibidem, p. 39-40. 714 Idem, p. 81. 715 Idem, p. 81. 716 Idem, p. 81. 717 Idem, p. 82
primeiros passos do que seria posteriormente retomado e aprofundado por Marx. Segundo Marcuse, Hegel “descreve o modo de integração dominante na sociedade de produção de mercadorias em termos que prefiguram a abordagem crítica de Marx” 718. Ao fazê-lo, Hegel faz entrar na filosofia um fato material, a emergência da “sociedade do trabalho” e a transformação do trabalho em “valor social”.
Para Hegel, na “sociedade moderna” o indivíduo não satisfaz suas necessidades por meio do produto de seu trabalho, mas por meio do próprio trabalho. O produto do trabalho, o “objeto particular”, torna-se “objeto universal” (torna-se, em termos marxistas, “mercadoria”), assim como o sujeito trabalhador também é transformado em sua atividade individual. O valor de seu trabalho é determinado não pelo que essa atividade representa para o próprio indivíduo, mas pelo que ela representa para a reprodução da sociedade. O trabalho torna-se “trabalho abstrato e universal” e este só se liga às necessidades concretas individuais pelas “relações de troca” no mercado 719, pois apenas por meio da “troca” os indivíduos adquirem os produtos necessários à satisfação de suas carências e à sua sobrevivência.
A análise de Hegel torna evidente que o “trabalho abstrato” não pode desenvolver as verdadeiras faculdades dos indivíduos; a “mecanização” que poderia libertar os indivíduos do trabalho penoso acaba por torná-lo um escravo do próprio trabalho 720. A “máquina” não reduz a necessidade da labuta para o indivíduo, pois “o valor do trabalho decresce na mesma proporção que cresce a produtividade do trabalho”721. No sistema produtor de mercadorias “o trabalho deixa de ser auto-realização e torna-se auto-negação”. A análise de Hegel prossegue no sentido de buscar o “Conceito” de um Estado forte Ideal que assegurasse a harmonia entre o indivíduo e a sociedade.
Na Fenomenologia do Espírito Hegel dá continuidade à análise do trabalho na discussão sobre a relação entre “senhor e escravo”, onde “o conceito de trabalho desempenha um papel central nesta discussão, na qual Hegel mostra que os objetos do trabalho não são coisas mortas, mas concretizações vivas da essência do sujeito: ao lidar com tais objetos ele
está lidando com o próprio homem” 722. Essa discussão aparece no âmbito da análise da
“autoconsciência” (“Consciência de si”) na qual o indivíduo só existe em seu “ser-para- outro” e esta relação não é de harmonia, mas de dominação, é uma luta entre indivíduos diferentes. 718 Idem, p. 82-3. 719 Idem, p. 83. 720 Idem, p. 84. 721
Hegel citado por MARCUSE, H., 1978, p. 84. 722
Hegel revelou que a condição de senhor e de escravo são resultantes da necessidade de certas relações de trabalho, que são relações em um mundo reificado, e essa “relação entre senhor e escravo não é eterna nem natural, mas se enraíza num modo definido de trabalho, e
na relação do homem ao produto de seu trabalho” 723. Segundo esta concepção “a
dependência entre os homens (...) é mediatizada pelas coisas” e ela é “conseqüência da relação do homem aos produtos de seu trabalho”; “o trabalho acorrenta o trabalhador às coisas” de tal modo que a sua consciência “só existe como coisidade” 724. Nos Manuscritos
Econômico-Filosóficos, Marx desenvolve o conceito de “trabalho” a partir das definições
dadas na Fenomenologia do Espírito.
Para Marx, as contribuições decisivas do conceito de “trabalho” de Hegel revelam-se na afirmação de que “a divisão do trabalho e a interdependência geral do trabalho individual, por meio de um padrão de necessidades, determina também o sistema do estado e da sociedade”; que “o processo de trabalho determina o desenvolvimento da consciência” e, principalmente, na “demonstração do papel do trabalho, do processo de reificação e da sua abolição” 725. No entanto, para ele, “o valor [dessa] demonstração fica perdido”, pois, em Hegel a unidade entre sujeito e objeto já foi consumada e o processo de reificação superado; “os antagonismos da sociedade encontram uma solução no Estado monárquico” e “todas as contradições são reconciliadas na esfera do pensamento puro ou do espírito absoluto” 726. Neste momento, a teoria marxista torna-se “negação da filosofia”.
Marx mostrou que a existência do proletariado “dá testemunho vivo de que a verdade não foi realizada”, que seu destino é a própria negação das potencialidades humanas e seu trabalho não lhe pertence. Ele representa a injustiça e o sofrimento universal e, sendo assim, “a crítica da sociedade não pode mais progredir por meio da doutrina filosófica, mas torna-se tarefa da prática sócio histórica” 727. O sistema de Hegel aparece como “a última grande expressão do idealismo filosófico”, “a última tentativa de fazer do pensamento o refúgio da razão e da liberdade”. Este movimento interno ao pensamento de Hegel está explícito na seguinte afirmação de Marcuse:
O sistema de Hegel levou a têrmo o período da filosofia que começara com Descartes e dera corpo às idéias básicas da sociedade moderna. Hegel foi o último a interpretar o mundo como razão, a
723
Idem, p. 116. Hegel tem em mente o “trabalho” do artesão. 724 Idem, p. 116. 725 Idem, p. 240-1. 726 Idem, p. 241. 727
sujeitar a natureza e a história aos critérios do pensamento e da liberdade. Ao mesmo tempo, ele identificou a ordem política e social efetuada pelos homens com a base sobre [a qual] se deveria realizar a razão. Seu sistema trouxera a filosofia ao limiar da negação da filosofia, constituindo por isso o único elo entre as formas da velha e da nova teoria crítica, entre a filosofia e a teoria social.728
Segundo Marcuse, a teoria materialista e histórica de Marx “contradiz plenamente a concepção básica da filosofia idealista” ao suplantar a idéia de “razão” pela de “felicidade”. Em Hegel a sociedade organizada segundo os padrões da razão significa o sacrifício das necessidades e desejos individuais em prol da coletividade e do bom ordenamento do todo. Ele negara que o “progresso da razão tivesse qualquer coisa a ver com a realização da felicidade individual” 729. Já a idéia da realização livre e universal da “felicidade” presente no materialismo marxista se enraíza na “exigência de satisfação material dos indivíduos” 730. Nisto consiste a atitude revolucionária presente no materialismo histórico, “ela é revolucionária na medida em que é materialista, na medida em que permite transferir a definição de liberdade e felicidade da esfera da consciência para a satisfação material” 731.
Este mesmo sentido de “felicidade” é exigido pelo termo “valor de uso” empregado na crítica da economia política. A introdução dessa categoria pela teoria marxista foi a “introdução de um fator esquecido” que se torna o “instrumento que penetra a reificação mistificante do mundo das mercadorias”. A restauração dessa categoria no centro da análise econômica significa um “questionar a fundo sobre o processo econômico para verificar se e como ele atende às necessidades reais dos indivíduos” e “este questionar revela as condições humanas efetivas e ordenadas por leis econômicas incontroláveis” 732.
A pergunta pelo sentido do modo de trabalho atual em relação ao desenvolvimento do homem fez com que a teoria marxista abandonasse o terreno da Economia Política. O trabalho, “longe de ser uma mera atividade econômica”, é uma “atividade existencial do homem”, “meio de conservação de sua vida e de desenvolvimento de sua natureza universal”
733
. Entretanto, com a divisão do trabalho na sociedade capitalista, o trabalho se torna oposto à realização da “essência humana” e às aptidões individuais, pois a vida dos indivíduos se torna “determinada e dependente das leis da produção capitalista de mercadorias”, sob as 728 Idem, p. 232. 729 Idem, p. 269 730 Idem, p. 270. 731
MARCUSE, H., “O Existencialismo: comentários a O Ser e o Nada”. In: MARCUSE, H., Cultura e
Sociedade, vol. 2. São Paulo: Paz e Terra, 1998b, p. 78.
732
MARCUSE, H., 1978, p. 278. 733
quais “o produto do trabalho, a mercadoria, parece determinar a natureza e o fim da atividade humana” e “os utensílios que deveriam servir à vida passam a dominar seu conteúdo e sua meta, e a consciência do homem fica totalmente à mercê das relações materiais de produção”
734
.
A análise marxista do conceito de trabalho sob o capitalismo vai além das estruturas
das relações econômicas e atinge as próprias relações humanas. Os textos do jovem Marx,
principalmente os Manuscritos onde é caracterizada a forma de trabalho no capitalismo como constituindo a “alienação total”, constituem para Marcuse a “primeira constatação explícita do processo de reificação” pelo qual as relações entre pessoas se transformaram em relações entre coisas. Em O Capital esse processo será caracterizado como “fetichismo da mercadoria” 735. Esta abordagem crítica tem origem na dupla forma de conceituar que está na base da “teoria do valor” de Marx, onde ele analisa a forma especificamente social da produção capitalista com suas formas de alienação e de reificação, revelando a essência social de um modo social específico de organização da atividade produtiva humana.