A partir do trabalho, acompanhando universitários numa instituição de ensino superior privada, deparamos com inúmeras situações que trazem à tona questões pertinentes ao universo do jovem. Trata-se de uma complexidade de temas diretamente inerentes ao mundo desse jovem, e dentre eles, o de se ver diante de uma multiplicidade de carreiras e, dentre elas, efetuar a sua escolha. Ao realizá-la, traz consigo expectativas quanto à nova etapa que se inicia em sua vida, ao ingressar na faculdade. Quando estas expectativas não são frustradas, a trajetória acadêmica segue um percurso natural, empenhando-se o jovem na construção da sua vida profissional, depositando nela esperanças de realização de um sonho traçado anteriormente.
Entretanto, nem sempre as coisas são assim, ou seja, o que vemos hoje é cada vez mais jovens que ingressam no ensino superior com expectativas equivocadas quanto à profissão escolhida, vivendo uma crise numa época em que esperava encontrar a sua realização. Essas questões nos provocam no sentido de buscar a compreensão porque tais situações têm ocorrido com uma freqüência cada vez maior. Assim sendo, a partir desta provocação surge o desejo de aprofundar o olhar sobre a questão de entender o que há por trás da crise evidenciada pelo jovem, quando se encontra numa situação de escolha profissional equivocada.
Ressalta-se que a palavra “crise” é tratada como um rompimento que não tem um fim em si mesmo, mas que aponta para a possibilidade de mudança e um recomeço, após a vivência de um período permeado por aflições que causam uma certa desestruturação, porém que encontra uma saída.
Esta é bem a situação que os jovens experimentam, quando constatam que a escolha profissional feita não foi acertada. Entretanto quando se busca explicitar a complexidade do contexto em que se efetua o processo de escolha profissional, esbarramos na necessidade de entender um pouco mais o que é ser jovem no mundo atual.
Ser jovem é entendido como um ser humano que busca uma reorganização da identidade, vivenciando um período de transformações, se vendo imerso em dúvidas, ansiedade, e com uma fragilidade emocional que nos reporta a um indivíduo sempre em crise. Este jovem deverá, ainda, aprender a lidar com as questões que o mundo lhe
apresenta, onde ele cresceu e que construirá seu futuro. Mundo submetido a constantes mudanças, que sofre influencia profunda da mídia que aproxima os lugares, as pessoas e rompe fronteiras.
Inserido neste mundo, o jovem definirá suas concepções, seus caminhos, fazendo suas escolhas e se preparando para atuar num mercado de trabalho que exige cada vez mais o desenvolvimento de competências e habilidades, demandando do jovem um tempo maior para se desenvolver e entrar no mundo do trabalho.
Novas profissões surgem aumentando ainda mais o leque de opções e o desafio de conciliar na prática profissional, a possibilidade de sobrevivência e de realização pessoal. Diante disso, como efetuar uma escolha consciente, uma escolha em que o jovem seja capaz de se reconhecer como um ser responsável por suas decisões? Trata-se de um momento muito difícil, pois sempre se toma esta escolha como definitiva, mas, na verdade, ela não é.
Escolher uma profissão requer do jovem uma postura de reflexão pessoal, um conhecimento das profissões para que não se decida baseado na idealização, mas consciente da realidade, das influências que perpassam o ato da escolha.
As influências podem ser as sociais, as familiares e os fatores psicológicos. Às vezes não se tem clareza de como elas incidem no processo de escolha, mas contribuem decisivamente neste processo. Há de se destacar as influências familiares como sendo muito relevante, pois é no âmbito da família que crescemos, aprendemos valores, atitudes e estabelecemos laços afetivos que nos levam a querer agradar aos pais, cumprindo seus desejos quanto à carreira profissional a trilhar. Quando o jovem decide seguir seu próprio caminho, contrariando o da família, estabelece-se um conflito.
Após a escolha efetuada, o jovem ingressa no ensino superior cheio de planos em relação a esta nova fase de sua vida, mas pode esbarrar com o fato de ter feito uma escolha profissional equivocada. Diante disso, revivem-se sentimentos de dúvidas que levam o jovem a romper com o que foi construído até o presente momento para efetuar uma nova escolha, em busca de alternativas que se configurem como a melhor solução para a sua questão profissional.
É interessante a oportunidade de observar como este processo de escolha acontece com os jovens e que pôde ser constatado nas entrevistas realizadas. Utilizando-se entrevistas semi-estruturadas, numa perspectiva de análise fenomenológica, trabalhou-se
com uma amostragem de três sujeitos, sendo um do sexo masculino e dois do sexo feminino, com idade entre 20 e 24 anos.
Através da análise do material coletado, observou-se o aparecimento de temáticas correlacionadas à escolha profissional efetuada, sendo elas: a família, suas influências, as percepções do jovem entrevistado em relação a ela e o apoio na escolha profissional; a escolha profissional equivocada, as percepções em relação à profissional escolhida, o processo de escolha, os sentimentos suscitados, os conflitos vivenciados e o posicionamento frente a essa situação; e a nova escolha profissional, os projetos para o futuro profissional, a percepção da dimensão do prazer na profissão e os sentimentos frente a uma nova escolha.
Os jovens entrevistados, ao se referirem à questão familiar influenciando diretamente suas escolhas, apresentam posicionamentos diferenciados, ou seja, há um entre eles que expressa uma angústia por estar inserido num curso atendendo o desejo da família, cobrando dela um apoio em função disto e que só o obtém, quando percebem o seu sofrimento. Este apoio vem na forma de uma compensação financeira, mas não na liberdade para se fazer uma nova escolha de acordo com o seu desejo. Este jovem vivencia uma trajetória acadêmica com muitos conflitos, mas decide não abandonar o curso encontrando por meio dele, a possibilidade de uma independência financeira que lhe propiciará, num futuro bem próximo, a realização de seu sonho no âmbito profissional.
Um outro entrevistado, uma jovem, encontra todo o apoio na família para escolher a sua profissão. Este apoio se expressa pela ajuda financeira e pela liberdade para que se faça a escolha sem a interferência de opiniões dos familiares. Entretanto esta jovem se vê perdida no universo amplo das profissões, alternando sua opinião em relação à família, que lhe dá espaço para efetuar sua escolha, mas que parece não tê-la preparado para fazê-la. Vê-se, então, numa angústia para escolher e procura apoio terapêutico que lhe auxilie a encontrar respostas. Inicia um processo de autoconhecimento e de busca de informações acerca das profissões. Decide-se por uma profissão baseando mais em seu aspecto idealizado e descobre, logo após o seu ingresso, não ser exatamente o que queria. Vive-se um período de muita angústia, tristeza e sofrimento, mas, apesar disso consegue fazer um movimento no sentido de sair, de se conhecer mais e novamente fazer uma escolha mais consciente.
A outra entrevistada recebe também influência da família. Acreditava, desde pequena, que já havia definido a área profissional que gostaria de seguir, mas se desvia
deste propósito devido a influências que atribui aos amigos de escola e à família. Quando descobre que efetuou a escolha equivocadamente, sente uma frustração e o desejo de retomar o que havia pensado para si em relação à vida profissional: a área de saúde. Encontra, na família, o apoio para recomeçar e o faz se preparando adequadamente para isto. Sente-se feliz por ter tido a coragem de tomar esta decisão, embora às vezes, ainda pensa acerca de sua escolha.
Como conclusão, vimos emergir, em cada entrevistado, uma possibilidade de saída da crise em busca de uma profissão que lhe proporcione uma realização, em que esteja presente a dimensão do prazer, por compreender que, quando se pensa em efetuar esta escolha, ela deve ser consciente, pois se trata de definir o futuro. Ao mesmo tempo em que a experiência significou a vivência de momentos angustiantes, ela também significou a oportunidade de um repensar que impulsionou para o crescimento e o amadurecimento.
Para finalizar, acreditamos ser importante assinalar ter esta pesquisa reiterado o nosso desejo de continuar explorando, investigando, questionando o tema da escolha profissional por parte de nossos jovens. Assim, procurou-se estruturar um projeto que contemple trabalhar a temática da carreira profissional, enquanto algo a ser construído durante a trajetória acadêmica, iniciando-se desde o momento em que o jovem ingressa no ensino superior, perpassando por toda a sua graduação.
Este projeto de nossa autoria e intitulado “Projeto de Orientação e Desenvolvimento Profissional“ está, no presente momento, em fase de implantação na instituição de ensino da qual fazemos parte. Ele tem, como proposta, trabalhar o desenvolvimento da carreira profissional a cada período do curso de graduação, respeitando-se etapas e focos específicos de tal forma que o jovem universitário faça o seu projeto de vida profissional, estabelecendo metas que serão avaliadas constantemente.
O projeto trabalha inicialmente, no primeiro período, com o foco de informações acerca da profissão, na tentativa de ampliar a visão do jovem em relação à profissão escolhida. A segunda etapa, refere-se à construção do projeto de vida especificamente, com ênfase na idéia de construção. A etapa que se segue foca este projeto no âmbito profissional, enfatizando o mapeamento de competências e no autoconhecimento. A etapa posterior propõe o desenvolvimento de competências e habilidades necessárias para o jovem no exercício de sua futura profissão, sendo esta seguida de uma outra etapa que possibilitará a definição das afinidades específicas de cada um dentro da área escolhida. As duas últimas etapas do projeto se referem à educação continuada, num enfoque de
orientação e no estabelecimento de novas metas, pois compreendemos que durante o tempo todo temos que estabelecer alvos, pois quem sabe onde quer chegar, sabe qual o caminho deve seguir.
Contemplamos, neste projeto, encontros que oportunizarão aos jovens momentos de discussão e reflexão acerca da profissão escolhida. Trata-se de propiciar um espaço a eles para que coloquem suas dúvidas e expressem suas angústias em relação à escolha efetuada e, assim, auxiliá-los num processo de reescolha profissional, se for o caso.
Há uma grande expectativa de nossa parte que este projeto de fato seja um serviço de apoio ao jovem em relação à construção de sua carreira profissional, minimizando seus conflitos, orientando-o e preparando-o para sua inserção no mundo profissional.
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ANEXOS
Anexo A
Roteiro de Entrevista
Tema (texto introdutório):
Antes de efetuar a sua escolha profissional, você vivenciou todo um processo para que esta se realizasse. De repente você descobriu que não fez a escolha correta e passou então a viver uma fase difícil em relação a esta temática, uma crise poderíamos assim chamar.
1- O que você acredita que poderia tê-lo (a) levado a perceber que fez uma escolha profissional equivocada?
2- Que tipo de sentimentos você vivencia nesta situação?
3- Você consegue vislumbrar uma maneira de sair desta situação (crise)?
Anexo B
Entrevistas
Entrevista 01 Idade: 24 anos Sexo: Masculino
Local de realização da entrevista: Centro Universitário Newton Paiva
Antes de efetuar a sua escolha profissional, você vivenciou todo um processo para que esta se realizasse. De repente você descobriu que não fez a escolha correta e passou então a viver uma fase difícil em relação a esta temática, uma crise poderíamos assim chamar. Você poderia descrever esta situação?
O meu problema começou o seguinte, em torno de 98. Eu, antes disso, vamos retomar mais. Eu sempre vi meu pai, minha família toda sempre mexendo com Direito. Eu sempre notei que eles eram muito angustiados com isso. O meu pai mesmo foi concursado, um concurso difícil e por diversas vezes antes de passar neste concurso em 94, diversas vezes pegou outros concursos e ficava sempre aquele negócio. Olha, quando você crescer, você vai ter que passar por isso e vai ver o que eu estou passando. E eu cresci com isso desde muito novo, vendo isso, né. E um grande medo que eu sempre tive na vida foi ingressar na carreira jurídica. Prá mim sempre foi um bicho de sete cabeças. Aí em 97 mais ou menos, eu comecei estudar em colégio muitas outras matérias e em 98 o meu objetivo era fazer vestibular para História. Só que quando eu comuniquei isso, o pessoal lá chiou né, criou o maior caso, falou: - você vai fazer isso! Você vai passar fome, você não vai ter, assim, começou a botar um monte de coisa na minha cabeça. Aí, eu falei assim: - Não, tudo bem! Então se eu não fizer isso, eu quero fazer para qualquer outra coisa, mas não quero fazer para Direito. E na época eu precisava de mesada e ele cortou. Ele falou:- Não, você vai fazer Direito e se você fizer outro vestibular, você vai ter que pagar sua inscrição e tudo.
Então, assim, eu já não podia mais fazer História, que era a vontade que eu tinha era dar aula e era obrigado a fazer Direito. Aí, acabou que eu fiz o vestibular, inclusive peguei o dinheiro de outras inscrições, sabe, não fiz e guardei. Fiz na Newton com a obrigação de passar e passei em 99. Tentei na Federal, não consegui e passei em 99. Então
quando começou aqui eu estava sentindo assim, bom já que eu estou aqui, eles pelo menos podem me ajudar com alguma coisa, né, em termos de carreira. Só que essa ajuda só veio agora (risos), no 9° período. Eu comecei o 1° semestre, não gostava de matéria alguma, não fazia lógica prá mim, e tive experiências com professores que me mostraram o lado ruim da profissão. E inclusive um deles chegou prá mim e me disse: - Olha, você não tem futuro, você não, logo no 1° semestre, você está desinteressado, você se for assim vai passar fome, e aquele negócio me marcou. Eu continuei vendo mesmo na sala de aula, como é que as pessoas se comportavam com relação ao curso, com aquela impáfia, carregando aquele formalismo, como se fosse dono das coisas, porque o Direito infelizmente tem isso. A pessoa que faz parece que fica imbutido nela um sentimento de superioridade, coisa que eu não tenho isso, e não admito que os outros tenham. E assim, ao longo do tempo eu fui tomando uma raiva muito grande por causa disso. As matérias até que eu sempre passei com facilidade, eu estudava e tudo mais. Mas para lidar no dia a dia com aquelas pessoas, era difícil.
E foi quando eu comecei a ter a crise mesmo, foi em 2002, quando eu cheguei a trancar o semestre. Não, não, foi em 2003 e que eu cheguei a trancar o semestre. Eu não aguentava mais, para eu poder vir e assistir as aulas eu tinha que estar bêbado para suportar as pessoas, porque era um inferno. Infelizmente era um inferno e eu chegava aqui, não tinha interesse algum e tive mais problema com professor no mesmo sentido, entendeu? Um deles, que é promotor de justiça, falando que: - Na sua idade eu já era promotor!.