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O estudo realizado surgiu a partir da aprovação do projeto intitulado “PRODIAVC – Programa de Diagnóstico e Intervenção das alterações do sono, cognitivas e funcionais após o AVC”, um programa multicêntrico envolvendo a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Nacional de Brasília (UNB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com recursos financeiros do MCT- CNPq / MS- SCTIE-DECIT.

O PRODIAVC envolveu a participação de muitos profissionais e estudantes de mestrado e doutorado de diversas áreas como Fisioterapia, Neurociências, Medicina, Psicologia, Informática, entre outras. Todos juntos se comprometeram a estar em prol do AVC objetivando lançar medidas para prevenção e reabilitação das pessoas acometidas por esta patologia.

A abordagem do PRODIAVC era multidimensional, ou seja, deveria abranger pelo menos 4 dimensões: a epidemiológica, sono, cognição e função (Figura 2).

Era necessário saber qual a incidência dessa doença em algumas regiões do país, principalmente no nordeste brasileiro; colher os dados epidemiológicos, as características sociodemográficas e clínicas. Além disso, a pretensão era identificar as queixas de problemas de sono e os hábitos de sono de uma amostra maior de pacientes, a fim de entender os fatores envolvidos com a qualidade do sono. Acrescentando-se à avaliação do sono, objetivou-se analisar as possibilidades de fazer o rastreamento de déficits cognitivos desde o estágio agudo até o crônico. Por fim, a dimensão funcional era também de significativa importância, pois todas as alterações motoras, cognitivas e do sono podem repercutir nas atividades da vida diária desses pacientes.

O estudo iniciou-se no Hospital Walfredo Gurgel por ser o maior hospital público de urgência em Natal/RN. Foram realizadas visitas frequentes ao hospital e para verificar os casos de primeiro evento de AVC que haviam chegado e, de leito em leito, eram aplicados o STEP, o MEEM, a NIHSS, dentre outros instrumentos. Foi maravilhosa a oportunidade de conhecer e ouvir esses pacientes e seus familiares. Após um ano, tínhamos muitos dados e muita experiência profissional e pessoal.

Iniciamos então uma revisão de literatura e a elaboração de uma cartilha que fosse não apenas informativa, mas que proporcionasse a essas pessoas novas perspectivas e conhecimento sobre a doença (Anexo 7). Prevenção, cuidados com a transferência, auxílio para mobilidade, fatores de risco, dicas de higiene do sono e sobre estimulação cognitiva estavam presentes nessa cartilha. Ela foi feita de maneira que pudesse atrair a atenção deles e que os estimulasse a compartilhar com outros de sua família.

Depois dessa etapa, toda a equipe foi treinada para o início dos atendimentos no Serviço de Fisioterapia do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL) da UFRN, no qual os pacientes foram triados para avaliação do seu estado de sono, cognitivo e funcional proporcionando

também reabilitação na área de Fisioterapia e Psicologia. A equipe multidisciplinar trabalhou em conjunto buscando uma abordagem multidimensional e acolhendo os indivíduos pós AVC e seus familiares.

A partir de todo esse trabalho foi formado um amplo banco de dados de pacientes com AVC, que poderá ser compartilhado com as demais regiões do país, a fim de que possam ser estabelecidas propostas terapêuticas incluindo abordagens de medicina do sono, cognitivas e motoras.

Enfim, o conhecimento do perfil dos comprometimentos da população com AVC, em relação aos aspectos sociodemográficos, das alterações do sono, da cognição e estado funcional permitirá a elaboração de um modelo preditivo, no qual se identificará os principais fatores relacionados à incapacidade funcional da população estudada. Servirá de base para o estabelecimento de políticas viáveis e eficazes no sentido de prevenir ou retardar a instalação de incapacidades funcionais, melhorando assim as ações voltadas para à saúde dos pacientes e aperfeiçoamento da rede SUS.

5. CONCLUSÕES

O estudo realizado se propôs a fazer uma abordagem muldimensional dos pacientes com AVC, por isso, avaliou as características sociodemograficas, os hábitos de sono, o estado cognitivo e funcional.

Os resultados encontrados constituiram três artigos científicos. No primeiro artigo, o estudo conseguiu mapear os aspectos sociodemográficos de uma amostra significativa de pacientes com AVC na cidade do Natal/RN. Os fatores mais importantes foram a idade, o sexo e a escolaridade, evidenciando-se uma frequência elevada de casos de AVC, predominantemente na faixa etária de 50 a 69 anos e de baixo nível de escolaridade, para ambos os sexos. Além

desses fatores, um dado relevante foi a frequência de casos com dependência funcional de grau moderado, apontando a necessidade de que os hospitais públicos mantenham uma equipe de reabilitação para atuar diretamente com as sequelas funcionais decorrentes do AVC.

O segundo artigo foi focado no levantamento dos hábitos de sono dos pacientes, a fim de analisar a necessidade da Medicina do Sono. Pelos dados levantados verificou-se que pacientes com AVC apresentavam queixas relacionadas com a família, moradia, saúde, sono e atividades diárias. Esses resultados podem servir de base para profissionais da saúde implementarem medidas de higiene do sono durante o processo de reabilitação, para que os pacientes aprendam hábitos de vida adequados que garantam uma boa qualidade de sono.

O terceiro artigo foi desenvolvido em função da carência de estudos que indiquem pontos de corte para rastreamento cognitivo especificamente em pacientes com AVC. Os resultados apontaram que o rastreio de déficit cognitivo na prática clinica deve considerar o grau de comprometimento neurológico, necessitando-se também estabelecer pontos de corte ajustados pela idade e escolaridade. Sugerimos que estas associações sejam abordadas na planificação da reabilitação neuropsicológica dos pacientes com AVC.

Enfim, o estudo realizado conseguiu obter evidências científicas importantes ao colher informações relacionadas com aspectos epidemiológicos, do sono, cognição e função. Sugerimos a necessidade de programas de atenção aos pacientes vítimas do AVC, com uma abordagem multidimensional incluindo a equipe de reabilitação, a atuação da Medicina do sono e da Neuropsicologia, a fim de que os pacientes tenham acesso a uma reabilitaçao funcional mais adequada, desenvolvam um estilo de vida que garanta uma boa qualidade de sono e sejam bem avaliados e reabilitados quanto aos comprometimentos cognitivos.