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4. Results and analysis part 1: The preliminary study

4.2. Detailed overview of writer/reader visibility in argumentative writing The detailed findings from the argumentative texts are presented in the following sections

Andrew Revkin, biólogo e jornalista norte-americano, dedicou boa parte da sua carreira à questão ambiental. Além de escrever para jornais e revistas conceituados nos Estados Unidos, como New York Times, Los Angeles Times e Discovery, Revkin foi professor de Jornalismo na Columbia University e de Comunicação na Pace University. Escritor versátil e ativista ambiental, Revkin já escreveu textos sobre temas variados, tais como: o desmatamento da floresta amazônica; o tsunami asiático de 2004; o aquecimento global; as alterações ambientais no Polo Norte; o desenvolvimento sustentável etc. Em outubro de 2007, criou seu próprio blog “Dot Earth”: um espaço digital voltado à discussão do equilíbrio entre as necessidades humanas e os limites do planeta. Em dezembro de 2016, o blog foi desativado e o autor passou a trabalhar como repórter sênior da instituição Propublica, onde atualmente escreve textos sobre mudanças climáticas e assuntos correlatos.

Entre os livros de Andrew Revkin, talvez o mais famoso seja The Burning Season: The Murder of Chico Mendes and the Fight for the Amazon Rain Forest, publicado em 1990 (REVKIN, 1990, grifos meus). Dois fatores justificam a afirmação anterior: a quantidade de traduções do livro (a obra foi traduzida para oito línguas diferentes,

95 Marina Silva (ex-seringueira acreana) também adquiriu grande visibilidade internacional, mas a sua

participação no movimento dos seringueiros deu-se apenas a partir de 1984. Por isso, optei pela análise da trajetória de Chico Mendes que participou da luta dos extrativistas desde o seu início. De qualquer forma, ao final deste capítulo, apresento brevemente a biografia de Marina Silva.

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inclusive para o português96) e o fato de o livro ter virado filme produzido e financiado pelo canal de televisão HBO, em 199497.

The Burning Season narra a vida e a trajetória política de Chico Mendes. Um dos objetivos centrais da obra é explicar os impactos causados pelo assassinato de Chico. Segundo Revkin, os anos subsequentes à morte do líder seringueiro testemunharam “extraordinárias mudanças no Brasil”. Um novo respeito pelo “tesouro ecológico

singular”, a floresta tropical da Amazônia, passou a pairar no cenário nacional, afirma o

autor (1990, p. 11, grifos meus):

A crescente consciência ambiental se deve, em grande parte, à ampla repercussão do assassinato de Chico Mendes, que se tornará porta-voz internacional pela preservação da Amazônia e de seu povo. A modificação é de tal sorte dramática que um dos antigos aliados de Mendes, José Lutzenberger, [se tornou] Secretário de Governo do Meio Ambiente. Há dois anos [em 1988] isso seria um fato inconcebível. Desde o assassinato, a taxa de desmatamento na Amazônia diminui mais de 50%; o mesmo ocorreu com a taxa de assassinatos... pelo menos até agora. (REVIKIN, 1990, p. 11).

Surpreendido com as mudanças positivas desencadeadas pela morte de Chico Mendes, Revkin se coloca as seguintes perguntas: “Por que Chico Mendes?”; “Como poderia um homem criado no mais profundo da floresta tropical, que jamais frequentou escola, produzir tamanho impacto?”; “Por que sua morte foi tão significativa, quando tantos outros homens e mulheres tiveram mortes semelhantes [...] sem absolutamente quaisquer consequências relevantes?” (REVKIN, 1990, p. 11 – grifos meus). Para responder tais indagações, o autor viajou para as “trilhas da floresta do Acre” e por ali permaneceu por quase três meses, entrevistando pessoas do convívio de Chico Mendes. Conversou com partidários de todas as faces do conflito: seringueiros, índios, especialistas em meio ambiente, cientistas, fazendeiros e policiais. Entrevistou três gerações da família Alves da Silva, acusada do assassinato do líder seringueiro. O resultado foi um livro impressionante tanto pela quantidade quanto pela qualidade de informações sobre o movimento dos seringueiros e os acontecimentos históricos e políticos do Brasil.

96 O título do livro em português é “Tempo de Queimada, Tempo de Morte: o Assassinato de Chico

Mendes e a Luta pela Floresta Amazônica” (REVKIN, 1990).

97 O título do filme é “The Burning Season: The Chico Mendes History”, dirigido por John Frankenheimer

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Dito isso, deixo os elogios de lado, e parto para um olhar mais cauteloso e direcionado sobre a obra, buscando salientar o objeto central da pesquisa de doutorado, qual seja, as representações de Revkin sobre a natureza amazônica e os seringueiros acreanos.

Ao longo do livro, Revkin demonstra ter lido vários dos autores-viajantes que percorreram a floresta amazônica. Cita a excursão comandada por Orellana, considerada a primeira a descer o rio Amazonas. Afirma que Carvajal, responsável por registrar os acontecimentos da viagem, produziu uma crônica com milhares de batalhas e aventuras extraordinárias na qual “hipérbole e fato se confundem” (Idem, p. 58). Mas, ao que tudo indica, tal confusão não é exclusividade de Carvajal. Como vimos nos capítulos precedentes, uma “constante” parece acompanhar as narrativas dos viajantes da Amazônia: a mistura da realidade empírica com a fantasia. E Revkin não é uma exceção a essa regra.

O autor também leu os naturalistas William Edwards, Alfred Wallace e Henry Bates. Para ele, tais escritores são referências e fontes de inspiração. O fato de Revkin ter entrado em contato com a literatura dos viajantes – antes mesmo de experenciar a “Amazônia Real” – é um forte indício de que ele estava imbuído (mergulhado) no imaginário amazônico criado ainda nos séculos XVI e XVII pelos primeiros viajantes estrangeiros do Brasil Colonial e, posteriormente, recriado por naturalistas, religiosos, jornalistas, romancistas e historiadores que passaram pela região. O livro de Revkin é um reflexo dessas leituras prévias. A Amazônia Imaginada está nas entrelinhas da obra e o padrão narrativo do Amazonismo (natureza grande x homem pequeno) transparece claramente no discurso do escritor. Embora reforce a estrutura elementar do Amazonismo, o livro não se resume a isto, vai além. Revkin chama a atenção para várias qualidades dos seringueiros acreanos, especialmente de Chico Mendes. A maior delas: a luta heroica “em prol da floresta tropical”.

A narrativa de Revkin possui características típicas do discurso ambientalista. Logo nas primeiras páginas do livro, o autor revela a importância mundial da floresta amazônica. Esta é tão imprescindível para o planeta Terra que uma mudança mínima no seu ecossistema é capaz de desencadear crises locais e globais. É justamente aí que o gigantismo da Amazônia se manifesta, pela primeira vez, no texto: a Amazônia per si – ou por meio de ações antrópicas que atuem sobre ela – tem o potencial de acarretar consequências desastrosas para países bem distantes do Brasil: “o aquecimento e a umidade da Amazônia afetam o clima, da Argentina à Inglaterra”; “Mais importante

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ainda, as emanações de queimadas da Amazônia [...] estão contribuindo para o subsequente aquecimento da Terra”, informa o autor (Idem, p. 12, 13). Por isso, a preservação dos recursos naturais da região é condição sine qua non para a continuidade da vida humana no orbe terrestre, tanto das gerações atuais quanto das gerações futuras: “a agressão à floresta tropical da Amazônia é uma agressão ao futuro de todo mundo”, conclui (Idem, p. 12).

O relato sobre a grandiosidade amazônica não para aí. “A própria floresta só pode ser descrita com superlativos”, afirma o autor (Idem, p. 32 – grifos meus). As dimensões da Bacia Amazônica são diferentes de qualquer outro vale fluvial do mundo. Ela é uma planície “descomunal e plana” (Idem, p. 33). A maior parte do seu sistema fluvial encontra-se dentro dos limites territoriais do Brasil. No entanto, os afluentes do Amazonas espalham-se por oito países vizinhos – Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia –, o que evidencia a sua inegável imensidão. Ademais, o Amazonas é “o rio mais fundo do mundo” (Idem, p. 33) e, nos seus trechos mais largos, a distância entre as duas margens chega a atingir trinta quilômetros.

A flora amazônica também é representada por hipérboles. Ela é a mais diversificada e a mais desconhecida do planeta. Os gigantes da floresta, como a castanheira, erguem-se à altura de uns vinte andares ou mais, causando estupor a qualquer transeunte. Do chão ao dossel das árvores, tudo se mostra “exuberante”, com “inacreditável prodigalidade”, exclama o escritor (Idem, p. 38). Na floresta, há uma “farmácia viva” que esconde milhares de compostos químicos capazes de produzir “remédios preciosos” que os cientistas ainda hão de desvendar (Idem, 30, 13). Entrar na mata fechada – conta Revkin – produz uma sensação inesquecível, comparável a um mergulho “no mar após uma exposição prolongada numa praia tropical. A temperatura cai em dez graus repentinamente e a mudança abrupta da luminosidade para a penumbra faz doer os olhos” (Idem, p. 49).

A Amazônia é uma “galáxia biológica”, exagera o escritor (Idem, p. 47.) Ela abriga um número insuperável de seres vivos. Entre as milhares de espécies de plantas que habita a floresta, está a Hevea brasiliensis, cuja descrição segue o mesmo padrão valorativo dos demais recursos naturais, isto é, a exaltação e a supervalorização da espécie vegetal:

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[A seringueira] é uma árvore de tronco macio, que produz um líquido branco distribuído por um rendilhado de tubos minúsculos sob sua casca. [...] Os botânicos chamam-na de Hevea brasiliensis. Sua denominação comum é árvore da borracha. Julga-se que este líquido sirva para proteger a árvore contra as invasões de pragas importunas, grudando as partes das bocas dos insetos. Este mesmo líquido, solidificado e processado de modo adequado, possui qualidades impressionantes de elasticidade, resistência à água e isolamento ao fluxo da eletricidade que o transformaram numa das mais procuradas matérias-primas da Revolução Industrial. (REVKIN, 1990, p. 22 – grifos meus). Páginas à frente, a “árvore da borracha” é descrita a partir de critérios científicos, sem, no entanto, deixar de vir acompanhada de adjetivos positivos. “A seringueira, com seus trinta metros de altura, folhas lustrosas e casca macia, é um membro da família

das euforbiáceas”, informa Revkin (Idem, p. 60). Em outro trecho, diz: “o látex é um polímero de isopreno, que é um hidrocarboneto, uma molécula composta tão-somente

de átomos de carvão e hidrogênio – exatamente como o petróleo, o gás natural e a celulose de que é feito este livro”. Esta “substância estranha e maravilhosa” produz a borracha, que – na virada do século XX – se transformou no “ouro branco”98, um dos produtos mais cobiçados e procurados pelo mercado mundial a décadas atrás (Idem, p. 60, 61, 66 – grifos meus).

Quanto à fauna, ela é romantizada e fantasiada por Revkin. Ela possui uma “diversidade e vitalidade espetaculares” (Idem, p. 30 – grifos meus). Em um simples tronco caído, encontram-se mais de 50 espécies de besouros. Em um “acre” da floresta, há mais de 100 espécies de borboletas. Uma delas é a Morpho: “uma obra-prima em

origami feita de uma folha de papel alumínio azul-elétrico (um naturalista descreveu

estas habitantes da floresta com cerca de vinte centímetros de comprimento como ‘a coisa

mais azul do mundo’)”, comenta Revkin encantado com a região (Idem, p. 37 – grifos

meus) (ver figura 21). Mas – não se enganem – a Amazônia também é habitat de animais monstruosos. Nela, há “gigantescas abelhas”, “venenosas aranhas” e outros seres perigosos e mortais, conforme relato abaixo (Idem, p. 99, 54):

Os riscos [da floresta] provêm tanto dos animais quanto dos vegetais e os mais célebres habitantes da selva, como serpentes e

tarântulas, não são tão comuns quanto algumas ameaças mais

98 O termo “ouro negro” é utilizado para se referir as “bolas” ou “pélas” defumadas de borracha e “ouro

branco” é utilizado para se referir as “pranchas” de borracha que são fabricadas a partir de uma técnica mais recente.

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sutis. Há, por exemplo, a Lonomia achelous, uma lagarta verde do tamanho de um charuto. [...] Seus pelos longos e ramificados escondem espinhos delicados que exsudam um produto químico. [...] Não é raro ouvir-se comentários a respeito de um

seringueiro que tivesse se encostado num grupo de Lonomias. Pouco depois, todos os orifícios do corpo vazam sangue; cada corte começa a sangrar. (Idem, p. 92 – grifos meus) (ver figura

22).

Além da supervalorização dos recursos naturais, outro aspecto da Amazônia Imaginada está presente na obra. Trata-se da ideia de “floresta virgem”, expressão citada pelo menos duas vezes no texto pelo autor (vide páginas 32 e 54). A palavra “virgem” remete à ideia de “natureza intocada” e induz o leitor a pensar que a paisagem amazônica não foi alvo de modificações por parte dos povos indígenas e tradicionais que ali vivem há séculos. A existência de um mundo natural selvagem, intocado e intocável é um mito moderno, como já demonstrou Diegues (1996). A natureza em estado puro não existe e a “floresta virgem” apregoada pelo escritor corresponde a áreas extensivamente manipuladas pelo ser humano, sendo, portanto, mais adequado utilizar, em seu lugar, a expressão “floresta antrópica”, cunhada por Balée (1989).

Figura 21. Borboleta Morpho

Créditos: autor desconhecido99.

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Figura 22. Lagarta Lonomia

Créditos: Carlos Vieira100.