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Det pedagogiske rommet

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5. ANALYSE OG DRØFTING

5.4 Det pedagogiske rommet

As hortas urbanas têm uma função económica, mas os seus usos extrapolam a dimensão produtiva e, frequentemente, são também lugares simbólicos e de importantes sociabilidades. Como refere Eric Wolf (1970:31): “[para os camponeses] um pedaço de terra, uma casa, não são meramente fatores de produção; eles também estão carregados de valores simbólicos.” Não quero com isto negar que as hortas urbanas de cabo-verdianos da Amadora são um espaço de produção, para onde foram empurrados os setores mais pobres da população da cidade. No entanto, existem outras dinâmicas que lá se passam que são fundamentais para a sua existência, bem como para o entendimento e compreensão da vida dos que lá cultivam. Pretendo, portanto, explorar as hortas como lugares de importantes relações sociais, como a reciprocidade e sociabilidades. O meu trabalho seguirá esse eixo de observação. Entender as relações sociais, entre as quais as sociabilidades existentes nas hortas urbanas de cabo-verdianos da Amadora, permite-nos abrir horizontes na compreensão da cidade e da migração rural-urbana.

O eixo de observação que acabo de referir, em torno das sociabilidades, levou-me a adotar as ferramentas de compreensão da cidade propostas pelo antropólogo urbano brasileiro José Magnani. De forma a entender as complexas sociabilidades urbanas, Magnani (1983; 2002) propõe novas e inovadoras categorias de classificação do espaço e usos urbanos. Partindo da perspetiva de Roberto Da Matta que propõe uma visão “casa” vs “rua”, onde a “casa” é a familiaridade e a “rua” o inóspito, Magnani propõe categorias intermédias: são elas “Pedaço”, “Mancha”, “Trajeto”, “Pórtico” e “Circuito”. Estas categorias surgem da etnografia realizada na cidade de São Paulo e abrem espaço à compreensão do fenómeno urbano, mais especificamente na pesquisa da dinâmica cultural e das formas de sociabilidade das grandes cidades contemporâneas (Magnani, 2002:11).

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suburbanos38. “Pedaço” é uma categoria que designa uma forma de sociabilidade e apropriação do

espaço urbano com características próprias: no “pedaço”, todos se conhecem; a presença dos seus membros é regular; e há, entre eles, códigos de reconhecimento e comunicação. Exemplos de “pedaço” são bares, lanchonetes, etc. No entanto, esta categoria pode expandir-se a várias realidades: “No núcleo do “pedaço”, enfim, estão localizados alguns serviços básicos – locomoção, abastecimento, informação, culto, entretenimento – que fazem dele ponto de encontro e passagem obrigatórios.” (Magnani, 2003:12).

Proponho, então, que as “hortas urbanas” com as quais contactei, onde existem fortes sociabilidades e formas de lazer, sejam entendidas como “pedaços”: espaços localizados num território concreto e onde os seus atores têm fortes laços de confiança. Sobre esta categoria (Magnani, 2003:12) escreve o seguinte:

O “pedaço”, porém, apontava para um terceiro domínio, intermediário entre a rua e a casa: enquanto esta última é o lugar da família, à qual têm acesso os parentes (ligados por laços já estabelecidos de antemão) e a rua é dos estranhos (onde, em momentos de tensão e ambiguidade [...] o pedaço é o lugar dos colegas, dos chegados. Aqui não é preciso nenhuma interpelação: todos sabem quem são, de onde vêm, do que gostam e o que se pode ou não fazer.

Este conceito permite-nos também entender a horta urbana como um lugar ligado e não desconectado do bairro e, principalmente, como um lugar que tem continuidade com a casa, tal como referi no capítulo anterior. As hortas urbanas são um lugar intermediário entre o privado (casa) e o público (rua), onde as sociabilidades são mais amplas que as familiares e mais fortes que as formais e individualizadas, impostas pela nossa sociedade. Estas hortas urbanas são espaços onde os seus indivíduos têm profundas ligações. Um lugar onde todos se relacionam com base na confiança: ajudam-se, dão e trocam produtos, almoçam e bebem juntos, sabem os seus percursos de vida, conhecem as suas casas e as suas famílias. Entre eles chamam-se muitas vezes “compadres”, terminologia que levei tempo a entender, pois erradamente pensava tratar-se de relações familiares. Ao terceiro e quarto “compadre”, percebi que não podiam ser todos familiares39. O “compadre” pode ser comparado ao “colega” utilizado

pelos frequentadores do “pedaço” de Magnani (2013). No principal conjunto de hortas onde realizei a minha etnografia, são muitas as ligações dos doze agricultores que lá cultivam: têm afinidade etária; são todos do mesmo bairro, a Cova da Moura; e são todos da mesma ilha, Santo Antão, à exceção de um, que dizem raramente aparecer. A criação daquele “pedaço” por gente vinda do meio rural cabo- verdiano é, a meu ver, em grande medida, um produto de uma migração do campesinato para a cidade. Levei algum tempo a ser aceite naquele “pedaço”, porque num “pedaço” todos se conhecem e têm fortes ligações. Levado lá, numa primeira vez, por um dos agricultores que conheci na Cova da Moura,

38 “Pedaço” é uma categoria com uma terminologia nativa que transcendeu o seu locus de aplicação originária,

acabando por designar um tipo particular de sociabilidade e apropriação do espaço urbano. (Magnani, 2013: 11)

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fui visto como alguém que estava só ali de passagem, de alguma forma olharam-me com indiferença ou desconfiança. No entanto, continuei a ir lá regularmente. Um dia apresentei-me lá com uma amiga belga que viveu em Santo Antão, convidaram-nos para almoçar cachupa num sábado de maio. Comemos, bebemos, descascámos ervilhas e passeámos pelas hortas. Nesse dia, não me tornei do “pedaço”, mas senti que fui aceite. Agora já não era um qualquer; era o Pedro, “o jornalista” ou “do Moinho”40, como se referiam muitas vezes, e erradamente, a mim.

35 CAPÍTULO IV

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