4 Teori Aktivapriser
4.1 Det finansielle system
Segundo Charaudeau (2006), pode-se definir o gênero de informação midiática levando-se em conta quatro elementos básicos:
1. A instância enunciativa que se caracteriza pela origem do sujeito falante e seu grau de implicação. A origem pode estar na própria mídia (um jornalista) ou fora da mídia (uma personalidade a falar/escrever na mídia). Essa origem é marcada pela maneira pela qual é identificado o autor do texto e pelo lugar da mídia onde está inserido.
2. O modo discursivo organizado em torno de três categorias de base: relatar o acontecimento (a reportagem p.ex.), comentar o acontecimento (o editorial p.ex.), provocar o acontecimento (o debate, p.ex.).
3. O conteúdo temático que constitui o macrodomínio abordado pela notícia. A partir da combinação entre modo discursivo e tema é que se pode distinguir subgêneros, possibilitando diferenciar tipos de debate segundo o tema ligado a um universo cultural, científico ou de sociedade.
4. O dispositivo que, por sua materialidade, traz especificações para o texto e diferencia os gêneros de acordo com o suporte midiático (imprensa, rádio, televisão).
Considerando que o contrato midiático compõe-se por uma instância de informação, um mundo a comentar e uma instância consumidora, para Charaudeau (2006), na construção de qualquer gênero de informação coexistem três características-chaves: a visibilidade, a inteligibilidade e a espetacularização.
O desafio de visibilidade faz com que as notícias selecionadas pela mídia possam atrair o olhar ou a atenção, sendo reconhecida simultaneamente em sua distribuição temática. O desafio da inteligibilidade leva, por um lado, às hierarquizações no tratamento das notícias, tratadas ou como acontecimento relatado, ou como acontecimento comentado ou provocado. Por outro lado, leva à encenação verbal (a escritura), visual (a montagem icônico-verbal) e auditiva (a fala e os sons) de maneira que dê a impressão de que o conteúdo da informação é acessível.
O desafio da espetacularização, por sua vez, leva a trabalhar essas diferentes encenações, de modo que suscitem interesse e até emoção.
Dos gêneros jornalísticos de caráter opinativo (a crônica, o editorial, a coluna e o artigo) o leitor não espera isenção, distanciamento e objetividade. Já a notícia e a reportagem são consideradas gêneros de caráter informativo.
Sabemos que os espaços de jornais e revistas estão cada vez mais disputados por um grande número de informações fragmentadas e por uma competição brutal em torno de formatos praticamente idênticos. A consequência disso é a ênfase nas pílulas de informação em detrimento dos textos para guardar (BOAS, 2003). Há ainda uma tendência por parte das direções de jornais e das revistas brasileiras em acreditarem que seus assinantes não têm tempo e não gostam de ler. Por essa razão, reportagens mais detalhadas e humanizadas seriam antipatizadas.
Em desacordo com esse raciocínio, entendemos em conformidade com Boas (2003), que os leitores sempre encontrarão tempo para narrativas que identificam seus destinos com o destino de outras pessoas apresentadas pelos veículos (jornais, revistas, etc.), levando-os a imaginar que isso também poderia acontecer com eles. O problema, porém, é a escassez cada vez mais acentuada desse tipo de publicação nos jornais.
Nesse sentido, afirma Martinez (s/d) apud Boas (2003, p.13) “se os jornais cada vez mais se recusam a publicar histórias vívidas, não há por que
culpar a TV ou a internet por seus eventuais fracassos, e sim à sua própria falta de fé na inteligência das pessoas”. O jornalismo convencional, que se opõe ao Literário, talvez seja reflexo de nossa época. Assim, a consagração do jornalismo convencional parece inviabilizar o espaço para a criatividade dos jornalistas. Isto decorre de vários fatores, em meio à rotina profissional de uma redação.
Neste sentido, afirma Amaral (1987, p.53) apud Mandelli (2007, p.3) Dois pontos importantes deve ter o jornalista à mente quando começa a escrever: o homem moderno é apressado, preocupado, não dispõe de muito tempo para dedicar à leitura de jornais e revistas; e o público a quem se destinam jornais e revistas é um público variado, onde se misturam pessoas cultas, pessoas alfabetizadas e pessoas um pouco menos que analfabetas. Consciente disso, o profissional precisa: ser conciso, (...) Resumindo: deve ser simples e claro na construção das frases e escolher as palavras mais usuais possíveis.
Como podemos notar, a linguagem jornalística obedece a uma série de regras e padrões estabelecidos. Dessa forma, o perfil jornalístico não é um gênero massivamente explorado na contemporaneidade. Resgatá-lo na produção jornalística atual é possibilitar uma reflexão sobre as formas expressivas de jornalismo; é demonstrar uma vertente do jornalismo pouco lida, mas nem por isso de menor teor informativo. Vale ressaltar que, a pessoa a ser enfocada neste gênero jornalístico, normalmente é uma figura importante, de alguma relevância social.
Nesta perspectiva, buscamos analisar o perfil como uma modalidade textual dentro da narrativa jornalística. Perfil ou reportagem-perfil faz parte do gênero jornalístico informativo. E dentro dessa classificação, podemos inseri-lo na categoria dos textos noticiosos chamados de feature, ou seja, uma notícia apresentada em dimensões que vão além do seu caráter factual e imediato, em um estilo mais criativo e menos formal. Nessa categoria estão incluídos os perfis e as histórias de interesse humano. O enfoque principal do perfil é o personagem a ser descrito pelo jornalista, conforme esclarece Sodré, 1986, p.126:
Em jornalismo, perfil significa enfoque na pessoa – seja uma celebridade, seja um tipo popular, mas sempre o focalizado é o protagonista de uma história: sua própria vida. Diante desse herói (ou anti-herói), o repórter tem, via de regra, dois tipos de comportamento: ou mantém-se distante, deixando que o focalizado se pronuncie, ou compartilha com ele um determinado momento e passa ao leitor essa experiência.
No primeiro caso, temos a entrevista clássica. O próprio personagem se apresenta. O discurso é direto, constituído pela fala quase exclusiva do entrevistado. No segundo caso, o discurso é indireto: quem fala é o narrador (repórter). De posse das informações da entrevista o redator pode apresentar explicitamente seus personagens, uma vez que já tem algum conhecimento ao seu respeito. Existe, ainda, um terceiro caso de construção de perfil, que conforme Sodré; Ferrari (1986), pode ser a mistura dos dois anteriores. Nesse modelo, temos um narrador que desconhece seu personagem e relata a experiência para o presente. O texto intensifica a impressão da realidade, ao mesmo tempo em que compartilha com o leitor a descoberta do caráter do entrevistado.
Sodré; Ferrari (1986, p.134/136) apresentam uma tipologia da reportagem-perfil:
1 - personagem-indivíduo - o retrato que o repórter faz do perfilado é mais psicológico que referencial - o interesse recai sobre a atitude do entrevistado diante da vida, seu comportamento, a peculiaridade de seu modo de atuação. O narrador acentua esse lado e confere ao texto um caráter de imprevisibilidade;
2 - personagem-tipo - nem sempre temos diante de nós personalidade tão surpreendente: celebridades que se inscrevem em categorias como esportistas, cantores, milionários, princesas, etc. O normal, neste caso, será enfatizar , no perfil, aquilo que lhes deu fama: habilidade, talento, dinheiro, beleza ou qualquer outro atributo típico de suas classes ou profissões.
3 - personagem-caricatura - são os sujeitos estranhos, de gestos grotescos e atitudes mirabolantes, com acentuada tendência para a exibição, que caracterizam esse tipo de perfil.
Segundo Boas (2003, p.22) “os perfis jornalísticos aparecem ocasionalmente em periódicos (mas não apenas em periódicos) há pelo menos dois séculos”. Mas, foi a partir da década de 1930 que jornais e revistas começaram a apostar mais na idéia de retratar figuras humanas jornalística e literariamente. O importante era a própria pessoa especialmente alguma celebridade do mundo das artes, da política, dos esportes e dos negócios. O autor esclarece, ainda, que se esperava que a matéria lançasse luzes sobre o comportamento, os valores, a visão de mundo e os episódios da história da pessoa, para que suas ações pudessem ser compreendidas num contexto maior que o de uma simples notícia descartável.
Com esse espírito, ressalta Boas (2003), os perfis se tornaram marca registrada de revistas como Esquire, Vanity Fair, The New Yorker, Life &
Harper‟s, entre outras. Talvez pelo espaço que cedia aos perfis a revista The New Yorker, fundada em 1925, seja considerada a precursora do gênero. No Brasil, o Cruzeiro e Realidade também valorizaram os perfis jornalísticos em suas épocas áureas. Mas a excelência em perfis, Boas (2003), foi impressa pela revista Realidade em seu período de auge (1966-1968).
Vale destacar com Boas (2003), que a época gloriosa do jornalismo brasileiro foi decepada pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), entre outros fatores. Contudo, a revista Realidade gerou memoráveis artigos: Oscar Niemeyer (julho/1967) e Francisco Matarezzo Sobrinho (outubro/1967), por Luiz Fernando Mercadante; Roberto Carlos (novembro/1968), escrito por Roberto Freire; entre outros.
Nesse período, os repórteres eram estimulados a conduzir diálogos verdadeiramente interativos a fim de humanizar ao máximo a matéria. “Podiam mesclar informações sobre cotidiano, projetos de obras do sujeito. (...) Idéias e empatias coexistiam em nome de um retrato o mais nítido e literário possível da persona” (idem, ibidem, p. 25-26). Muitos jornalistas no Brasil, como no exterior (Janet Flanner, Nicholas Lemann, Calvin Trillin, Lillian Rossi) se notabilizaram como autores de perfis. Vários dos praticantes do New Journalism, na década de 1960, cultivaram esse gênero jornalístico, trabalhando com aspectos objetivos e subjetivos da realidade.
Hoje, contudo, no que diz respeito à produção de textos mais trabalhados; intimistas, os jornalistas enfrentam alguns problemas. Boas (2003) aponta os principais: o texto enriquecido com recursos literários perdem importância no jornalismo tradicional; houve uma redução brutal dos quadros de jornalistas nas redações; os orçamentos para a produção de matéria especiais estão praticamente fora das previsões das empresas; além de falta de tempo para investigar, de espaço para aprofundar e de mentores para incentivar.
Acreditamos, porém, que os jornalistas apesar das dificuldades enfrentadas no exercício da profissão, ainda têm sensibilidade para “enxergar” personagens que rendam boas histórias. Neste contexto, buscamos analisar os perfis jornalísticos de O Estado do Maranhão em suas estratégias de produção/construção de identidades.
Vale ressaltar que a atividade do jornalista está baseada num princípio ético. Por isso, postula que a verdade não preexiste á ação humana, mas nela tem origem. Ela resulta, (cf. Charaudeau, 2006, p.263), de um julgamento coletivo que não pertence a ninguém em particular e representa idealmente a opinião da maioria. Assim sendo, o dever de informar das mídias seria a contrapartida “natural” do direito de todo cidadão de construir uma verdade: a verdade civil, o que confere legitimidade às mídias.
Partindo desse pressuposto, entende-se que os procedimentos midiáticos, postula Charaudeau (2006), permitem cada vez mais criar a ilusão do factual, do autêntico, da prova da realidade dos fatos, pela investigação do privado, do testemunho, persuadindo-nos de que “isso realmente aconteceu assim” (grifo do autor).
Nesse sentido, a responsabilidade das mídias reside na seleção dos acontecimentos, na identificação das fontes, bem como na prática da citação. Assim, as mesmas deveriam questionar-se sobre a maneira pela qual todo discurso relatado impõe certa interpretação, entendendo que não podem pretender à transparência, visto que o acontecimento é o resultado de uma construção, ou como postula Charaudeau (2006,p.99) “ o acontecimento nasce, vive e morre numa dialética permanente da ordem e da desordem, dialética que pode estar na natureza, mas cuja percepção e significância dependem de um sujeito que interpreta o mundo”.
De acordo com Maingueneau (2001), ao escolher determinado gênero para enunciar, o enunciador está adotando um posicionamento, ou seja, adotando diferentes formas de representar uma determinada prática social. Ele está se inscrevendo numa “escola”, “numa doutrina”, “num movimento”, ou seja, está assumindo uma posição frente a determinadas idéias.
Neste contexto, Fairclough (trad. 2001, p.143/144) assevera que: Os eventos dignos de se tornar notícia se originam de limitado grupo de pessoas que tem o acesso privilegiado à mídia, que são tratadas pelos jornalistas como fontes confiáveis, cujas vozes são mais largamente representadas no discurso midiático. Em algumas notícias da mídia essas vozes externas tendem a ser explicitamente identificadas e demarcadas.
Aqui percebemos uma veia de aproximação com o discurso materializado nos perfis jornalísticos, no qual figuram mulheres, classe média
alta, com uma história de vida de superação e, portanto, vendido aos leitores(as) como o “perfil ideal” da mulher contemporânea, porque “o que a mídia nos seus mais diversos suportes vende ao sujeito não é um produto, mas a possibilidade de um acesso na forma de fantasia” (BARONAS, 2003, p.89). Assim, o perfil “ideal” da mulher contemporânea é oferecido aos sujeitos a partir das necessidades que estes “têm” de consumi-lo. Necessidades estas das mais diferentes ordens: ascender na carreira profissional; conquistar reconhecimento profissional; obter sucesso nas mais diversas situações de trabalho e da vida familiar e social.
Portanto, para a análise discursiva que se pretende realizar, não se pode falar da representação da mulher em reportagens do jornal O Estado do Maranhão sem levar em consideração o seu estilo, a forma como representa essa prática social na qual está inserido. A esse estilo denominamos reportagem-perfil.
CAPÍTULO III - METODOLOGIA
Neste capítulo, explicitamos a delimitação do universo de nossa pesquisa, a seleção e constituição do corpus, bem como definimos os instrumentos de análise utilizados.