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3. Data

3.2 Deskriptiv statistikk

Como vimos anteriormente, as transformações empolgaram os belo-horizontinos, mas muitos fatores impediram que a modernidade se tornasse possível para além dos aspectos arquitetônicos. Nós podemos elencar pelo menos oito razões que justificam o atraso da conquista da modernidade em outras áreas.

45 CAMPOS, acesso 2013, p.3. 46 Ibidem, p.4.

36 A primeira delas está relacionada ao espaço físico. O projeto previa uma capital muito grande e espaçosa. No entanto, nos seus anos iniciais, não havia população suficiente para povoar todos os espaços. Com muitas ruas e sem povoamento, a imagem do tédio prevalecia. O vazio durou até meados dos anos 20, quando então a capital passou a crescer rapidamente.

Outro aspecto relacionado ao espaço físico diz respeito à segregação presente no projeto da cidade. A maioria da população se encontrava fora da área central que estava reservada para a elite. Além dos imóveis serem muito caros, a falta de transporte também dificultava o acesso de outras pessoas a essa região. "Ainda no centro, as largas ruas dificultavam os encontros, quase impossibilitando aglomerações humanas. O traçado geométrico de sua malha devassava os espaços, mantendo-os em permanente vigilância. Sem o burburinho das manifestações humanas, a cidade incorporava um aspecto estéril e asséptico".47

A restrição da modernidade a aspectos arquitetônicos em Belo Horizonte é justificada ainda por outra razão apontada por Siqueira (1997), ou seja, a grave crise econômica que atingiu a capital nos primeiros anos. Sua construção consumiu enormes recursos do governo e a cidade não atraía investimentos econômicos. Segundo a autora, a crise tem origem nas dificuldades apresentadas pelo café no mercado internacional, bem como na visão limitada dos governantes mineiros sobre a economia. "A cidade, sem atividades econômicas expressivas, não apresenta atrativos para o investimento de capitais. A indústria, como atestam artigos de jornal, tem dificuldades para nela se instalar".48

Além das grandes ruas solitárias e da crise econômica, a capital oferecia poucas atrações e práticas culturais. As que existiam ainda não estavam enraizadas, apesar dos esforços. Assim, a falta de situações relevantes ou acontecimentos importantes era inevitável. As pequenas manifestações de vida cultural como a prática literária, por exemplo, estavam longe de constituir uma tradição e, portanto, apresentavam um caráter superficial.

Belo Horizonte nasceu para ser a moderna capital de Minas Gerais. Seus sonhos de uma metrópole civilizada, cosmopolita, baseada no ordenamento social, refletem-se no planejamento urbano traçado pela Comissão Construtora. Largas avenidas, ruas e praças compunham o cenário de uma pretendida vida dinâmica, capaz de promover a produção de riquezas e um novo padrão de sociabilidade, voltado para o espaço público. (...) Mas a cidade recém-inaugurada não tinha nem teatro, nem casa de diversões, o que muito contraria os que idealizavam a moderna capital de Minas. (SOSNOWSKI, 1997: 133)

47 SANTOS, 1997, p.160.

37 Segundo Loyola (1997), na tentativa de cumprir o projeto da metrópole como signo de um novo tempo, pensamentos modernos em relação à educação passaram a ser valorizados. O reconhecimeno da importância da educação primária, a fundação de vários colégios e a instalação de escolas de nível superior, como a Faculdade Livre de Direito (1898) e a Faculdade de Farmácia (1907), tinham o intuito de tornar Belo Horizonte um centro cultural. No entanto, como aponta Loyola (1997), é possível perceber muitos choques entre correntes educacionais mais progressistas e outras mais conservadoras.

Nos primeiros anos, apesar da extrema valorização da educação, assiste-se a um marasmo cultural. Não havia espaço favorável ao desenvolvimento de projetos e à realização de eventos e eram pouquíssimos os locais de lazer e as casas de espetáculo. Por conseguinte, a cultura não se fortalecia. À noite não existia movimento nas ruas. A cidade e a sociedade careciam de eventos sociais mais empolgantes e representativos.

O panorama cultural mudou um pouco com a inauguração do Teatro Soucasseaux em 1900. Não era o espaço moderno de que a cidade necessitava, mas era uma evolução, pois, a partir de sua inauguração, a vinda de companhias teatrais estrangeiras se tornou constante. Contudo, Loyola (1997) alerta que "a inauguração do Soucasseaux provoca algum movimento no cenário da cidade, marcado pelo tédio, mas ainda não podemos afirmar que a Capital se transforma em pólo de cultura. Essa transformação é lenta e gradual".49 Para aquela sociedade o teatro se tornou símbolo de lazer da elite.

Podemos citar igualmente, para exemplificar o começo da mudança no panorama cultural da cidade, a instalação de alguns cafés. Com esses estabelecimentos, que seriam pontos de encontro e de discussão, pretendia-se movimentar um pouco mais a vida social. No entanto, alerta Loyola (1997), "as mudanças no perfil provinciano da Capital ainda não são notadas neste momento. Os cafés permanecem vazios, dando mostra do estilo de vida roceiro dos moradores".50

A falta de vida social e o marasmo que pairavam sobre a cidade eram atribuídos à população que foi morar em Belo Horizonte. Os novos habitantes, especialmente os grupos de elite, não estavam acostumados a hábitos modernos e mantinham um estilo de vida acanhado e reservado. Esse estilo de vida foi apontado como obstáculo para que a cidade se tornasse pólo de cultura. "Persistem, na cidade recém-inaugurada, hábitos que remontam às velhas cidades de

49 LOYOLA, 1997, p.111. 50 LOYOLA, loc.cit.

38 Minas. Os moradores da Capital, em seus primeiros anos, não tinham o costume de receber em casa ou sair às ruas. Essas, projetadas para estimular o convívio social, sendo largas e arborizadas, permanecem vazias".51

A população de Belo Horizonte era composta, em sua maioria, por pessoas vindas do interior do estado. Acredita-se que os interioranos tiveram dificuldades ou não conseguiram absorver os hábitos e a cultura daquele mundo moderno. A cidade com grandes espaços públicos destinados à ocupação dos moradores continuava desocupada, com a convivência social quase restrita ao ambiente privado. "Nesse caso, percebe-se como a modernidade imposta verticalmente à sociedade encontrou em seu caminho, barreiras naturais".52

Como o estilo de vida acanhado e provinciano favorecia o hábito da leitura, Loyola (1997) afirma que a literatura era "a maior paixão da cidade naqueles tempos".53 Essa paixão se refletiu na imprensa, com o surgimento de várias revistas e jornais literários, e na vida social, com a presença dos clubes literários. A imprensa, por sua vez, se constitui em um espaço no qual a ausência de refinamento dos mineiros era evidenciada e depreciada. Os jornalistas produziram várias críticas sociais tendo como material a "falta de glamour dos matutos mineiros, dos hábitos interioranos dos habitantes da moderna Capital, e de sua falta de talento para as letras e de gosto pela cultura refinada (...). Os cronistas da imprensa retiram o substrato para produzir, nas páginas dos jornais, uma divertida e precisa crítica social".54

Nesse cenário de manutenção de hábitos e costumes tradicionais, a Igreja teve um papel relevante. Enquanto instituição muito influente, a Igreja adotava uma postura conservadora em relação à mudança de comportamento da população. "Se, por um lado, a elite sonhava com um modo de vida tipicamente burguês, galgado em valores cosmopolitas e na utilização dos espaços e equipamentos públicos, por outro lado, a sociabilidade promovida e construída em torno da Igreja Católica mostrava-se tão atrativa quanto nas cidades do interior (...)".55 Os festejos religiosos eram as principais formas de lazer e propiciavam a sociabilidade dos habitantes que, como já dissemos, estava quase restrita ao interior das residências.

51 LOYOLA, 1997, p.111. 52 COUTO, acesso 2013, p.78. 53 LOYOLA, op. cit., p. 116. 54 SIQUEIRA, 1997, p.91. 55 COUTO, op.cit., p.82.

39 A baixa sociabilidade nos momentos iniciais da capital pode ser explicada igualmente pelo fato de que seus novos habitantes vieram de localidades diversas e não tiveram tempo para criar laços. Segundo Cançado; Cunha (1997), pessoas de vários lugares se instalaram na recente capital, em busca das oportunidades que aquele novo meio parecia oferecer. Deste modo, "a sociedade ali criada, sem laços de união entre os novos habitantes e com poucas formas de identificação e pertencimento, parecia, aos que aqui chegavam, vazia e monótona".56

Além da manutenção de hábitos antigos, posturas contraditórias frente ao novo também impediram que Belo Horizonte alcançasse imediatamente o ideal da modernidade. Era grande o entusiasmo com as transformações e o progresso, mas o medo frente àquelas novidades e a incerteza do que elas representavam e do que poderiam significar se constituíram como obstáculos. A perda da simplicidade do belo-horizontino e da tranquilidade da vida na cidade era outro receio que assolava alguns moradores da capital e que os impediu de buscar e valorizar os novos hábitos e a nova vida.

Segundo Siqueira (1997), o que se via em Belo Horizonte eram posturas divergentes, ora conservadoras, ora progressistas frente ao novo. "O deslumbramento inicial, aos poucos, cede a uma relação ambígua, que oscila entre o otimismo e a hostilidade. A máquina transforma a maneira pela qual a mais simples atividade humana deve ser compreendida, gerando apreensão e angústia na esfera do trabalho".57 Medo, receio e incertezas se misturam à sedução e ao encantamento com a nova realidade.

Assim sendo, a invasão do cotidiano pela técnica teve como consequências sentimentos diversos e, por vezes, contraditórios. Mas merecem destaque, segundo Siqueira (1997), o otimismo, a crença no progresso e o fascínio frente às transformações.

Apesar de a modernidade ter sido alcançada somente tempos depois da inauguração, o encantamento dos moradores da capital frente ao novo pode ser percebido pela ansiedade em demonstrar sua familiarização com as inovações. Eles utilizavam para isso a imprensa, através de notas que davam conta dos passeios pelas ferrovias e através das seções de telegrama que mostravam como o telégrafo facilitava a integração de Belo Horizonte com grandes e movimentados centros. "Mas, se essas apoteoses e demonstrações técnicas têm como fim provar que Minas e Belo Horizonte já ingressaram no novo século, elas apenas explicitam o quanto esse

56 CANÇADO; CUNHA, 1997, p.203. 57 SIQUEIRA, 1997, p.75.

40 processo se antecipou às suas reais condições sociais e materiais e quão grande é o descompasso entre a modernização aparente e a realidade experimentada".58