A literatura registra várias definições de gêneros baseadas em uma ou mais perspectivas teóricas como a comunicativa, a sistêmica-funcional, a sócio-semiótica, a sócio- retórica, a sócio-discursiva, entre outras (DELL’ISOLA, 2008), embora ainda não se tenha chegado a um consenso para definir os critérios identificadores do gênero. Neste trabalho, utilizaremos a noção de gênero sob a ótica da abordagem sócio-retórica de Swales (1990) e Bhatia (1993).
O trabalho de Swales (1990) originou-se da sua preocupação com o ensino de produção escrita de inglês para fins acadêmicos. Em seu trabalho, Swales fez uma análise da estrutura retórica do gênero do tipo acadêmico (artigos de pesquisa com ênfase nas seções de Introdução e Discussão, além de abstracts, teses e dissertações) com a finalidade de fornecer suporte necessário aos alunos de produção escrita. Bonini (2006:58) sumariza o trabalho de análise de gêneros de Swales como “[...] uma tentativa de mostrar as ações que determinado indivíduo executa no sentido de produzir o texto que está na base do gênero (que o concretiza)”.
A teoria de gêneros de Swales (1990) é destinada, principalmente, ao ambiente acadêmico e fundamenta-se em preocupações pedagógicas. O conceito de gênero do autor está baseado em adequar-se ao contexto do ensino de inglês para fins acadêmicos. Sendo assim:
Um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos, cujos membros compartilham os mesmos propósitos comunicativos. Tais propósitos são reconhecidos pelos membros especialistas da comunidade discursiva de origem e, portanto, constituem o conjunto de razões para o gênero. Essas razões moldam a estrutura esquemática do discurso e influenciam e impõem limites à escolha de conteúdo e de estilo (SWALES, 1990:58).35
Comunidade discursiva e propósito comunicativo são dois conceitos importantes na concepção de gênero swalesiano. A idéia de comunidade discursiva ainda não é bem definida. Um dos argumentos é de que nem toda comunidade será discursiva como a dos assinantes de revista, por exemplo, e nem todos os discursos, como a previsão de tempo, são
35 No original “A genre comprises a class of communicative events, the members of which share some set of
communicative purposes. These purposes are recognized by the expert members of the parent discourse community, and thereby constitute the rationale for the genre. This rationale shapes the schematic structure of the discourse and influences and constrains choice of content and style.”
significativos para que uma comunidade discursiva se consolide (SILVA, 2005; SWALES, 1990). Além da dificuldade de defini-las, existe também a de reconhecê-las.
A comunidade discursiva segundo o conceito de Swales (1990) se consolida a fim de trabalhar em direção a um grupo de objetivos em comum. Os membros têm familiaridade com gêneros específicos que são usados na comunidade. Além disso, a comunidade tem mecanismos de participação, troca informações, usa uma terminologia especializada, tem uma estrutura hierárquica e um alto nível de competência.
Devido à abrangência do termo comunidade discursiva (HEMAIS; BIASI- RODRIGUES, 2005), neste estudo, ela é entendida como a unidade de pós-graduação dentro de uma faculdade abrangendo o corpo discente e docente. Por exemplo, na Faculdade de Letras da UFMG, temos o programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos - POSLIN; na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG temos o Centro de Pós-Graduação e Pesquisas em Administração - CEPEAD.
Já o propósito comunicativo é visto como o elo que une a comunidade discursiva ao gênero. No conceito original, Swales (1990) coloca o propósito comunicativo como sendo o critério básico e fundamental para o reconhecimento de um gênero. Além disso, o mesmo gênero pode ter vários propósitos comunicativos, embora nem sempre sejam explícitos ou facilmente identificados em uma atividade discursiva (SWALES, 1990). Posteriormente, Swales em parceria com Askehave (2001) fazem uma revisão do conceito de propósito comunicativo que passa a ser considerado não como um critério predominante na identificação do gênero, mas como um “repropósito”, ou seja, uma nova análise do propósito para confirmar ou redefinir o gênero. Para identificação do gênero, os autores propõem dois procedimentos de análise: uma do texto propriamente dito que inclui as seguintes etapas: estrutura, estilo, conteúdo, “propósito”, “gênero”36, contexto, repropósito do gênero e revisão do status do gênero. O outro procedimento seria a análise do contexto que inclui a comunidade discursiva, valores, objetivos, repertório de gêneros, repropósito do gênero e identificação do gênero. O ideal seria utilizar-se das duas análises conjuntamente. De qualquer forma, o propósito comunicativo continua tendo sua relevância nas investigações de gêneros textuais, inclusive realçando as funções sociais do gênero (ASKEHAVE; SWALES, 2001; BIASI- RODRIGUES, 2007).
A partir da noção de Swales de gênero, Bhatia (1993) corrobora com os conceitos de evento comunicativo, comunidade discursiva e valoriza o propósito comunicativo como
um critério importante para a definição de gêneros; incluindo em seu conceito, a possibilidade de um gênero possuir mais de um propósito comunicativo reconhecido pela comunidade discursiva. Sendo assim:
Gênero [...] é um evento comunicativo reconhecível caracterizado por um conjunto de propósito(s) comunicativo(s) identificado(s) e mutualmente entendido(s) pelos membros de uma comunidade acadêmica ou profissional na qual ele regularmente ocorre. Na maioria das vezes, ele é altamente estruturado e convencionalizado com limitações referentes às contribuições permitidas em termos de intenção, posicionamento, forma e valor funcional. Essas limitações, entretanto, são freqüentementes exploradas pelos membros mais experientes da comunidade discursiva para atingir intenções particulares dentro de uma estrutura de propósito (s) reconhecido (s) socialmente (BHATIA, 1993:13).37
Ao ampliar o trabalho de Swales (1990), Bathia (1993), além de incluir o ambiente profissional, coloca que uma mudança de propósito comunicativo pode fazer surgir diferentes gêneros ou/e sub-gêneros. Dentro de um gênero pode existir sub-gêneros que ocorreria quando houvesse pequenas mudanças no propósito comunicativo. Por exemplo, um artigo acadêmico pode ter sub-gêneros como o artigo de opinião, artigo de revisão bibliográfica, o artigo de pesquisa. Mas se as mudanças fossem grandes, cria-se outro gênero. Embora a distinção entre gênero e sub-gênero seja tênue, o uso do propósito comunicativo serviria como um critério para identificar e diferenciar um do outro.
Tanto Swales quanto Bhatia buscam definir gênero de forma que sua abrangência atenda aos propósitos comunicativos de uma comunidade discursiva, seja ela acadêmica ou profissional, e possam ser utilizados pedagogicamente.