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Den dekorerte stoa i Athen

In document Klassisk Forum, 2002:2 (sider 84-91)

Pode-se dizer que, quando um negro (a) ocupa a classe média brasileira, ele toma como vivência uma experiência fora do lugar. Isto significa que dentro de uma lógica histórica e social, ele ocupa lugares que habitualmente são ocupados por pessoas brancas. Esta visão situacional possui, portanto, algumas implicações significativas.

Já que o espaço do negro (a) é designado e naturalizado como um espaço de marginalidade e de exclusão, este negro (a) inserido na classe média elabora em seu estado inconsciente – ou elabora como habitus – alguns padrões de conduta, de comportamento, de atitudes e de ideologias que irão guiá-lo de forma a facilitar a sua trajetória.

A fim de evitar o racismo latente que vai acompanhá-lo mesmo em sua trajetória na classe média e a fim de evitar evidências que tragam a tona a sua condição de “sujeito fora do lugar” alguns negros irão evitar comportamentos que evidenciem o lugar designado a eles em toda a história da humanidade, a saber, bares, desemprego, o ato de não trabalhar, vestir-se mal, falta de etiqueta, dentre outros exemplos. 82

Concomitantemente a este fato, muitos negros (as) inseridos em cargos de prestígio, irão optar por se distinguir daqueles negros “não letrados”83, marginalizados, e excluídos. Este fato muitas vezes implicaria no distanciamento de toda e qualquer referência que colocasse a raça negra como uma questão importante a ser discutida.

82 Muitos desses exemplos podem ser encontrados na obra de Fernandes (1978). 83 Conceito utilizado por Clóvis Moura (1994)

Pensamos que o distanciamento do movimento negro por parte de muitos desses negros (as) inseridos na classe média se conforma com os motivos anteriores. Entretanto, eles não são os únicos.

Em nossa pesquisa percebemos que os muitos dos entrevistados absorvem e interpretam a representação do movimento negro na sociedade como algo maléfico.

Nenhum dos 13 entrevistados se vincula ou já esteve vinculado a este tipo de movimento. Entre os depoentes, 5 dizem não participar pois ocorre um preconceito por parte desses movimentos. Outros 4 (uma delas faz parte dos três entrevistados supracitados) mencionam que não deve existir um movimento só para os negros e sim para todas as raças.

Outros possuem opiniões distintas: 1 diz que não é certo trazer fatos do passado para o presente (se refere a escravidão), 2 deles dizem não ter tempo para freqüentar o movimento, e o último deles teve sua resposta perdida por problemas técnicos no gravador.

A maior parte das respostas estão agrupadas na afirmação de que existe um preconceito que parte dos negros para com os brancos e também, na exigência de um movimento que uma todas as raças.

Acreditamos que a primeira posição esteja relacionada ao “radicalismo” associado aos movimentos que às vezes exige de seus membros posturas e condutas que se voltem exclusivamente para a construção de uma identidade negra. Esta posição segue em consonância com a fala de uma entrevistada que afirma que os grupos que cultivam uma identidade racial (como o movimento negro) críticam as mulheres que alisam o cabelo, este ato por sua vez, negaria o cabelo afro.

Muitas vezes, a representação do movimento negro absorvida por parte desses negros de classe média está pautada no desconhecimento, ou na desinformação que parte deles possui sobre a forma como os mesmos vivenciam suas experiências e trajetórias. Cabe questionarmos, portanto, qual seria a imagem que o movimento negro está transmitindo para a população e qual seria a imagem que eles realmente representam e que gostariam de disseminar.

A imagem do “radicalismo” citada indiretamente por grande parte dos entrevistados, não implica no fato de experienciar a ato de ser negro, antes, na essencialização do ato de ser negro.84

Neste sentido seria importante questionar se o distanciamento do movimento negro por parte destes entrevistados se dá devido à compreensão e a interpretação de que o movimento negro é realmente radical ou ao fato de que existem alguns membros dentro desses movimentos que se mostram radicais.

Logo, seria interessante ponderarmos se este distanciamento e o não comprometimento com o movimento poderia ser traduzido como um modo de evitar o racismo, já que estariam assim, se distanciando de sua real identidade, ou melhor, se esquivando de ter que resolver ou solucionar o fato de estarem imbuídos de uma experiência “fora o lugar”.

Poderíamos pensar também, até que ponto estes negros (as) inseridos na classe média, não se associam aos movimentos negros para experienciar uma outra alternativa de vida que não a vivência intensa da sua raça.

Todas as alternativas dadas anteriormente podem ser realmente plausíveis. Mas quantificar o número dos negros que optam ideologicamente por cada uma das alternativas de identificação anteriores não parece ser o melhor caminho.

O que podemos dizer ao certo é que distanciar-se ou não do movimento negro e vivenciar uma experiência negra é uma forma de mostrar a sua identidade, e de se identificar com algo. Neste caso é importante lembrar que a identidade, portanto, não é algo fixo e estático.

O processo de significação e resignificação identitário pode ser modificado, e estar em constante mudança, e transformação.

Por isso, permitimo-nos dizer que por mais que alguns dos entrevistados não se identifiquem com movimentos negros (não se filiem politicamente a eles), e planejem

84 O ato de fortalecer a identidade racial é realizado (através da criação dos movimentos negros e de uma identidade negra), pois há uma história que naturaliza o estigma de ser negro na sociedade. A contrapartida desta naturalização é exatamente a transformação da representação do negro na sociedade. Esta seria uma postura de conscientização e de luta contra o preconceito e a discriminação racial. Porém, pensamos que, quando a identidade negra é tomada como foco, ou como objetivo precípuo na experiência vital, faz-se necessário repensar este tipo de proposta.

discursivamente suas falas indicando o distanciamento com experiências de vida repletas de uma certa negritude, eles podem se permitir viver individualmente a experiência de ser negro.

A percepção de um olhar agressivo, a luta individual e cotidiana contra experiências racistas, a vivência em religiões afro-brasileiras (mesmo quando são negadas), nos mostram que por trás das falas e dos discursos já moldados e construídos (respaldados por uma naturalização e por uma construção social) existe alguma identificação com a raça negra, afinal de contas (por vontade própria ou não) essas pessoas se assumem como negras.

É a partir desta “identificações fracas”85 que conseguimos visualizar em boa parte dos entrevistados uma ação individual latente. Ou seja, eles possuem um vínculo com a sua raça (mesmo que discreto ou indireto). Ele pode mostrar isso em seus comportamentos, atitudes, e discursos. Este fato implica no ato de recorrer a uma parte do que você realmente é e do que você realmente se identifica.

Muitas vezes esta “identificações fracas” não se transformam em “identificações fortes”86 devido exatamente as construções sociais direcionadas a toda a sociedade que atribui um lugar para o negro e ainda justifica (de maneiras diversas) os motivos pelos quais este deve continuar sendo o seu lugar.

Outras vezes, estas “identificações fracas” não se transformam em “identificações fortes”, pois o ato de experienciar o “ser negro” não é tido como primeira opção para os entrevistados.

Podemos perceber que apesar de grande parte dos entrevistados não fazerem parte de nenhum tipo de movimento negro, adquire-se individualmente formas próprias e particulares de combater o racismo.

Algumas teses e dissertações sobre os negros na Região de São Carlos e Araraquara, a saber, Donatoni (1998, p.114, grifo nosso), argumentam que o fato de algumas pessoas participarem do movimento negro as levam a mudar a sua concepção quanto a sua identidade étnica. Desta forma, as pessoas inseridas no movimento negro

85Termo escolhido para explicar o mínimo possível de vínculo com a identidade negra, seja pelos traços culturais ou por vivenciar situações de preconceito que são vivenciadas por boa parte dos negros.

86 Este termo seria referente àqueles que se identificam fortemente com a identidade negra, vivenciam a cultura negra em suas vidas constantemente. Tanto no jeito de se vestir, na alimentação, na escolha das músicas, dos instrumentos musicais, das atividades culturais que praticam, etc.

“passam a valorizar a cultura negra [...] além de entender melhor a discriminação e enfrenta-la de forma a combatê-la.”

A afirmação anterior passa a ser refutada diante da presente pesquisa. Observamos que parte dos negros inseridos na classe média de ambas as cidades, que não se afiliam aos movimentos negros, entende muito bem o que é a discriminação e muitas vezes utilizam meios individuais para combatê-la.

Contudo, uma questão mais importante para esta pesquisa deve ser levada em conta. O momento das “identificações fracas” ou de “identificações fortes” vivenciado por muitos negros da classe média brasileira, não são fixos, estão em mudança constante. Logo, haverá ou não mudanças na representação e no processo de significação e resignificação que pode ocorrer em instituições concretas e nos níveis mais abstratos do pensamento (ideologias) em nossa estrutura societal.

4.5 Interpretando a interpretação da experiência

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