As figuras do ethos político são voltadas para si mesmo, para o cidadão e para os valores de referência. Dessa forma evidencia-se a complexidade da construção do ethos do enunciador político, tendo em vista os vários traços constitutivos do ethos de credibilidade e de identidade que são relacionados às expectativas dos cidadãos, por meio de imaginários que podem atribuir valores positivos ou negativos às ações discursivas do sujeito político (CHARAUDEAU, 2008).
As ideias do sujeito político não podem ser separadas, tendo em vista que elas não valem senão pelo sujeito que as divulga, as exprime e as aplica, especialmente, no âmbito do discurso político. É necessário que o sujeito político creia no seu poder de fazer e tenha para isso o suporte de sua identificação, já que deve possuir credibilidade para a adesão às suas ideias. De acordo com Charaudeau (2008), duas figuras identitárias reagrupadas pertencem ao discurso político: o ethos de credibilidade e o ethos de identificação.
Essas figuras identitárias se agrupam em duas grandes categorias: os ethé da credibilidade, que se fundam na razão; e os ethé da identificação, que se fundam no afeto social. A partir desse reagrupamento, pode-se considerar que tanto o ethos de credibilidade, quanto o ethos de identificação podem ser considerados, conforme caracterizado por Maingueneau (2008), fenômenos de ethos composto por misturarem vários ethé, ou seja, misturam traços de vários ethos.
Charaudeau (2008) afirma que no, no discurso político a credibilidade é fundamental, uma vez que o desafio consiste em tentar persuadir determinado público de que se tem certo poder. Para a construção do ethos de credibilidade do enunciador do discurso político são necessárias três condições: sinceridade, performace, e eficácia. Para o alcance desses objetivos, o político procura
construir para si a imagem de credibilidade, por meio dos traços do ethos de sério, do ethos de virtuoso e do ethos de competente.
Os traços do ethos de sério, são construídos com a ajuda de vários índices corporais: autocontrole de emoções nas mais variadas situações do cotidiano e precaução nos atos da vida pessoal; de índices verbais: autocontrole em relação ao tom e a escolha de palavras, tendo em vista as representações sociais que cada grupo faz a respeito de quem é sério e de quem não é. De acordo com Charaudeau (2008), muito embora os traços do ethos de sério sejam constitutivos do ethos de credibilidade, é evidente o limite da austeridade, a fim de que não funcione negativamente na construção do ethos de credibilidade.
Os traços do ethos de virtude, igualmente constitutivo do ethos de credibilidade, podem ser materializados no imaginário social a partir do conceito de que um representante deva ser sincero, fidedigno às suas propostas e possua honestidade pessoal. Essas representações se constroem através do tempo, por meio da constância das ações do sujeito político, ou por meio das próprias declarações do político. Sobre o ethos da virtude Charaudeau (2008, p.124) afirma:
O ethos da virtude é uma resposta às expectativas fantasiosas da instância cidadã, na medida em que esta, ao delegar um poder, procura fazer-se representar por um homem ou uma mulher que seja modelo de retidão e de honradez, ao menos, em uma visão nobre da política.
E por fim, os traços do ethos de competência que, incorporados ao ethos de credibilidade do discurso político, são evidentes na representação social que exige do sujeito político um conhecimento profundo do domínio particular de sua atividade, além de provar que tem os meios, o poder e a experiência necessários para alcançar os seus objetivos. Conforme Charaudeau (2008), essas representações se dão pelo conjunto do percurso de um político para julgar o seu grau de competência. Contudo, acontece, às vezes, de ser o próprio sujeito político evidenciar esses percursos por meio de
declarações para reforçar esses traços do ethos de competência: herança, estudos, funções exercidas, experiência adquirida etc..
O ethos de credibilidade é uma construção sobre um atributo. É uma construção, em virtude da maneira pela qual o sujeito encena sua identidade discursiva e é um atributo, em virtude de uma identidade social que o sujeito possui, e que depende, simultaneamente, de seu estatuto e da maneira que o público o percebe.
O ethos de identificação apresenta muitos traços de vários ethé em sua constituição e tem a função de mobilizar a adesão de um maior número de indivíduos. Isso conduz a uma heterogeneidade ainda maior em relação ao imaginário social. Assim, justifica-se o jogo de imagens opostas nas ações discursivas do sujeito político, a fim da adesão e a manutenção da instância cidadã. Sobre essa polivalência de imagens Charaudeau (2008, p. 138) descreve:
Apesar dessa polivalência de imagens, é possível destacar algumas, entre as mais recorrentes que caracterizam o ethos de identificação do discurso político. Umas são mais voltadas para si mesmas, pois supostamente refletem os traços que definem e essencializam os políticos enquanto pessoas; o ethos de potência, o ethos de caráter, o
ethos de inteligência e o ethos de humanidade. Outros, como o ethos
de chefe, são antes orientados para o cidadão, na medida em que se fundam sobre uma relação necessária entre si e o outro.
Os traços do ethos de potência são observados no ethos de identificação, a partir da imagem da força da energia física, característica da potência masculina. Contudo, pode marcar a determinação em agir, indicando que não há só palavras, mas também ações.
Igualmente presentes no imaginário de força estão os traços do ethos de caráter, representados na força do espírito, como quando se diz que alguém tem caráter. Esses traços de ethos são representados nas imagens de vituperação ao defender um valor moral que poderá trazer resultados positivos ou negativos, devido às polêmicas trazidas; de controle de si, que supostamente denota um caráter equilibrado; de coragem que dá a entender que o sujeito político enfrentará as adversidades para defender os valores e a
integridade identitária de seu povo; de moderação que no discurso político é uma atitude de conveniência tática que tem por objetivo a resolução dos conflitos.
Constitutivo do ethos de identificação, os traços do ethos de inteligência são percebidos, não só pela maneira como o sujeito político age e fala durante acontecimentos políticos, mas também, da apreensão da sua vida pessoal. Essa figura é o produto do patrimônio cultural que o político herdou de sua origem social e de sua formação, contudo, é confirmada pelos comportamentos atuais. Os traços do ethos de inteligência são confirmados por meio de figuras de malícia, pois denota o saber jogar com o ser e o parecer para atingir os seus fins. Isso pode ser percebido de maneira favorável ou desfavorável. Julgada favorável é chamada de “habilidade”; julgada desfavorável de “duplicidade”. (CHARAUDEAU, 2008).
Várias figuras materializam os traços do ethos de humanidade, dentre elas podemos citar a figura do sentimento que é necessária e deve ser usada com cautela, a fim de que o sujeito político não passe por fraco.
Ainda mais voltado para o cidadão, os traços do ethos de chefe, constitutivo do ethos de identificação, são representados na relação de reciprocidade que se orienta mais diretamente, ora para o sujeito político, ora para o sujeito cidadão. Dessa forma, os traços do ethos de chefe são manifestados por meio de diversas figuras de guia, de soberano e de comandante.
A figura de guia supremo é representada a partir de uma necessidade para a permanência de um grupo social e pode ser reagrupada em: guia-pastor e guia-profeta. Os traços de guia-pastor metaforicamente, correspondem a um condutor de homens que sabe se fazer seguir; o guia-profeta é aquele que, ao mesmo tempo, é fiador do passado e é voltado para o futuro, o destino dos homens.
A figura soberano é o imaginário que vê o político como aquele que é o fiador dos valores, fundador da legitimidade política e que se abstém de comprometimentos.
A figura do comandante se mostra ainda mais autoritária, na verdade agressiva, em relação à figura do guia e de soberano e representa a imagem do sujeito disposto a chegar aos limites na defesa da soberania de seu povo.
Essa imagem é destinada a arrastar todo um povo atrás de si, em direção à sua salvação.
Os traços do ethos de solidariedade que se fazem presentes no ethos de identidade são representados a partir da conduta do político que não está somente atento às necessidades do outro, mas que as partilha e se torna responsável por elas. Essa figura se constrói em uma relação de reciprocidade entre atos e declarações. Para a construção do ethos de solidário, o sujeito político deve se mostrar consciente das responsabilidades que cabem a ele próprio e a seu governo. Além disso, o político deve compreender o valor do saber ouvir, que é uma atitude de consideração com os outros. Assim, o enunciador político é conduzido a dizer que ouve o povo e leva em consideração a opinião pública, com conhecimento de causa.
O discurso estabelece a ligação entre a instância política (do poder) e a cidadã (reguladora). O ethos pertence ao domínio das representações sociais, e sua valorização no domínio político depende das circunstâncias da produção do discurso.