• No results found

Munanga e Gomes (2004) colocam que era comum encontrar imagens positivas sobre a África até a véspera da era colonial moderna. Mas após a conferência de Berlin, em 1885, quando foi definida a partilha colonial da África entre os países europeus, que tinha o objetivo de explorar politicamente e economicamente esse continente, as imagens simpáticas e tranquilas começaram a

modificar, justificando a invasão e a exploração e desaparecendo as belezas naturais dos territórios e as mulheres e crianças negras. Esse povo tornou-se sem cultura, sem história, sem identidade. Reinos e impérios foram transformados em tribos primitivas, em estado de guerra constante.

As imagens dos africanos foram bestializadas para justificar e legitimar a violência, a humilhação, os trabalhos forçados e a negação de sua humanidade pelos europeus, que os tratavam de maneira desumana e os submetiam a condições de vida muito precárias.

Essas imagens também nos fizeram acreditar durante muitos anos que o africano escravizado sofreu de maneira passiva todos esses maus tratos realizados pelos senhores. Elas mostravam uma relação harmoniosa entre os escravos e os escravocratas. Mas isso não é verdade, Munanga e Gomes (2004) nos afirma que a escravidão sempre foi acompanhada por um forte movimento de resistência e de revolta. Elas interferiram e ainda interferem no imaginário construído em nossa sociedade sobre o negro, influenciando na construção da autoestima e na identidade do nosso povo brasileiro.

Elias (2000) fala que dando uma reputação ruim a um grupo é provável que ele corresponda a essa expectativa. Por isso, que na formação inicial e/ou continuada do professor de artes visuais é necessário olhar de uma forma crítica as imagens estudadas.

Com a Mostra do Redescobrimento, de 23 de abril a 7 de setembro de 2000, em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil pelos portugueses, a arte afro-brasileira foi colocada em exposição não mais com aqueles antigos olhares de curiosidade, mas agora com efeito de apreciação. Essa exposição foi toda instalada no Parque Ibirapuera, em São Paulo e mostrou a contribuição da comunidade negra no processo cultural do país, envolvendo não só a arte, mas também a história e a antropologia, refletindo o negro na sociedade.

A abrangência desse feito pode ser mais bem avaliada a partir da leitura do catálogo com o título: Negro de Corpo e Alma: Mostra do Redescobrimento. Esse catálogo revela uma mostra de fotografias e pinturas de pessoas e objetos, tendo o negro como tema e como autor, trazendo também perfis de personalidades negras da história do Brasil, como a de Luís Gama, poeta, advogado e abolicionista negro do século XIX.

Mostrar e estudar as importantes personalidades negras, apresentando a resistência dessas pessoas, contribui para que as crianças negras cresçam com uma imagem positiva de si mesmas e de seus ancestrais.

Ensinar as manifestações artísticas africanas é não olhar simplesmente o caráter técnico, a estrutura formal da obra, mas sim situar o seu contexto, englobando os processos socioculturais, conferindo-lhes uma significação cultural.

As obras africanas não só carregam simbolismos como também refletem os aspectos geográficos dos locais onde foram produzidas. Por exemplo, a escultura da sociedade africana, não expressa a individualidade do artista que a faz, mas sim a coletividade de seu povo. As esculturas são objetos de rituais, de comunicação com os deuses e uma maneira de mostrar-se e distinguir-se das demais comunidades.

A arte africana é um meio de comunicação com o plano espiritual e não simplesmente um objeto estético. José Carlos Gomes da Silva, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, pós-doutor pela Universidade Estadual de Campinas e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), junto com Ana Paula de Oliveira Alcântara, mestre em História e Teoria da Arte pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, salientam: “Para o africano, a existência ocorre em dois níveis, o AIÉ- terra e o ORÚM- plano invisível, que pode ser sentido e vivido através de alguns mecanismos rituais” (SILVA e ALCÂNTRA, 2004, p. 116).

Quando falamos em cultura afro-brasileira devemos lembrar que ela está embebida nesses padrões apontados por Silva e Alcântra, (2004), pois é uma manifestação complexa porque não está somente no campo artístico, mas também no campo social, político e cultural. Para fazer uma leitura dessa arte precisamos de seu contexto e de sua história.

Na década de 1970, quando o Brasil valorizou as culturas de origem, surge o rótulo “afro” para designar o patrimônio africano no Brasil e especialmente para identificar nas manifestações consagradamente afro-brasileiras um certo purismo africano.

Em sala de aula, esse termo “afro” abre múltiplas possibilidades, pois podem ser trabalhadas peças produzidas em diferentes nações africanas (Nagô, Jêje, Angola); os objetos de uso ritual; objetos de uso cotidiano, denominados artesanato ou objetos utilitários; pinturas de artistas que têm uma visão exótica do escravo africano (Debret, Rugendas, Carlos Julião); pinturas de artistas que mostram a visão

do branco sobre o negro (Tarsila do Amaral, Portinari, Di Cavalcanti); artistas que mostram a visão do negro sobre si mesmo (Arthur Timóteo, José Benedito Tobias); os que mostram o momento atual (Mestre Didi, Rosana Paulino, Rego Monteiro, Rubem Valentim); fotógrafos que têm como temática a arte afro-brasileira (Walter Firmo, Pierre Verger, Madalena Scharwartz, Mário Cravo Neto) ou ainda entrar no campo antropológico e ver a proposta de Raul Lody, que estuda a cultura material corporificada, as joias de Axé, pencas, guisos dos orixás e fios de conta.

As tendências atuais na arte-educação têm buscado a preservação das culturas e da harmonia por meio do desenvolvimento de habilidades em muitos sistemas culturais. Essas atribuições envolvem o conhecimento e a capacidade de lidar com códigos culturais de outras culturas, bem como a compreensão de como ocorrem certos processos culturais básicos e o reconhecimento de contextos macroculturais em que as culturas se inserem, como é o caso da arte. Sua característica principal reside em considerar a diversidade um recurso e uma força para a educação, pois assim, podemos trabalhar com as heterogeneidades presentes nas diversas culturas. A educação refere-se aos processos formais e informais por meio dos quais a cultura é transmitida aos indivíduos e por eles vivenciada.

A função das artes, através da história cultural humana tem sido e continua a ser a de “construção da realidade”. Isso não tem sido fundamentalmente alterado pelas investidas do pós-modernismo. Arte constrói numerosas representações do mundo, as quais podem ser sobre o mundo real ou sobre mundos imaginários, inexistentes, mas a inspiração humana continua podendo criar uma realidade diferente para cada um deles. A realidade social inclui coisas tais como: dinheiro, propriedade, sistemas econômicos, classes sociais, gênero, grupos étnicos, governos, sistemas de cerimoniais religiosos e crenças, linguagens e similares. As artes são representações simbólicas dessas realidades. As artes são importantes pedagogicamente porque espelham essas representações de forma a que possam ser percebidas e sentidas (EFLAND, 2005, p. 183).

Assim, a arte-educação, entre outros objetivos, enfatiza a habilidade de interpretar obras de arte sob o aspecto do seu contexto social e cultural, conectando o indivíduo com o mundo ao seu redor, ajudando-o a perceber como é esse mundo e como se inserir nele. Para isso acontecer, o professor precisa se qualificar.

2.3 A FORMAÇÃO CONTINUADA DOS PROFESSORES DE ARTES