“A Resiliência é a arte de navegar nas torrentes.” Cyrulnik, B. (2001:225) O termo resiliência tem origem no latim resiliens que significa “Saltar para trás, voltar, ser impelido, recuar, encolher-se, romper.” (Pinheiro:68 cit. in Cardoso, 2011).
O conceito de resiliência surgiu na década de 70 na área de psicologia, no âmbito de estudos desenvolvidos para estudar pessoas que ao passarem por situações negativas e traumáticas não alteravam o seu estado de saúde como seria de esperar (Regalla, Guilherme & Serra-Pinheiro, 2007, Souza & Cerveny, 2006a, Souza & Cerveny, 2006b cit. in Cardoso, 2011). A resiliência é a capacidade que a pessoa tem de se reorganizar, adaptar após uma situação desagradável.
De acordo com Rutter, 1987 cit. in Afonso, 2012 e Oh & Chang, 2014 o estudo da resiliência surge associada ao estudo da psicopatologia da infância e da adolescência, onde os estudos se debruçavam essencialmente sobre crianças que viviam em famílias de alto risco. Estes estudos eram usados para descrever as características que fazem com que o indivíduo não seja disfuncional socialmente, apesar das características do meio em que se desenvolveu. A resiliência é utilizada para descrever a capacidade do indivíduo em se adaptar de forma satisfatória e circunstâncias adversas.
32 O conceito de resiliência evoluiu, passando da forma de tradicional, onde apenas a resiliência era estudada de acordo com as características de um individuo da família, passando a ser estudada de uma forma mais abrangente, onde são tidos em conta propriedades relacionais da família, que facilitam o crescimento e evolução da família como unidade (Oh & Chang, 2014).
De acordo com Hildon, Montgomery, Blane, Wiggins e Netuveli, 2009 cit. in Afonso, 2012 a velhice caracteriza-se pelo aparecimento de um conjunto de limitações funcionais e de diminuição do funcionamento em diversos domínios como na saúde e circunstâncias gerais de vida e acontecimentos de carácter negativo. O conceito de resiliência na velhice está relacionado com a recuperação de um risco ou acontecimento negativo e com a manutenção e desenvolvimento de capacidades face à acumulação de ameaças e desafios. Deste modo, é importante identificar e compreender que fatores e processos provocam o desenvolvimento da capacidade do idoso de recuperar ou manter bem-estar apesar das perdas e desafios que podem ocorrer na velhice (Afonso, 2012).
A investigação em torno da resiliência e envelhecimento tem seguido duas linhas de pensamento. De acordo com os autores Hildon, Montgomery, Blane, Wiggins e Netuveli, 2009 cit. in Afonso, 2012:169 “a resiliência foi, inicialmente analisada como um resultado positivo perante um acontecimento negativo ou como um traço de personalidade moderador da resposta de stress”. A primeira perspetiva identifica as características de fatores relacionados com o facto de os indivíduos terem mais resistência ao impacto de situações difíceis. Surge deste modo, a questão se existirá ou não um recurso comum, isto é, se existirá uma fonte que torne a pessoa mais resiliente.
Os autores Ryff e Singer, 2003 cit. in Afonso, 2012 consideram que a resiliência deve ser analisada como um recurso interno de personalidade, acreditando que o facto de um indivíduo ser ou não resiliente está relacionado com características psicológicas. No perfil de indivíduos com capacidade de resiliência, de acordo com Anthony & Cohler, citado por Souza & Cerveny, 2006b:22 cit. in Cardoso, 2011:61 estão presentes traços de personalidade tais como “temperamento fácil, nível mais alto de inteligência e de autoestima, e um senso realístico de esperança e controle pessoal.”
A resiliência é um processo dinâmico que está relacionado com fatores protetores de carácter sociológico, psicológico, relacional e biológico. Os aspetos sociológicos estão
33 relacionados com a educação e o rendimento económico. A nível psicológico destaca-se características de personalidade e mecanismos de interpretação e avaliação dos acontecimentos, ou seja a forma como o indivíduo encara acontecimentos trágicos ou perdas. A nível relacional, que está relacionado com as redes de suporte social, a integração na comunidade, características das redes familiares e de vizinhança. Por último as características biológicas, relacionadas com a ótima alostase e ativação simétrica. Todos estes fatores enumerados anteriormente influenciam a capacidade que os indivíduos têm para manter bons níveis de saúde e bem-estar, apesar das adversidades do quotidiano (Riff, Singer, Love e Essex, 1998 cit. in Afonso 2012).
A resiliência é entendida, de acordo com Rutter, 1999 cit. in Cardoso, 2011 como a capacidade de dar resposta a um fator de risco, entendendo-se risco como experiencias negativas. Estes riscos são experienciados de forma distinta pelos indivíduos, dependendo do momento que está a passar no seu ciclo de vida. Desta forma, para estudar se as pessoas são resilientes é necessário estudar as interações do momento histórico que a pessoa está a passar. Assim, a resiliência não é universal nem estática, dependendo das condições, circunstâncias e contexto.
Existem fatores de risco que podem influenciar o nível de resiliência tais como dificuldade de controlo emocional, sentimentos de culpa, ausência de comunicação, inexistência de apoio, e múltiplas e simultâneas transições desenvolvimentais e situacionais (Antoni & Koller, 2000 cit. in Cardoso, 2011). A intervenção junto dos indivíduos deve ter como objetivo a identificação de estratégias que a família pode desenvolver para lidar com a situação e ficar forte apesar da existência de um acontecimento negativo (Walsh, 1996 cit. in Cardoso, 2011).
Podendo o papel de cuidar, de acordo com Peixoto & Martins, 2012 desencadear eventos stressantes para a família, nomeadamente para o cuidador informal, o Perfil de Resiliência da Família, pode influenciar a sobrecarga e bem-estar do cuidador informal, sendo esta variável de elevada importância no nosso estudo.
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CAPÍTULO III-OS PROCESSOS DE ENVELHECIMENTO:DESAFIOS À PRÁTICA