Mesmo considerando as especificidades de cada cidade e, principalmente, de cada professor interlocutor desta pesquisa, é possível afirmar que as primeiras impressões que tive da FECLI e de Iguatu foram muito próximas das que tive da FECLESC e de Quixadá, uma vez que as características das cidades, as instalações físicas da FECLI, e a estrutura dos relatos no que condiz às criticas sobre a faculdade foram muito próximas e se equivaleram à pesquisa realizada na cidade anterior.
O trabalho de campo em Iguatu foi realizado na sequência imediata do trabalho realizado em Quixadá, ambas no decorrer do primeiro período letivo de 2011 e talvez este fato possa ter colaborado para esta percepção inicial. No entanto, é notório que a estrutura do campus também é visivelmente precária. Nesta unidade foram entrevistados 04 docentes sendo dois professores e duas professoras.
A FECLI também surgiu no início década de 1970, sendo fruto da articulação dos movimentos sociais, do poder público municipal e da Igreja Católica que, buscando aproveitar a posição de destaque da cidade e sua importância comercial e industrial para a Região do Centro-Sul Cearense
58 naquele período, buscaram impulsionar ainda mais seu desenvolvimento, criando em meados dessa década a Fundação Universitária Centro-Sul – FUCS, a qual, anos depois, início da década de 1980, foi incorporada à UECE e passou a adotar a nomenclatura que persiste até o momento atual.
A despeito das impressões iniciais, a análise das entrevistas acabou levantando dois outros pontos relevantes: o primeiro, específico dos professores da FECLI, refere-se à localização geográfica da cidade e os vínculos que mantêm com as cidades da região do Cariri: Juazeiro do Norte e Crato. Dos quatro professores entrevistados, dois moram no Cariri – um em cada cidade destacada acima – um reside em Iguatu, e o outro em Fortaleza.
Iguatu dista aproximadamente 380 Km de Fortaleza e cerca de 120 a 130 Km das cidades de Crato e Juazeiro do Norte, respectivamente e devido ao significativo crescimento da região do Cariri Cearense nos últimos anos, tanto no setores de comércio e indústria quanto no setor de serviços, em especial saúde e educação superior, alguns professores, assim como alguns moradores e comerciantes que mantive contatos informais durante a jornada de campo, me afirmaram que a ligação de Iguatu com a região do Cariri é histórica e sempre foi mais intensa do que com Fortaleza.
Liege, professora da FECLI desde 1994, vivenciou durante vários anos uma intensa relação com três territórios distintos: Crato, Iguatu e Fortaleza.
Eu nasci e me criei no Crato, fiz graduação lá e depois fui morar em Fortaleza porque também tinha família lá. Passei ainda como graduada no concurso da UECE para Iguatu e tentei me estabelecer por lá. No entanto, no período que fiquei em Fortaleza conheci a pessoa que hoje é meu esposo e isso complicou um pouco porque ele estudava e trabalhava lá e também jamais topou vir morar aqui (ele nunca cogitou essa possibilidade). Então, desde o início, eu tive que ficar viajando direto. Um final de semana eu ia pro Crato visitar meus pais e meus amigos, um outro eu ia para Fortaleza para vê-lo. Era muito desgastante porque ele não queria nem vir passar uns dias aqui comigo e, quando vinha, ficava tão mal-humorado falando que tudo aqui era ruim que eu mesma fiz questão dele não vir mais...
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Depois pedi licença à faculdade para fazer o mestrado, isso já foi no começo dos anos 2000. Nesse período tudo foi mais calmo porque fiquei só em Fortaleza, ficava com meus filhos mais tempo. Porém, sorte mesmo eu tive quando meu esposo passou num concurso lá em Juazeiro do Norte... Sorte assim, eu continuei e continuo viajando e mesmo muito acostumada às viagens e adaptada a este ritmo, já estou ficando cansada e contando os dias para me aposentar. O negócio só não é mais desgastante porque tenho outros amigos aqui da FECLI e alguns da Urca aqui de Iguatu que viajam comigo e a gente acaba criando estratégias e se divertindo um pouco nos percursos. (sic).
Em outros momentos da entrevista a professora Liege dizia que “temia pelo futuro FECLI”, pois na sua visão, a “Faculdade parou no tempo” e “falta, além de investimentos, políticas que dinamizem a UECE no interior”. Ao final do segundo período letivo de 2010 a FECLI tinha 523 alunos matriculados – “Nunca fomos uma grande faculdade, mas já tivemos mais alunos... e alunos mais interessados também”. O desinteresse relatado também por outros dois professores pode estar relacionado, segundo eles, não só à falta de investimentos da UECE, mas aos poucos atrativos de se tonar professor aliado às outras opções de formação acadêmica e profissional que existem na cidade e na região.
Poucas pessoas querem se tornar professores hoje. Ainda mais porque, agora, os jovens da região têm várias outras opções: a URCA tem cursos mais atrativos, aqui tem duas faculdades particulares que atualmente estão crescendo, sem falar do CEFET, da UAB, dos cursos sequenciais que tirou muito de nossos alunos. Enfim, na minha visão a cidade mudou, a natureza e as exigências do mercado também e a FECLI não tem acompanhado essas mudanças. Ao contrário, a estrutura e a dinâmica são as mesmas desde quando cheguei aqui em 2003. Não falo nem de novos cursos, falo de dinâmica mesmo. Fazemos seminários e outras atividades, mas, no fundo, não sei se estamos preparados e preparando bem nossos estudantes, futuros professores, para as novas realidades, inclusive
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escolares, da sociedade contemporânea10 (Jacob, professor do curso de Ciências Biológicas).
A percepção do professor Jacob sobre um possível cenário de relativa estagnação de algumas unidades da UECE no interior, faz emergir o segundo ponto de reflexão que, desta vez, extrapola a especificidade da FECLI e de seus professores, sendo uma incômoda realidade da maioria dos professores da UECE que atuam no interior. Tal ponto refere-se às limitadas possibilidades de se fazer pesquisa, de se montar grupos de pesquisa e de adotar novas práticas pedagógicas de ensino associadas às novas tecnologias. “Como incentivar nossos alunos a pesquisarem se não temos laboratórios de estudos nem recursos suficientes para desenvolvermos pesquisas mais interessantes”? questiona a professora Marli do curso de Física, que complementa:
Certa vez fui à pró-reitoria levando um projeto para instalar um laboratório de física aqui na FECLI, coisa simples, sabe o que escutei do digníssimo pró-reitor? “Cara professora, esqueça esse negócio de laboratório, não temos recursos para esse investimento. A UECE criou e mantém cursos de licenciatura do interior justamente para não termos que fazer grandes investimentos em material e recursos para pesquisa, criação de laboratório... Não dá. Faça pesquisa sobre o material didático, ou sobre os professores de Física na região, coisas desse tipo que são importantes, mas que dependem mais de leitura e boa vontade do que de recursos materiais. Quase não dispomos desses investimentos para os cursos daqui de Fortaleza, imagina para o interior”. Agora eu lhe pergunto colega, não é revoltante um negócio desses? (sic).
A forma como os professores percebem e se percebem ante o processo de interiorização constitui o cerne desta tese. Ser professor do ensino superior no contexto da interiorização revela inúmeras adequações e consequências que o docente passa a realizar ou sofre, principalmente aqueles
61 que trabalham com campos que exigem mais investimentos tecnológicos como os professores de Química, Física, Ciências Biológicas. Sempre foram destes as principais queixas, bem como é deles que advém as principais adequações para o prosseguimento de pesquisas iniciadas, geralmente no decorrer de seus cursos de mestrado e/ou doutorado. Não são raros os professores que constituem parcerias com os cursos de Fortaleza (laboratórios da UECE e da UFC) visando à produção científica, de artigos, etc. O problema se centra nas individualidades, ou seja, são os professores – alguns professores – que realizam pesquisas e buscam publicar seus resultados, independente de suas unidades de trabalho, sendo, portanto, quase sempre produzidos alheios aos estudantes. Há, deste modo, clara ausência de pesquisas e mesmo da cultura acadêmica universitária propriamente dita que envolve, ainda, cursos de extensão e outras atividades. Esta situação de levantar recursos, de comparar com os investimentos em Fortaleza, se mostrou bastante comum nas universidades e faculdades pesquisadas, mas na UECE, em seus campi do interior, essa realidade é evidente demais. Acreditamos que este fator, associado a diversos outros elencados aqui, são preponderantes para a não permanência desses professores nas cidades onde trabalham, trazendo significativas implicações para o trabalho docente.
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