1 Innledning
1.3 Data og metode
Conheci os espaços das Organizações Não Governamentais (ONGs) como instituições que possuem “vínculos com a sociedade civil organizada, com os movimentos sociais e populares, com as associações de moradores” (GOHN, 2005, p.106) e atuam no seu fortalecimento.
Existe uma forte crítica à proliferação de ONGs afirmando exatamente o contrário: que elas estão enfraquecendo os movimentos sociais por angariarem fundos e a credibilidade que antes era destinada aos movimentos, como explica Montaño:
As ONGs passaram paulatinamente, na década anterior, a ocupar o lugar dos movimentos sociais, deslocando-o de seu espaço de luta e da preferência na adesão popular (...) a ONG, outrora concebida para ficar ao lado e apoiando o movimento social, passa agora a ser o ator principal nesta relação (2002, p.271).
Assim como muitos autores decretaram o fim dos movimentos sociais com sua fragmentação, também o crescimento das ONGs tem gerado questionamentos. Mas as possibilidades de atuação crescem no lugar de reduzirem, os movimentos sociais podem ser fortalecidos com a parceria das ONGs e a articulação em redes e fóruns proporcionam um intercâmbio rico em propostas de transformação social.
A força política das ONGs cresce e entre seus principais objetivos está a melhoria das condições de vida dos mais diversos segmentos e a luta pelo direito que possuem de participação e de organização em movimentos sociais.
No Brasil, as ONGs desempenham um papel fundamental na melhoria do padrão político da sociedade civil, por atuarem diretamente na reforma de base do alicerce cultural que suporta as instituições ainda duramente vulneráveis ao poder do estado patriarca e do mercado padrasto, tradicionalmente coniventes entre si (PAIVA, 2003, p.68).
Um problema é o aumento indiscriminado de ONGs, “com as mais variadas bandeiras, reduzindo a concentração do teor dos princípios instituidores desses modelo de ação da sociedade civil” (2003, p.84). Uma saída possível para esta situação seria a consolidação do conceito de ONG e uma maior fiscalização da sua atuação, como propõe Paiva.
Os dois sujeitos coletivos, movimentos e ONGs, podem caminhar juntos e fortalecer um ao outro. Muitos projetos desenvolvidos por ONGs possuem o foco voltado para a ampliação da atuação de movimentos sociais, como pude participar de algumas ações de comunicação popular em bairros de Fortaleza.
As ONGs que trabalhavam com projetos de comunicação estavam mais abertas às possibilidades de utilização de novas ferramentas de mídia, como a “rádio poste”, e desenvolviam produtos com uma linguagem que reconhece e
valoriza a fala dos grupos sociais, as gírias e os regionalismos. A aproximação com as comunidades e os movimentos sociais tornava mais instigante a possibilidade de conhecer os trabalhos que desenvolviam na área da comunicação.
Além de um novo campo profissional que se abria, a possibilidade de ser bolsista e estagiária de ONGs, durante a faculdade, vislumbrou para mim um projeto de vida mais consistente que, apesar de delimitar meus anseios, deixou- me propensa às transformações que cada experiência me possibilitaria..
Se antes imaginava que atuar em ONGs seria uma forma de fortalecer movimentos sociais e ampliar minha prática, depois, percebi que, mais do que isso, essas experiências fizeram que eu deixasse de perceber apenas a importância dos grupos para enxergar a de cada pessoa, de cada história.
1.5.1 A redescoberta da cidade pelas histórias de vida de anônimos
A minha primeira participação em uma ONG foi como bolsista de um projeto de pesquisa que teria como produtos um documentário e um livro com pessoas anônimas, mas que habitavam a cidade de uma forma diferente, que possuem um olhar apurado, sem pressa para enxergar os detalhes. O projeto fez com que eu lembrasse o período em que andava de skate e conheci a cidade, mas agora iria conhecê-la com os olhos de outras pessoas.
Entrei no projeto Cidade Anônima, desenvolvido pela ONG Alpendre – Casa de Arte Pesquisa e Produção, que desenvolve trabalhos de produção e pesquisa em audiovisual – com a função de encontrar “o narrador que retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora a história narrada à experiência dos seus ouvintes” (BENJAMIN, 1994, p.201).
Passei seis meses percorrendo bairros, praças, avenidas e comunidades em busca de pessoas que pudessem fazer um relato de suas vidas ao mesmo tempo em que contam a história da cidade. No meu bairro, Jardim das Oliveiras, conheci Fátima, mãe de santo e líder comunitária, que descreve as
pessoas pelas suas energias e narra as histórias de sua espiritualidade; Raimunda é Pajé da tribo dos Tapebas e trabalha no posto de saúde mais próximo, “o meu compromisso na comunidade é cuidar dos remédios de medicina, como eu me criei, e a minha mãe era curandeira, né? Antes dela morrer passou a experiência que tinha para mim” (FURTADO, 2004, p.14), conta; Pedrinho é relojoeiro da praça de Messejana e conta suas histórias e de seu bairro a partir dos amores que viveu.
Cada pessoa revelava uma cidade diferente. A experiência na ONG Alpendre fez com que eu olhasse para as pessoas nas ruas e começasse a imaginar suas histórias, que imagens tinham de suas vidas, do tempo, que relação tinham com sua espiritualidade, que amores tinham vivido.... Passei a perceber que todos temos algo para dizer e as melhores histórias são as “contadas pelos inúmeros narradores anônimos” (BENJAMIN, 1994, p.198).
Com o projeto Cidade Anônima, passei a perceber que o singular é tão importante quanto o coletivo, já que “nosso sistema social encontra-se integralmente em cada um de nossos actos, em cada um dos nossos sonhos, delírios, obras, comportamentos. E a história deste sistema está contida por inteiro na história de nossa vida individual” (FERRAROTTI, 1988, p.26).
A união de pessoas em movimentos fortalece as lutas, torna as conquistas mais tangíveis, mas foi exatamente na ânsia de representar também nossas heterogeneidades que as lutas foram fragmentadas e surgiram os Novos Movimentos Sociais. Se, por um lado, cada pessoa quer encontrar o seu “devido lugar”, como diz Josso (2004), também necessitamos nos sentir únicos. Valorizar cada história é reconhecer que os grupos são formados por semelhanças e diferenças. Contar a história de uma comunidade somente a partir do que seus moradores possuem em comum é esquecer as singularidades que tornam a história e luta daquela comunidade únicas, autênticas.
1.5.2 Início do diálogo entre comunicação e educação popular
A segunda experiência em uma ONG respondia a minha ânsia de contribuir para o fortalecimento das lutas de uma comunidade por meio da comunicação popular. Algumas rádios comunitárias tinham a preocupação de formar seus comunicadores, mostrando o interesse de aprimorar a qualidade dos produtos e de desenvolver as possibilidades educativas do veículo.
Além das preocupações mais objetivas com a gestão da rádio, existia uma preocupação com a formação das equipes de comunicadores da emissora e com a grade de programação. Esses dados refletem o cuidado de alguns comunicadores com a construção de uma proposta comunicativa plural, com os princípios educativos voltados para a cidadania e conscientização dos excluídos (OLIVEIRA, 2007, p.117).
Diante da demanda por formação, algumas ONGs desenvolveram projetos, passaram a apoiar comunidades organizadas, desenvolvendo projetos sociais e culturais que contribuíam com o desenvolvimento de experiências de comunicação popular.
Assim, por meio de um projeto do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDECA), ONG que desenvolve um trabalho de fortalecimento de movimentos sociais e de garantia dos direitos de crianças e adolescentes e estava contribuindo com a criação de uma rádio no bairro Passaré, tive a oportunidade de mediar oficinas de comunicação e rádio para essa comunidade e ver nascer a primeira rádio comunitária do bairro. Esta foi uma experiência formadora para mim por ter iniciado minha atuação como educadora popular e por ter me possibilitado participar do cotidiano de uma rádio comunitária.
Durante seis meses, mediei oficinas de comunicação aos finais de semana e participei da instalação da rádio comunitária do bairro e de suas primeiras transmissões. Naquele momento, ainda não imaginava como a educação popular iria fazer parte de minha vida, mas já começava a entender a relação entre comunicação e educação.