No período da Abolição e da proclamação da República a mentalidade parnasiana e positivista invadem a socieda- de brasileira na Belle Époque com o lema, extraído da Ars Poetica de Horácio,“ tirar a luz da fumaça” , e o sentimen- to nativista do início do século foi substituído pelo repú- dio à vida rotineira e aos arcaísmos, aos modos provinci- anos e as sociabilidades causadas pela sociedade escra- vista; no Rio de Janeiro e nas cidades maiores. Nas duas primeiras décadas do século XX esta tendência se espa- lha pelo interior dos estados do sul, mais ligados à cultura européia. A ansiedade pelo cosmopolitanismo, num de- sejo sôfrego pela europeização e modernização percorre- ria o país, agora num quase “ desejo de ser estrangeiro” . O expediente paródico se multiplica nessa difusa busca por uma identidade nacional, onde a farsa e a ilegitimida- de predominam, e, como perpicazmente observa Saliba (op.cit.), as manifestações críticas aparecem com insistente redundância paródica, o que sempre produz uma relação tensa entre representação paródica e o real parodiado. Enfim, o recurso da paródia humorística é uma atitude le- gítima frente à ambigüidade das esferas públicas e priva- das, e torna-se cada vez mais marcante e recorrente nas manifestações culturais brasileiras.
Essa ambigüidade entre a vida pública e privada numa sociedade escravista, com uma elite corroída pelo com- plexo de inferioridade em relação ao europeu e permeada por ilógicos e inexplicáveis paradoxos, sempre teve no Brasil, como tônica, a dificuldade de representação direta da realidade ou de auto-representação. Esse país, onde as sociabilidades privadas apresentavam-se como possibili- dades, como uma promessa para um futuro incerto, não se poderia fugir da emotividade que tal insegurança pro- vocava. E os humoristas se valiam disso com maestria, o que facilitou e propiciou o aparecimento e o desenvolvi- mento de uma geração de excelentes humoristas na vira- da do século e nas décadas seguintes.
Charge do pintor Teixeira da Rocha, publicada em 17/11/1889 em A Vida Fluminense - série 1ª. HL
Como esclarece Saliba (op.cit.pp 291) : “ … do ponto de vista dos atores históricos, …, era difícil pensar numa representação da vida pri- vada brasileira que não fosse pela via da cons- tatação da falta de sentido ou da imperiosa necessidade de recriar os significados — que sempre foram as características intrínsecas de uma representação cômica ou humorística do mundo e da vida” . Isso não quer dizer que to- das as representações fossem humorísticas, mas estas ficavam sobremaneira favorecidas por estes fatores. E, com certeza, esta é a mais profunda raiz da apropriação humorística das representações como uma característica mar- cante da cultura brasileira.
O hum or paródico, no caso brasileiro, com suas estratégias efêmeras de auto-represen- tação e de legitimidade, descompromisso com o todo, ausência de sistematização e fragmen- tação, provoca a realimentação do sentimen- to de desenraizamento e a sensação histórica de desterro.
A realidade da vida privada brasileira ainda estava distante do individualismo e dos ide- ais modernizadores e liberais que colocam o viver cotidiano em convívio permanente com a coisa pública. Assim, a representação da vida cotidiana pela reiteração do cômico é uma de- corrência desse imaginário, cujo núcleo é a ambigüidade, a contradição e o paradoxo. Conforme o que disse acima, parece que esta situação favoreceu a entrada de muitos estran- geiros na imprensa e no humor nacionais des-
se período, que, mesmo na condição de estrangeiros, sem- pre tiveram acolhida por aqui e adaptaram-se à vida bra- sileira. A situação na Europa colaborou para grandes flu- xos migratórios, onde o Brasil fazia parte dos destinos possíveis.
Pouco antes da Proclamação da República, seguindo o ca- minho de Agostini e Borjalo Pinheiro, recebemos o artista gráfico português Julião Machado, que deu novo impulso à modernização das artes gráficas com a introdução das gravações em zinco e de modernas técnicas litográficas, e
com um design novo e em sicronia com o que se produzia na Europa, especialmente na França, naquele momento. Exerceu grande influência sobre a geração que viria: J.Carlos, Raul Pederneiras, K.Lixto, Crispim do Amaral, Helios, Yantok, Luis, Storni e muitos outros em suas pri- meiras aventuras pelo desenho de caricatura e pelo de- sign gráfico.
Capa da Revista A Bruxa de 11/12/1896, cujos diretores proprietários eram Olavo Bilac e Julião Machado. HL
Perseguição: Jogo do Bicho no Rio. Agostini, Don Quixote, 20/4/1895. HL
O BRASIL EM 1896. Agostini, Don Quixote,1896. HL
Capa de Agostini para o Don Quixote de 18/2/1895. HL
O CARNAVAL DO D.QUIXOTE
D.Quixote resolveu mascarar-se de Zé Cubino (jacobino) ultranativista, e o Sancho de Zé Povinho fluminense.
Sancho Pança: — Qual dos três disfarces me assentará melhor?
D.Quixote:— Parece-me que, por ora, esse de carneiro não vai mal!
Angelo Agostini, D.Quixote. 15/2/1895. HL
Charge de Bambino sobre a Festa da Penha no Rio. Mais um precurssor do estapafúrdio macarrônico”?
O Mercúrio, 4/10/1898. HL
QUARTA-FEIRA DE CINZAS PELA MANHÃ, à espera do primeiro bonde. Angelo Agostini,
D.Quixote, 22/2/1896. HL
Neste fio condutor dos autores brasileiros de humor, nas primeiras décadas do século XX, Bastos Tigre botaria sua verve humorística a serviço da publicidade com seus re- clames geniais; e artistas e desenhistas de grande talento, tais como K.lixto, Belmonte, J.Carlos, Raul, Luís, Voltolino, Martiniano, Théo, etc, etc, publicavam seus trabalhos em revistas humorísticas e jornais de ótimo nível: O Malho, Fon-fon, Careta, e outros. Baseados no traço clássico do humor do fin de siècle, com as técnicas litográficas na imprensa em plena voga, a criação humorística gráfica bra- sileira tinha um requinte à altura da européia e da norte- americana. E também expressava, em certo grau, aquele “ desejo de quase ser estrangeiro” , na ânsia pela moder- nização do Brasil. E através de pioneiros isolados — ca- racterística marcante da evolução do design gráfico em todos os tempos —, também publicava criadores engaja- dos, os quais influenciavam seus pares com suas novas criações, expedientes e técnicas. Adiante veremos, a cada década, alguns exemplos memoráveis, que bem retratam a intensidade da busca desses novos artistas.
Capa do Nº 1 de
O Mercúrio, 2/9/1898. HL Este, foi o primeiro
jornal diário com cores publicado no Brasil. O design de página, ilustrações, charges e caricaturas de Julião Machado valorizaram muito a publicação. A influência de Jules Cheret e da estética francesa do período é patente.
O Dr. Floresta de Miranda era na época o diretor dos serviços de água do Rio.
Julião Machado, O Mercúrio, 28/7/1898. HL