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Neste capítulo foram apresentados os resultados referentes à medida do estado de saúde, além de uma análise descritiva da amostra considerada no estudo. Antes de discutir os principais resultados obtidos é importante registrar duas limitações deste trabalho.

A primeira delas refere-se à medida do estado de saúde utilizada, baseada em indicadores de morbidade referida, ou auto-percebida. Como já destacado ao longo deste texto, a auto-percepção da saúde pode variar em função de fatores

ligados às experiências sócio-culturais dos indivíduos, ao ambiente no qual estão inseridos e à disponibilidade e acesso aos serviços de saúde (Pinheiro et al, 2002).

Outra importante limitação presente neste trabalho refere-se à utilização da informação prestada pelo respondente secundário (Viacava, 2002; Viacava et al, 2006; Pinheiro et al, 2002). De acordo com Viacava et al (2006), existe uma forte associação entre o sexo do indivíduo, cujo estado de saúde está sendo avaliado, e o de quem fez a avaliação. Com base nos dados da PNAD 1998, os autores relatam que 26,5% dos homens e 46,5% das mulheres avaliaram seu próprio estado de saúde. Uma possível explicação pode estar associada à maior participação dos homens no mercado de trabalho.

De qualquer forma, a morbidade “auto-referida” informada por uma terceira pessoa introduz um viés nas respostas. Apesar de não se ter certeza da direção desse viés, certamente ele é tanto mais importante quanto maior o grau de subjetividade dos quesitos (Viacava, 2002). Na amostra estudada da PNAD 2003, os informantes secundários do Suplemento Saúde corresponderam a 46% do total.

A limitação acima justifica a exclusão do respondente secundário no estabelecimento da curva de referência de distribuição de saúde. Por outro lado, visando à possibilidade de generalização dos resultados e à sua comparabilidade com outros já relatados na literatura, a estimativa da desigualdade em saúde baseou-se na totalidade da amostra.

A medida do estado de saúde implementada neste trabalho baseou-se na conjugação da auto-percepção do estado de saúde (indicador tradicionalmente utilizado, principalmente dada a facilidade de obtenção desta informação em inquéritos populacionais), com indicadores menos sujeitos à influência de fatores psicológicos, emocionais e sociais, como a prevalência de doenças crônicas e os indicadores de mobilidade física.

Sua estimativa foi baseada no ajuste do modelo da Teoria de Resposta ao Item específico para o tratamento de indicadores ordinais. Uma das suposições associadas à construção de um índice refere-se à unidimensionalidade, hipótese

comprovada por meio da estimação da matriz de correlação policórica dos indicadores de saúde e seus autovalores. Observa-se a existência de um autovalor dominante, responsável por explicar aproximadamente 50% da variabilidade total. Além disso, destaca-se que todos os indicadores são positivamente correlacionados, o que reforça a adequação do conjunto para a estimação de uma medida síntese do estado de saúde.

A análise dos itens permite constatar que os indicadores de mobilidade física são os que forneceram mais informação para a construção da escala, seguidos pela auto-avaliação do estado de saúde. De forma geral, os indicadores utilizados são particularmente úteis no fornecimento de informação para os níveis mais baixos de estado de saúde, e, por outro lado, contribuem pouco para a diferenciação dos indivíduos de melhor estado de saúde.

Isso não ocorre na construção da escala de nível socioeconômico, baseada na mesma metodologia estatística (Anexo I deste texto). A comparação das curvas características dos itens e das curvas de informação construídas para a medida do estado de saúde e para a medida do nível socioeconômico permite avaliar a importância da análise dos itens na etapa de elaboração do instrumento da pesquisa. Os itens utilizados para a medida do nível socioeconômico possuem papéis claros e bem definidos, e todos contribuem para a medida, alguns incorporando informação para a diferenciação entre pessoas de baixo nível socioeconômico (como a posse de rádio), e outros incorporando informação para a diferenciação entre pessoas de mais alto nível socioeconômico (como a posse de freezer).

Os itens utilizados para a medida do estado de saúde, em sua maioria, trazem informação para os indivíduos de pior estado de saúde, mas não acrescentam muito para a diferenciação dos indivíduos saudáveis.

Apesar disto, as curvas características demonstram que todos os itens estão contribuindo para a medida na direção esperada. Para os indivíduos de melhor estado de saúde pode ser constatada maior probabilidade de auto-avaliação de saúde positiva, baixa probabilidade de possuir qualquer uma das doenças

crônicas avaliadas e alta probabilidade de não possuírem restrições leves ou graves de mobilidade física.

Além disso, quando avaliada a associação entre os indicadores do estado de saúde e a medida gerada pelo ajuste do modelo da TRI, observou-se, empiricamente, que a medida do estado de saúde é uma boa síntese do conjunto de indicadores disponíveis na PNAD 2003.

A análise dos resultados apresentados na TAB. 7 aponta a existência de um grupo de indivíduos (Grupo 4) que possuem a melhor situação em todos os indicadores considerados. No outro extremo, o Grupo 1 é composto por indivíduos de saúde mais frágil, com prevalência de doenças crônicas superior aos dos demais grupos, além de maiores restrições de mobilidade física.

Esses resultados sugerem a adequação de utilização desta medida do estado de saúde para a avaliação da desigualdade em saúde, foco principal desta tese e que será tratado no próximo Capítulo.

5 AVALIAÇÃO DA DESIGUALDADE EM SAÚDE

Este capítulo apresenta os resultados referentes à avaliação da desigualdade em saúde, tanto com base na comparação entre grupos quanto por meio da avaliação da distribuição da saúde e sua comparação com o grupo de referência.