A agricultura é vista como fonte infinita. A cada dia testificamos o desgaste dessa atividade, pois as frações ambientais, das quais a agricultura se utiliza para a sua existência, estão cada vez mais escassas. “Cada vez torna-se mais claro que a crise que vivemos nos dias de hoje é uma crise única [...] questões cruciais e decisivas para o futuro histórico da nossa espécie.” (LAGO; PÁDUA, 1984, p.11). As águas e os solos estão sendo contaminados, o ar está sendo poluído, as matas estão sendo devastadas, além dos fatores limitantes como o clima, que se encontra cada vez mais imprevisível e instável. Estamos presenciando a simplificação dos processos biológicos, o desgaste da atividade agrícola, a inversão de valores nas relações sociais e o agravamento da pobreza. O sistema de modernização do campo limita a função genuína da agricultura, ou seja, o que seria de fundamental importância para a continuidade da vida humana na terra se torna numa simples fábrica de produtos para o consumo.
O balanço energético do sistema de produção convencional é bastante desequilibrado, tornando o sistema ineficiente e insustentável do ponto de vista ambiental, social e também econômico. Problemas como intensificação do êxodo rural e inchaço das grandes cidades, degradação e destruição das florestas, contaminação dos solos, das águas e dos alimentos, problemas graves de saúde dos trabalhadores, erosão dos solos e desertificação são alguns dos problemas recorrentes desse sistema de produção.
Ao contrário do que pensam os defensores do sistema produtivo convencional, a produção agrícola é influenciado por limites naturais, na qual o homem não consegue controlar ou dominar. A simplificação dos processos produtivos afeta a diversidade de ecossistemas complexos. A atual relação capitalista de produção se baseia na segregação do homem com a natureza. Esse sistema se vale ainda da simplificação da biodiversidade, com a implantação da monocultura, a
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introdução de insumos químicos e a crescente comercialização de sementes geneticamente modificadas.
Essa relação de produção visa atender a grande demanda de consumidores, causando o crescimento do processo industrial na agricultura e conseguintemente a defasagem dos recursos naturais e a reprodução e distribuição desigual dos lucros.
Existem várias perturbações a nível socioeconômico e ambiental encontradas nesse sistema. O fato desse modelo ser fundamentalmente monocultor atrai uma sequência de problemas, que vão desde o empobrecimento do solo até o endividamento do agricultor camponês. Conforme GUTERRES (2006, p.19) as monoculturas empobrecem o solo, enfraquecem a resistência das plantas, atraem cada vez mais doenças epidêmicas, elimina os micronutrientes necessários para a saúde das planta e simplifica a biodiversidade natural. Para solucionar esses problemas, surgem outras sucessões de problemas afim de sanar, de forma imediatista, os obstáculos inicialmente encontrados.
O uso de insumos químicos para acabar com as “pragas” e fortalecer alguns poucos nutrientes do solo são métodos crônicos e ocorrentes no sistema. A homogeneidade desse modelo enfraquece os mecanismos de auto regulação e defesa natural das plantas. A incompatibilidade do uso desses métodos convencionais à nossa realidade tropical, trouxe graves problemas ambientais, como o uso abusivo dos agrotóxicos:
[...] a utilização de agrotóxicos constitui-se em um dos fatores que podem gerar inclusive processo de desertificação, principalmente nos países em desenvolvimento, onde boa parcela de utilização daquele se dá de modo indiscriminado, devido principalmente à carência de orientação técnica especializada, bem como sem posterior avaliação de impacto do uso do mesmo na área de cultivo (BRITO; KELTING, 2012, p.40).
O uso abusivo e indiscriminado dessas substâncias afetam, através da drenagem natural, as águas superficiais e subterrâneas, contaminando e matando os habitantes aquáticos e os seres humanos que se utilizam desse bem precioso que é a água. A intensidade da utilização de insumos químicos só aumenta, pois as “pragas” estão resistindo às novas fórmulas e preparos químicos das multinacionais, obrigando o uso de doses cada vez mais pesadas. Em consequência, o custo de produção do agricultor camponês só aumenta. O camponês, ao adotar o pacote de insumos
químicos, vem se endividando, pois, não consegue a longo prazo sanar com os problemas encontrados nas lavouras. O uso do pacote tecnológico e o retorno desejável, á longo prazo, pelo camponês são incompatibilizados devido a não durabilidade dessas medidas, ramificando mais ainda os problemas desse sistema. A dependência do agricultor à esses mecanismos convencionais vem se tornando um grande problema social. Dessa forma os(as) agricultores(as) não possuem autonomia nos processos de produção, são limitados à produzirem uma meia dúzia de espécies geneticamente modificadas, são reféns dos bancos de sementes do governo (sementes produzidas por multinacionais), são obrigados a produzirem alimentos insalubres pelo uso de veneno químico e pelo uso de sementes geneticamente modificadas – SGM. Ainda não se comprovou publicamente os prejuízos do uso das SGM no organismo humano, mas já se tem comprovações dos malefícios dessa técnica em cobaias de laboratórios e nos agroecossistemas e ecossistemas.
Agora é a vez da soja transgênica, dos falsos bosques da celulose e do novo cardápio dos automóveis, que já não comem apenas petróleo ou gás, mas também milho e cana-de-açúcar de imensas plantações. Dar de comer aos carros é mais importante do que dar de comer às pessoas. E outra vez voltam as glórias efêmeras, que ao som de suas trombetas nos anunciam grandes desgraças. (GALEANO, 2010, p.6)
Os desastres ecológicos, em nível planetário, estão sendo percebidos, cada vez mais, pelas sociedades mundiais. Antigamente, a natureza, e os problemas decorrentes dela, eram vistos de forma segregada às ações humanas. Leonardo Boff (2008, p.35) esclarece que “A natureza não está só fora mas também dentro de nós. Pertencemo-nos mutuamente. Qualquer agressão à Terra significa também uma agressão aos filhos e filhas da Terra.” Lago e Pádua (1984, p.23) com maestria dizem que o homem compõe uma pequena parte da grandiosa sinfonia da vida na Terra e que possui “a capacidade de entender racionalmente esse grandioso processo” através da consciência de si mesmo e de seus atos e “deveria ser o primeiro a considerar sagrada a natureza[...].”
O preparo da terra com técnicas próprias à climas temperados, o uso abusivo de maquinário pesado e insumos químicos, a falta de cobertura dos solos, dentre outro fatores, impedem a flora microbiana de desenvolver-se, destruindo a fertilidade e o rendimento dos solos. A erosão dos solos são um dos fatores que contribuem para a desertificação em várias extensões de terras por todo o mundo.
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[...] os processos de produção agropecuária e de consumo hoje vigentes são causadores de entropia e todo tipo de deterioração das bases ecológicas que sustentam a capacidade de atender as necessidades de alimentação da humanidade, de uma forma mais segura e duradoura. (CAPORAL; COSTABEBER, 2009, p.12).
Os modelos de agricultura alternativa surgem justamente nessa defasagem dos padrões atuais de produção convencional, porque “[...] a monocultura é uma prisão. A diversidade, ao contrário, liberta.” (GALEANO, 2010, p.7)