O ser humano tem apresentado inquietações, ao longo dos séculos, para compreender a origem, o âmago e a realidade do fenômeno da violência, com o objetivo de amenizar, prevenir e impedir a concretização desse fenômeno no convívio diário em sociedade.
Minayo (1990), ao tratar sobre a violência não a considera como um elemento figurativo, pois pode concretizar-se na coletividade como violência de guerra, violência familiar, violência da classe dominante e muitas outras formas. A violência está relacionada ao contexto, circunstância em que o ser humano vive, às experiências vivenciadas, aos processos psicológicos e às características individuais. O fenômeno da violência propaga-se desde nações em guerra até em experiências de automutilação.
Definir um fenômeno tão complexo e multicausal como violência constitui-se em tarefa difícil que exige densa interpretação das suas diferentes faces.
Autores como Waiselfisz e Maciel (2003) assinalam duas questões que dificultam a conceituação de violência. A primeira refere-se ao fato de que o significado de violência é construído socialmente, que é alterado de acordo com o período histórico ou contexto social. A segunda questão apontada pelos autores está atrelada ao fato de que o termo violência pode se reportar a circunstâncias bastante diferenciadas, como a violência doméstica, violência contra mulher, criança, jovem, violência física, criminal, racial, etc.
Minayo (1994; 2007) pontua que a violência não está na natureza biológica, apesar de ser eminentemente humana e emergir das relações sociais; entretanto nenhuma sociedade está isenta desse fenômeno, pois todas as formas de agrupamento social, em épocas específicas, apresentam formas particulares de violência. Assim, existem sociedades mais violentas do que outras, o que mostra a importância da cultura na maneira de resolver conflitos. A autora aponta que no desenho da violência atravessam problemas relacionados à política, economia, moral, ao direito, à psicologia, às relações humanas e institucionais e às questões da esfera individual.
Assim, a violência considerada como problema social derivado e assimilado no convívio em sociedade requer, para sua superação, de conexões de ordem intersetorial, interdisciplinar, multidisciplinar, além do envolvimento de organizações da sociedade civil e comunitária. “Sobretudo, há que se atuar com uma visão ampla do fenômeno, mas em níveis locais e específicos” (MINAYO, 1994, p. 16).
Existem diferentes definições para a violência, muitas coincidentes outras divergentes. Trata-se de um fenômeno que deve ser encarado sob diversos ângulos e que apresenta causas variadas, que “atingem a todas as pessoas e as afetam emocionalmente; a violência foge a qualquer conceituação precisa e cabal” (MINAYO, 2007, p.17). Portanto, conceituar violência é difícil, complexo e inquietante, visto que há de se considerar pessoas, sociedades, instituições, que constroem a violência. Os conceitos de violência são, em princípio,
determinados pela tradição sociocultural e pelo conhecimento de cada um. E, querendo ou não, é impossível definir esse fenômeno distanciando-se de sentimentos e conhecimentos.
Nenhuma definição e categorização sobre a natureza da violência se faz completa, tendo em vista a complexidade do fenômeno, mas Chauí (1999) apresenta algumas características da violência, na realidade brasileira, que nos permite uma melhor compreensão desse problema.
Para Chauí (1999), a violência, na realidade brasileira, é camuflada por, essencialmente, alguns dispositivos de imagem e explicação, dessa forma a realidade da violência se torna de difícil visibilidade e compreensão pela sociedade. O primeiro dispositivo é o jurídico, no qual a violência está centrada somente no crime contra a propriedade e a vida da pessoa.
Essa concepção restrita do que é violência impede que muitas vezes esse fenômeno seja reconhecido no cotidiano, ou seja, algumas formas de violência se tornam invisíveis, como a violência psicológica, discriminação da cor, idade, sexo, etnia, negligência, constrangimentos, etc. Algumas vezes, percebe-se mais um tipo de crime em detrimento a outros como a violência doméstica que só, há pouco tempo, é vista como violência. Até os dias atuais, um número significativo da população brasileira não considera a violência doméstica como violência e sim como uma forma de relacionamento familiar.
O segundo dispositivo é denominado “dispositivo sociológico”. A violência é considerada “um momento de anomia social, isto é, um momento, no qual grupos sociais “atrasados” ou “arcaicos” entram em contato com grupos sociais modernos e, desadaptados, tornam-se violentos” (). Nessa linha de pensamento Minayo e Souza (2003) afirmam que:
[...] o caráter globalizador e generalizante é tão forte no imaginário nacional e na opinião pública que criminalidade e delinquência são vistas como uma produção autônoma de determinados atores (sobretudo os pobres e habitantes das periferias), sem nenhuma vinculação com outras questões sociais (MINAYO; SOUZA, 2003, p.32).
Nesse contexto fica evidente o preconceito direcionado a alguns grupos sociais, que são vistos como tendo nascido com o estigma da violência impregnado em si e não são capazes de mudar essa realidade, de serem educáveis.
Por último, a autora mostra o dispositivo do pensamento em que a sociedade brasileira não seria violenta, no qual os casos de violência são apenas acidentes que ocorrem na “superfície da sociedade”. Chauí (1999) continua a explicar que, por esse motivo, a mídia fala
de violência, utilizando palavras como “surto”, “onda”, “epidemia”, “crise”, ou seja, como algo temporário e aleatório.
Dessa maneira, as desigualdades econômicas, sociais e culturais, as exclusões econômicas, políticas e sociais, o autoritarismo que regula todas as relações sociais, a corrupção como forma de funcionamento das instituições, o racismo, o sexismo, as intolerâncias religiosa, sexual e política não são considerados formas de violência, isto é, a sociedade brasileira não é percebida como estruturalmente violenta e por isso a violência aparece como um fato esporádico superável. (CHAUÍ, 1999.)
Seguindo o pensamento de Chauí, pode-se afirmar que a mídia através de novelas, filmes e noticiários trabalham a noticia da violência como algo “fora do normal”, como se a violência fosse uma exceção na nossa realidade. “Ela quebra discursos que estavam prontos, arranjados, arrumados: instaura um questionamento profundo daquilo que era considerado como nossa ‘normalidade’” (SHILLING, 2004, p.31).
O “extraordinário” nesse cenário consequentemente leva a situações em que as pessoas perdem o controle e a “repetição da mensagem acaba transformando o extraordinário em normal, fazendo com que, na nossa imaginação, os acontecimentos inesperados e incontroláveis se transformem em situações possíveis” (BUORO, 2010, p.37.). Dessa maneira, a violência apresenta uma amplitude muito maior do que realmente é, gerando o medo de situações violentas, sem ter-se vivenciado a ação violenta.
E o clima de medo da criminalidade que a sociedade urbana vive (BUORO, 2010) é estendido para a escola e, consequentemente, para o professor que, muitas vezes, não olha para o problema da violência doméstica com receio de se tornar vítima das famílias das crianças. Dessa maneira, a formação docente exerce um papel essencial na discussão sobre o fenômeno da violência doméstica em sua trama social, cultural e histórica para que o professor, ao conhecer o fenômeno mais profundamente, não seja totalmente paralisado pelo medo que a mídia, no dia-a-dia, exerce sobre a população geral.
Conhecer esses fatores, suas mediações e conexões estabelecidas entre os diversos níveis apresentados é agir na vanguarda da prevenção para atuar no enfrentamento da violência. Nesse sentido, em especial, as instituições que trabalham fundamentalmente com crianças e adolescentes deverão assumir esse enfrentamento. Esses serviços constituem espaços vantajosos para se operar por meio de um trabalho em rede5 junto aos que atuam para modificar a realidade. As ações voltadas para superação da violência necessitam estar
5 A rede é considerada como um modelo de organização composto essencialmente por agentes autônomos que
interligadas a medidas estruturais para redução das desigualdades. O acesso à saúde, à educação e ao lazer, a restrição de porte e venda de armas para a população e a formação constante de policiais são medidas de proteção contra a violência. Mas nada disso é suficiente, se não refletirmos sobre nossas posições e atitudes que compreendam a violência e a justiça, para a qual todas as pessoas (crianças, adolescentes, mulheres, idosos, etc.) devam ter o mesmo valor em sociedade. Dessa forma, a escola precisa ver a criança portadora do mesmo valor social que os adultos e não um cidadão de “segunda categoria”.