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3 Methodology

3.6 Data analysis

O percurso profissional dos investigadores tem início, na sua maioria, no pós-doutoramento. Contu- do, o percurso pós-doutoral não se apresenta de forma cronológica na trajectória científica do grupo de investigadores em estudo. Dos 55 investigadores em situação de pós-doutoramento, 43 são mu- lheres (78%), das quais 33 são portuguesas. A feminização dos pós-doutoramentos no laboratório re- trata a feminização da ciência portuguesa, particularmente nas gerações mais jovens (OCT, 2001). Es- ta situação, contudo, não se mantém nos cargos de chefia, como se pode confirmar pelo número de investigadores a exercer funções de investigador principal, ou de investigadores principais que acu- mulam funções de chefe de unidade, onde, a representatividade feminina decresce (Gráfico 7). Estes dados parecem indiciar que as mulheres ascendem minoritariamente a cargos de chefia, factor que surge descrito e estudado na literatura científica. A diferença de género tem um papel importante no aceleramento ou abrandamento da progressão na carreira científica. Um estudo recente, sobre esta temática, realizado num laboratório nacional francês (Batier et al., 2006), revela não haver uma clara discriminação ou efeito glass ceiling62, em relação às mulheres. Contudo, o estudo revela existirem uma soma de compromissos que fazem com que as mulheres académicas tenham de demonstrar maior envolvimento, nas várias dimensões da actividade científica, e performances mais altas que o género oposto, para progredirem na carreira, enfrentando maiores dificuldades para atingirem o to- po da carreira científica (Ackers et al., 2001; Casey et al., 2001). Outros estudos revelam os efeitos re- levantes do número de filhos ou das características dos departamentos de investigação (McDowell et

62

Morrison et al. (1987) definiram o efeito glass ceiling descrevendo a existência de uma barreira transparente que faz com que as mulhe- res não ascendam, para além de um certo nível profissional, em grandes corporações.

9 1 2 5 3 23 6 2 49 1 0 20 40 60 Investigador Investigador Principal Investigador Principal + Chefe de Unidade Investigador Visitante Administrador ciência Pós-doc N/A Sim Não

al., 2001) para a progressão na carreira. A existência de uma maior dificuldade para as mulheres em

serem muito móveis ou para estarem profundamente envolvidas na vida da organização, devido a maiores compromissos familiares (Ackers et al., 2001), são outros dados apontados como relevantes para a compreensão do fenómeno.

Gráfico 7: Posição do investigador no Instituto vs género

Relativamente às funções desempenhadas, a maioria dos investigadores da amostra (76) não tem uma posição classificável na carreira docente Universitária63 e apenas 23 investigadores têm uma si- tuação contratual permanente em instituições académicas (Gráfico 8). Estes dados parecem indiciar uma alteração no modo de fazer ciência em Portugal. Vários factores entram em linha de conta: ape- nas 24% dos investigadores da amostra mantêm o vínculo com a carreira docente, o acesso à carreira docente congelou-se significativamente a partir dos anos 90, o recurso a bolsas institucionalizou-se64, como forma de viabilizar o percurso em ciência (Gráficos 10 e 11), assim como a abertura de oportu- nidades em laboratórios de investigação fora da academia (Godinho e Simões, 2009).

Gráfico 8: Os investigadores do instituto e a carreira académica

63 Estatuto da Carreira Docente Universitária (decreto-lei nº 448/79 de 13 de Novembro com as alterações introduzidas pela Lei nº 19/80,

de 16 de Julho, e os aditamentos dos Decretos-lei nºs 316/83, de 2 de Julho, 381/85, de 27 de Setembro, 392/86, de 22 de Novembro, 145/87, de 24 de Março, 147/88, de 27 de Abril, 412/88, de 9 de Novembro, 35/85, de 1 de Fevereiro, 456/88, de 13 de Dezembro, 393/89, de 9 de Novembro, 408/89, de 18 de Novembro, e 388/90, de 10 de Dezembro, 252/97, de 26 de Setembro).

64 Para uma análise da evolução do SCP ver Nunes e Matias (2004).

1 1 1 2 17 43 1 1 1 2 5 15 11 Administrador ciência Investigador Visitante Investigador Investigador Principal + Chefe de Unidade Investigador Principal Pós-doc N/A F M 1 1 2 2 4 6 9 76 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Assistente Convidado Leitor Assistente Prof. Catedrático Prof. Convidado Prof. Auxiliar Prof. Associado N/A

No entanto, todas estas alterações e nomeadamente o desaparecimento do vínculo contratual, têm outro reflexo na carreira dos investigadores, a falta de estabilidade profissional, que provoca a cha- mada precariedade profissional (Kovács, 2002). Na amostra em estudo, apenas 39% dos investigado- res têm, pelo menos, um vínculo laboral contratual, os restantes investigadores surgem como inves- tigadores bolseiros. A ausência de vínculos contratuais não se refere apenas à situação dos pós- doutorandos, 10 dos 62 investigadores sem vínculo ocupam a posição de investigador principal, no IGC (Gráfico 9), o que revela a transversalidade da insegurança profissional existente.

Gráfico 9: Afiliações dos investigadores

É notória a relevância numérica dos investigadores pós-doutorandos (54) na amostra (Quadro 7), e a sua situação de bolseiros. Esta situação pode ser justificada pela dependência do IGC, e dos próprios investigadores, do financiamento público. No que toca ao próprio financiamento, 69 investigadores indicam a origem pública do mesmo, sendo 55% das bolsas provenientes da FCT, categorizadas como financiamento público português, nos gráficos seguintes.

Gráfico 10: Entidade financiadora da actividade do investigador, no período em análise

Gráfico 11: Origem da entidade financiadora 1 1 1 1 1 1 2 2 3 5 7 14 62 0 10 20 30 40 50 60 70 Empresa Instit. Invest. Priv. s/ fins Lucrat. + Instituição de Invest. Pública Instit. Invest. Priv. s/ fins Lucrat. + Universidade + Empresa Instituição de Investigação Pública Lab. de Estado Universidade + Instit. Invest. Priv. s/ fins Lucrat. Hospital Instit. Invest. Priv. s/ fins Lucrat. + Universidade Instit. Invest. Priv. s/ fins Lucrat. Lab. Associado Lab. Associado + Universidade Universidade N/A 67% 1% 32% Fin. Púb.

Fin. Púb. e Fin. Privado de Utilidade Pública S/Refª 55% 7% 4% 2% 32% Portugal EU Portugal + EU América do Sul S/Refª

A inexistência de um vínculo estável liga-se directamente à dependência das bolsas, que está em li- nha com o forte predomínio de relações de investigação com duração inferior a 3 anos. Em 2007 existiam no IGC 42 pós-doutorandos e 17 investigadores principais (2 dos quais acumulavam a função de chefe de unidade) com contratos desta natureza (Quadro 7). Estes dados indiciam a existência de oportunidades de investigação para as múltiplas funções existentes no laboratório, seja para pós- doutorados, seja para investigadores que assegurem ou iniciem unidades tecnológicas de topo ou de utilidade transversal ao instituto (chefe de unidade). Deste grupo de investigadores, apenas 17 têm uma relação de investigação com o instituto que perdura entre 4 e 6 anos. Este dado pode indiciar um crescimento acelerado da instituição que poderá ter começado com grupo de investigadores re- lativamente pequeno, contratando nos últimos três anos um grande número de investigadores. Este número evidencia contudo a grande rotatividade de investigadores em funções de curta duração na situação de bolseiros de pós-doutoramento. Os 8 investigadores pós-doc, com relações de investiga- ção entre 4 a 6 anos, evidencia um grupo de investigadores cuja trajectória e progressão na carreira está exclusivamente dependente da atribuição de bolsas consecutivas e múltiplos pós- doutoramentos. A natureza limitada do financiamento público determina o tempo de investigação de um investigador com uma entidade, normalmente de duração de 3 anos, promovendo a rotatividade dos investigadores nas instituições e limitando consequentemente o desenvolvimento do trabalho científico devido à consequente fragmentação e interrupção do percurso científico dos bolseiros.

Quadro 7: Nº de investigadores por função e anos ao serviço do IGC, por grupo de pertença em 2007

Anos ao serviço do IGC por grupo de pertença Função actual do inves-

tigador no IGC

[<= a 3] [4 a 6] [7 a 9] [>= a 10] S/Ref.

Total Interno Externo Interno Externo Interno Externo Interno Externo Interno Externo Administrador Ciência 2 - - - 2 Investigador Visitante 2 - - - 2 Investigador 1 - 1 - - - 1 - 3 Investigador Principal + Chefe Unidade 2 - 3 - 2 - - - 7 Investigador Principal 13 2 1 3 5 3 - 1 4 - 32 Pós-doc 34 8 5 3 - - - - 3 1 54 N/A - - 1 - - - 1 Total 54 10 11 6 7 3 0 1 8 1 101

Pode ainda verificar-se, que 8 investigadores principais têm relações de investigação que perduram entre os 7 e 9 anos, cuja maioria (5) pertence a grupos internos (Quadro 7). Este dado pode significar, por um lado, que o processo de conclusão dos 5 anos de incubação se pode prolongar no tempo, jus- tificado pelo culminar tardio dos resultados da investigação em curso; por outro lado, que o IGC pode ter interesse em ter grupos internos com um carácter mais duradouro, especialmente se liderados por investigadores seniores (os “research stars” de Mahroum65). Como surge identificado na literatu- ra, trabalhar em ciência implica, muitas vezes, o acesso a meios, infra-estruturas e capital humano (na forma de investigadores de topo), que não se encontram disseminados, mas sim reunidos em centros ou institutos, muitas vezes altamente especializados e ricos em recursos (Ackers, 2005). Para Mahroum (2003), estes centros têm um efeito “magnético” (atractor) e multiplicador de “star scien-

tists”, que apesar de serem em número reduzido - a sua reputação atrai os melhores e promissores

jovens investigadores. Esta parece ter vindo a ser a aposta chave do IGC, ao dar um carácter mais

permanente a alguns dos seus grupos internos, e do próprio Estado Português ao constituir em 1999

o estatuto Laboratório Associado66. O IGC foi um dos primeiros quatro laboratórios associados cria- dos pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia, através de um acordo de cooperação entre este e ou- tras duas instituições: o ITQB/UNL e o IBET67, em Novembro de 2000. Este estatuto atribui uma maior estabilidade de funcionamento aos laboratórios de investigação, uma vez que o apoio financeiro é contratualizado entre o Estado e os Laboratórios Associados e o estatuto é atribuído pelo período (máximo) de 10 anos, renováveis mediante avaliação positiva68. Em 2007, 6 grupos de investigação internos tinham o estatuto de Laboratório Associado, conferindo-lhes um carácter mais durável do que os 5 anos estipulados pelo IGC, como período limite de incubação, e justifica a longevidade de alguns desses mesmos grupos de investigação. No caso dos investigadores principais externos, a re- lação poderá prolongar-se, enquanto for profícua para ambas as partes.

65 Investigador de alto calibre (referência), cuja reputação funciona como elemento catalisador e atractor dos melhores e mais promissores

investigadores.

66 Estatuto definido no Regime Jurídico das Instituições de Investigação - Decreto-Lei 125/99 e “atribuído a instituições de mérito elevado

reconhecido em avaliações externas, na sequência de requerimento apresentado pela instituição e com base na avaliação da sua capacida- de para cooperar, de forma estável, competente e eficaz, na prossecução de objectivos específicos da política científica e tecnológica naci- onal”.

67

Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa e Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica.